Saltar o menu e ir para os conteúdos
Opinião :: Cronistas

O problema do Aleixo

20 de Fevereiro de 2009 às 06:01:32, por Meios & Publicidade

Pedro Boucherie Mendes – Director dos canais temáticos SIC
Um dos programas que a SIC Radical estreou em 2008 foi o mais bizarro dos talk shows possíveis. Um urso com sotaque de Coimbra fala com um busto de gesso susceptível. Criado e executado por três portugueses é, na minha opinião, um dos acontecimentos culturais de 2008. Chama-se O Programa do Aleixo (tentem em http://sic.aeiou.pt/sicradical/o-programa-do-aleixo/videos ou no vampiro You Tube) e já há um cult-following, especialmente nas classes mais altas, mais cultas, mais exigentes e mais conhecedoras das várias linguagens de humor em televisão em todo o mundo. Apesar de ser um programa low-cost e assumidamente tosco, os textos, as vozes e as ideias resultam num conjunto magnífico. Não é um sucesso de audiências, mas isso era expectável, há alturas em que vale a pena ignorar os ratings e esta é um delas.

Sem espanto, o Aleixo foi captado pelo radar e teve direito a vários artigos na imprensa de referência, com entrevistas aos criadores e escritas no tom esperado na imprensa portuguesa: o jornalista-gosta-e-logo-não-tem-problema-em-assumir-porque-isto-é-do-caraças. É o nosso jornalismo pós-moderno, tu-cá tu-lá com o leitor. É o jornalista culto e cultor a educar a massa. Foi assim no Público, na Visão, no Sol, no JN e noutros sítios que me terão escapado. A parte mais singular destes artigos, (que me dão jeito porque ajudam a espalhar a palavra), é que nenhum destes jornalistas achou conveniente, útil ou a propósito falar comigo. Nem um. Comigo porquê? Bom, apenas na qualidade de pessoa que detectou o fenómeno na Internet e achou que talvez desse um programa de televisão e tratou que isso acontecesse, pagando. Muito simplesmente, sem a minha expressa vontade, decisão, diligência e sem o dinheiro da SIC não haveria O Programa do Aleixo em TV.

Não há aqui problemas de ego. Estou aqui para fazer o meu trabalho, mas assinalo a confusão sobre o que é o jornalismo, sobretudo o cultural. Se o jornalista gosta do Programa do Aleixo, óptimo. Mas não deve escrever sobre o assunto porque gosta (a não ser em crónica ou texto opinativo). Deve escrever se acha relevante para o público e deve, sob todos os pontos de vista, falar com alguém do canal de televisão que decidiu apostar nele. Neste caso, a SIC Radical.

Onde quero chegar realmente é aqui: sempre que qualquer coisa de inequivocamente bom sucede em televisão no nosso país, deve-se aos fazedores, aos artistas e nunca aos programadores que fizeram as suas opções e escolhas. Quem ler estes artigos (não eram crónicas nem críticas) sobre o Programa do Aleixo pode ficar com a impressão que foi uma fada que introduziu as cassetes no servidor na continuidade da SIC e os alinhou em grelha. Mas não. Foi uma opção de uma empresa privada que implicou custos e não caiu directo do céu para o colo dos jornalistas.
P.S. Estamos a trabalhar numa segunda série. E um sponsor dava jeito. Digo-o aqui, porque como nenhum jornalista falou comigo, não o pude dizer noutro lugar.P.P.S. O último episódio é neste domingo, às 22h30.<
As opiniões aqui expressas são dadas apenas a títulos pessoal e não veiculam a empresa.