O jornal A Bola está a ser editado em Angola desde Março, pela editora Só Bola, participada pelo grupo MediaNova. Por cá, a aposta em novos formatos publicitário ajudou, garante Vítor Serpa, a aligeirar a crise. A aposta é agora no online, suporte onde falta, diz o responsável, preparação por parte dos anunciantes, agências e entidades que “observam a imprensa”.
M&P: A Bola foi lançada em Angola no dia 9 de Março. Como é que está a correr o projecto? Qual é a circulação paga, neste primeiro mês?
VS: Nesta fase estamos a sair três vezes por semana, à segunda, quinta e sábado, os dias históricos d’A Bola, nos quais saiu durante 50 anos em Portugal. Mais tarde, se a resposta for positiva… Ainda não estamos com a tiragem que precisamos, porque a máquina que imprime o jornal ainda não está a funcionar a 100 por cento. Neste momento está com uma tiragem de 10 a 12 mil exemplares e o que tira é o que vende. A distribuição é feita sobretudo por ardinas, que vão gerindo os seus exemplares. Na terceira semana de Abril contamos ter a máquina pronta e vamos aumentar a tiragem, para cerca de 20 mil. O jornal é impresso na gráfica Damer, considerada uma das maiores e tecnicamente mais apetrechadas da África Austral.
M&P: Os conteúdos estão adaptados à realidade angolana ou a viver do que se passa em Portugal? Há uma equipa local?
VS: O jornal tem 40 páginas, dessas 10 já são sobre desporto angolano. O restante está a ser feito com as informações do jornal português. Temos um jornalista em Angola, Ricardo Quaresma, e o objectivo é que esteja sempre lá um redactor nosso, que vai mudando, integrado num núcleo de três jornalistas (locais). Brevemente irá também um fotógrafo. Mais tarde, vamos criar a possibilidade de trazer para Portugal jornalistas, no sentido de fazerem estágios aqui n’A Bola. Isto permite criar um núcleo próprio em Luanda, com formação e alguma relação com a realidade do jornal, e eu acho que é importante que isso aconteça, até no sentido de ajudarmos à formação de jovens jornalistas angolanos. Vamos também utilizar os nossos jornalistas para produzir entrevistas e reportagens e algumas notícias sobre angolanos na Europa. Temos também um protocolo com o jornal O País, do grupo MediaNova, jornal com o qual podemos trocar fotografias e conteúdos.
M&P: Em 2006 já falava em cobrir o continente Africano. Porquê só agora e porquê Angola?
VS: Angola, dentro do continente africano, é o país que tem mais condições para poder desenvolver este projecto.
Estivemos cerca de três anos a trabalhar nesta internacionalização, o que não tem sido fácil porque envolve questões técnicas que não estavam reunidas quando começámos. Foi possível encontrar soluções que possibilitassem a edição em Angola, permitindo fazer em cada edição um suplemento de desporto de Angola e tratar dos problemas da distribuição, o que não é fácil por ser um país enorme. A Bola já está a sair em Luanda e temos algumas perspectivas para que possa sair nas principais províncias do país. Mas foi preciso também encontrar os parceiros certos, que acreditassem em nós e ajudassem a tornar isto possível.
M&P: E os parceiros são? A MediaNova?
VS: Sim, mas não só. Foi constituída uma empresa de capital misto, a Só Bola, com capital angolano e de algumas outras pessoas…
M&P: Que são?
VS: Pessoas…
M&P: Ou seja, a Só Bola é que edita o A Bola?
VSP: Exactamente. Têm os direitos de exclusividade. É essa empresa que faz todo o processo de produção, distribuição e gestão comercial e acredito que o jornal angolano terá grande sucesso. O que fizemos foi abrir o mercado, não me conformo com um mercado de 10 milhões pessoas.
M&P: Poderá estar na calha a expansão para outros países africanos?
VS: Moçambique é também para nós um objectivo mas não gostamos de fazer as coisas andarem demasiadamente depressa. Queremos que a edição em Angola seja um grande sucesso e queremos enraizar o jornal em Luanda. Depois pensamos naturalmente na expansão, não só para Moçambique, mas também para a África do Sul.
M&P: Já estiveram também no Brasil. Como se encontra agora esse processo?
VS: Digamos que não tivemos uma experiência muito interessante no Brasil. O mercado brasileiro está muito ligado à realidade dos povos do Brasil. Um português quando chega ao Brasil imediatamente adopta um clube brasileiro como seu. Fiz uma experiência em São Paulo, há cerca de três anos, durante uns meses. Foi positiva mas do ponto vista comercial não correu tão bem. Encontrámos algumas dificuldades, inclusivamente da própria embaixada que não manifestou grande disponibilidade para apoiar o projecto e divulgá-lo junto dos portugueses.
M&P: O site da Bola é, segundo o ranking Netscope, o mais visitado a nível nacional. Esta notoriedade traduz-se também na rentabilidade do produto?
VS: Sim. Sem falar em números, talvez o facto de o site ser rentável seja uma das surpresas mais positivas do ano de 2008. O ano de 2009 vai ser essencialmente o ano de apostar o site.
M&P: Percentualmente, qual é a publicidade que o site angaria relativamente à edição impressa?
VS: A publicidade do site já representa cerca de 20 por cento das receitas.
M&P: Como é feita a gestão redactorial das duas plataformas?
VS: Neste momento está a acontecer a integração entre as duas áreas. Os jornalistas estão a trabalhar para os dois meios, praticamente indiferenciadamente para ambos. O Nuno Perestrelo, editor-executivo, passou a acumular a coordenação geral do online e Ana Soares passou a sub-coordenadora para essa área. Com estas alterações existe uma maior coordenação entre o online e a redacção geral, a haver apenas um grupo a trabalhar para os dois.
M&P: Começou por oferecer a edição impressa no site do jornal. Agora já limita muitos dos conteúdos. Porquê esta mudança?
VS: Foi uma experiência que fizemos e posso dizer-lhe que quando lançámos a edição online igual à edição em papel, sem custos, atingimos números impressionantes de assinaturas. As pessoas davam os seus dados para puderem entrar com uma password e tivemos números superiores a 300 mil, valor que desceu brutalmente assim que a edição começou a ser paga. Isto que dizer que, em Portugal, o significado do online é grátis. As pessoas entendem-no como algo ainda gratuito, caso contrário têm alguma dificuldade em recorrer a este meio. Agora temos a edição paga, com um número pouco significativo de assinantes que pretendemos fazer crescer nos próximos tempos e equiparar ao nível dos melhores sites. Sendo A Bola online líder no mercado, muitas vezes as pessoas perguntavam-nos porquê mudar. E eu considero que se deve mudar enquanto se é líder porque mudar quando já não se é, é bastante mais complicado. Daqui a cerca de um mês e meio vamos fazer uma reformulação muito grande nos site.
M&P: Falando de números, quanto vendem em banca e na edição digital?
VS: No online não é um número nada significativo, em banca vendemos cerca de 70 mil. Mas fala-se muito na diminuição das vendas dos jornais em papel, mas há cada vez mais gente a ler os seus conteúdos, embora online. Se existe uma diminuição de 4 por cento no papel e um crescimento de 30 por cento no online, no geral a audiência é maior. Trata-se é duma audiência repartida.
M&P: Que falta conseguir rentabilizar.
VS: As pessoas hoje não pensam que é preciso uma nova visão dos conteúdos e da forma como se faz chegar os conteúdos aos leitores. As empresas estão agarradas ao passado. As centrais de publicidade, as empresas que julgam que a visibilidade se consegue como há 20 anos. Se fossem tão rigorosas no investimento publicitário como na gestão… Tudo isto é uma mentira. Quando as empresas verdadeiramente se preocuparem em saber onde chega a sua mensagem e se o dinheiro é bem gasto, o online começará a ter mais rentabilidade. Depois, há outro problema. Todas as entidades que procuram observar o fenómeno da imprensa ainda não estão preparadas. Em França, por exemplo, a audiência é a soma do papel com o online. Temos que encontrar a mesma solução, que ajudará também a rentabilizar o online. Até porque, se é verdade que o mercado vive momentos difíceis, também é verdade que o online está a crescer de uma forma muito interessante.
M&P: Coloca a hipótese d’A Bola passar exclusivamente para o online?
VS: Penso que não. Pelo menos acho que não será um problema do meu tempo. Agora, não sei é se a aposta no papel será sempre a mais pesada. Pode haver uma inversão, embora esse equilíbrio seja muito importante. A afectividade com o papel é muito importante. Mas deixe-me acrescentar que a leitura de jornais ainda tem muito por onde crescer. No interior do país a média de leitura é absolutamente terceiro mundista, a mais baixa da Europa. Se se apostar numa política de informação e cultura, há grande margem para o crescimento dos jornais. Muita gente que não lê jornais não lê nada. Isto é grave, devia preocupar o governo.
M&P: E acredita que pode vir a preocupar?
VS: Penso que o governo anda muito preocupado com outras coisas muito importantes, como a sua imagem, para se preocupar com o fundamental.
M&P: Disse, numa entrevista ao M&P, que o Público seria o parceiro ideal para lançar uma publicação conjunta. O projecto do Sexta não correu bem. Mantém a mesma opinião?
VS: Eu não posso falar sobre o Sexta porque não tenho qualquer tipo de ligação ao projecto. O que posso dizer é aquilo que é do conhecimento geral. Mas eu tenho muita pena que o Sexta tenha terminado. Acho que foi uma experiência muito interessante, que era um jornal muito bem feito. O que falhou foi a realidade em que o Sexta foi lançado. Os gratuitos vivem da publicidade e o jornal saiu numa fase em que há uma crise intensa em todo o mundo. Um jornal que já exista e esteja enraizado ainda consegue, com muita dificuldade sobreviver. Aquele que precisa de começar a afirmar-se, naturalmente terá muitas dificuldades. Eu acho que o Público e A Bola têm um ponto em comum extremamente importante, que é o facto de não estarem ligados a grandes universos de comunicação. A ideia de que só quem se enquadrava em grandes grupos conseguia sobreviver começa agora a estar em causa. Hoje são precisamente as grandes empresas de comunicação que estão numa situação mais difícil e são as mais pequenas que acabam por encontrar formas mas ágeis para conseguir driblar a crise.
M&P: E como é que A Bola tem enfrentado a crise?
VS: A Bola tem enfrentado a crise de uma forma muito activa. Não queremos ficar sentados à espera que ela passe. Nós enfrentamos a crise precisamente com projectos, como o site ou os suplementos regionais.
Tudo isto está a agitar o mercado e são coisas novas que estão a ser lançadas em tempo de crise. É precisamente nestas alturas que temos de enfrentar as dificuldades com determinação e espírito combativo.
M&P: Algumas empresas de media despediram, ou chegaram a acordo com vista à rescisão, com alguns dos seus profissionais. Como é que A Bola está a gerir este cenário?
VS: Estamos a manter-nos muito firmes. O que é para nós a grande notícia é a administração do jornal ter dito que em 2009 não há qualquer perspectiva de redução de postos de trabalho no jornal, seja em que área for. Isto é algo muito importante nos tempos que correm. O crescimento do online, o facto de termos encontrado fórmulas diferentes de angariar publicidade – como o patrocínio de algumas secções – que nos colocam numa posição mais estável, permitiu-nos antecipar a crise . A perspectiva para 2009 do ponto de vista comercial está longe de ser negativa.
Por isso, podemos dizer que esperamos ultrapassar esta crise em condições de podermos estar a salvo daquilo que infelizmente tem acontecido nos jornais.