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Media :: Artigos de Fundo

Vídeo: the media star

30 de Janeiro de 2009 às 06:59:25, por Ana Marcela

Se a “república do vídeo, a era YouTube” obrigou todos os media a repensar a forma como querem comunicar com os seus leitores ou ouvintes, como acredita Miguel Martins, editor de multimédia do Expresso, de que forma os meios optaram ou vão optar por introduzir a componente de vídeo online nos seus sites?

Será que optaram pela formação interna dos seus colaboradores e produção própria ou, pelo contrário, pelo outsourcing desse tipo de conteúdos, entregando a sua produção a entidades externas? E que papel representam nesta “república do vídeo” os bancos de imagem ou as agências noticiosas? A resposta a estas questões não é necessariamente única, a avaliar pelas estratégias levadas a cabo pelos meios contactados pelo M&P. No Expresso, desde finais de 2006 que o vídeo é uma aposta, algo tornado visível com a criação nessa época da Expresso TV disponível no site do semanário da Impresa Publishing. O título, explica o editor de multimédia, trabalha com regularidade com a produtora externa Terra Líquida, que assegura a produção e pós-produção de peças editadas pelos jornalistas do semanário. Têm ainda internamente dois profissionais que gravam e editam peças, recebendo ainda desde Junho feeds da Agence France Press (AFP). “Temos uma avença com a AFP nas áreas de informação e vídeo. Esta tem um caudal com muito internacional e fait-divers e usamos vários conteúdos”, descreve o editor de multimédia do Expresso. De produção própria o jornal já tem online mais de 400 vídeos, o que representa, mais de “2,3 milhões de visualizações no YouTube fora os que foram vistos no site do Expresso”, segundo números avançados por Miguel Martins.

“Dentro da nossa estratégia de jornalismo multiplataforma enquadra-se também a produção de vídeo, que é uma área onde à semelhança de outras temos de ter excelentes conteúdos produzidos internamente. Como tal, a aposta na produção própria tem sido muito grande”, refere, por seu turno, José Manuel Gomes, director coordenador da Cofina Media Internet. Nesse sentido “foi criada uma equipa (duas pessoas) dentro área Digital da Cofina que presta esse serviço para todos os produtos. No entanto, com a evolução deste mercado essas competências serão incorporadas nos produtos”, ressalva o responsável pela área digital da Cofina Media, preferindo não avançar mais detalhes sobre a forma como este processo irá decorrer. Todavia, “existem casos onde poderemos vir a adquirir conteúdos de terceiros, por exemplo conteúdos internacionais ou onde poderemos ter de recorrer a empresas externas”, conclui José Manuel Gomes, embora admita que o grupo tem “utilizado maioritariamente recursos internos”. Recentemente, o Jornal de Negócios, título do grupo Cofina, anunciou o lançamento de uma web TV online a partir de Fevereiro.
A criação de uma Web TV é um projecto que desde 2007 está nos objectivos do grupo Renascença. Afinal, como considera Pedro Leal, “o vídeo é uma imposição da própria plataforma digital. Hoje em dia não é possível trabalhar o digital sem essa aposta”. Nesse sentido, explica o director-adjunto de informação do grupo radiofónico, programas como Falar Claro ou Três Dimensões, ou seja, os “programas mais nobres de informação são todos gravados em vídeo por nós” [a gravação de Diga Lá Excelência, emitido na RTP2 é também colocada online], sendo ainda produzidas com regularidade diária peças em vídeo por uma equipa de cinco pessoas, tendo as mesmas obtido formação para o efeito. “A rádio é o nosso negócio, mas sempre que possível temos vídeo para complementar”, afirma o responsável. A produção é depois disponibilizada no site, na área multimédia, sendo que o “próximo passo, ao longo de 2009, é a web TV”, garante. Na área multimédia do site também estão os vídeos oriundos das agências noticiosas, sendo que no caso do grupo os mesmos têm chancela da Reuters e da Lusa.

Fornecedores acompanham percurso dos meios
A disponibilização pela agência noticiosa portuguesa de um serviço de vídeo online corresponde, para Luís Martins, director comercial e de marketing da Lusa, “ao percurso natural das agências noticiosas. Tínhamos que começar rapidamente nessa área multimédia”. A agência, recorda o responsável comercial, já há quatro anos que disponibilizava a Lusa TV, um serviço de televisão que fornece um feed de imagem em bruto aos broadcasters nacionais, que o editavam. No serviço de vídeo online, em fase de implementação desde Novembro, a intervenção da agência vai mais longe. “Entregamos o vídeo já produzido e editado e cada meio pode publicá-lo directamente no seu site ou portal”, refere Luís Martins. O serviço, destinado sobretudo “a sites e portais de informação e telefones móveis”, já tem neste momento “44 clientes ligados ao sistema”, contudo, nesta fase ainda de forma gratuita, estando previsto para o final de Janeiro o arranque da sua comercialização. O modelo de negócio, explica o director comercial e de marketing da Lusa, assenta num pacote mensal com um número determinado de vídeos, dependendo o valor do fee não só do número de downloads acordado como “do tipo de portal a que se destina”, ou seja, depende “das audiências a que se destina”, e da sua abrangência, seguindo a mesma lógica de remuneração dos restantes serviços da agência. Para os vídeos, a Lusa realizou um investimento que abarca sobretudo a compra de equipamento e o investimento no sistema informático, cujo valor o responsável não precisou. “Queremos amortizar no máximo em três anos o investimento que fizemos no Lusa Vídeo”, frisa o responsável de marketing e comercial.
O percurso implementado pela agência noticiosa portuguesa que, frisa Luís Martins, se engloba numa tendência internacional, também foi uma necessidade sentida por outros fornecedores de conteúdos editoriais, como os bancos de imagem. Também aqui, como afirma José Pacheco, director-geral da Atlântico Press, esse era um caminho que tinha de ser percorrido. “Como agência de conteúdos tínhamos de fazer esta viagem paralela ao trajecto que os meios fazem. Se há 15 anos falávamos de textos ou imagens editoriais, hoje o mercado mudou e nós também mudámos. Os clientes não estão só no papel, estão também noutros meios”, constata o responsável da Atlântico Press, empresa que em Setembro passou a disponibilizar também conteúdos de vídeo online, produzidos pela Splash, Sipa Press ou Media2Air, aos clientes de bancos de imagem,.
A evolução do mercado é, de resto, o argumento também invocado por Maria Guimarães. “Essa aposta deriva das próprias necessidades do mercado a nível internacional, tratando-se de uma evolução natural dos meios utilizados para a comunicação. Na sua maioria este material está disponível em HD (High Definition) o que lhe permite ser aplicado nos mais variados suportes – TV, vídeos corporativos, internet, mobile, etc.”, afirma a directora-executiva do Arquivo Internacional de Cor, empresa que em Portugal representa, entre outras entidades, a VMI/Corbis e a StockFood, ainda que refira que a procura por este tipo de conteúdos não se limita aos media. “A procura para este tipo de produto tem evoluído de uma forma natural consoante o grau de desenvolvimento do mercado e do material em oferta. Dada a evolução dos meios digitais, a procura deste tipo de produto provém principalmente do mercado publicitário”, acrescenta Maria Guimarães.
A necessidade de acompanhar os clientes nessa evolução imposta pelas plataformas digitais é igualmente argumentado por Paulo Fernandes para a aposta da Casa de Imagem na disponibilização dos conteúdos vídeo. “O mercado, com todas as mudanças da tecnologias de informação, vai enveredar pelo vídeo. As agências de imagem estática a nível internacional estão a desenvolver a produção de imagem em movimento e é esse formato que temos que disponibilizar ao mercado”, defende o director-geral da Casa de Imagem. “Antes eram as fotos dos paparazzi, agora são os vídeos”, sintetiza Paulo Fernandes. Um percurso que irá culminar com o lançamento ainda este mês do site Trendymovies.net, local que irá acolher a oferta do banco de imagem nesta área, perfazendo actualmente mais de 20 mil videoclips, de mais de 20 agências. O projecto, diz Paulo Fernandes, implica um “investimento simpático”, sobretudo “do ponto de vista tecnológico”, ainda que não revele valores, contando o responsável obter o seu retorno a “médio prazo”. “Estamos a apostar nesta área. Queremos disponibilizar ao mercado este serviço. O mercado [editorial e de publicidade] está a evoluir para o footage”, justifica, tendo o ano passado existido um boom no que se refere à procura dos conteúdos vídeo, talvez fruto de uma presença cada vez mais multiplataforma dos projectos, a começar pelos de imprensa. “Cada vez há mais revistas com edição online”, constata Paulo Fernandes, que refere que já é possível uma melhor adaptação e diferenciação dos conteúdos de imagem consoante a plataforma de distribuição. O responsável refere o caso dos conteúdos vídeo fornecidos pela Fame Pictures “de onde pode ser extraído dos frames uma imagem de alta resolução para impressão”, fazendo “a ponte com o artigo impresso e o artigo disponível online com a imagem em movimento”. “Os clientes que tínhamos da imagem estática estão a ser os clientes da imagem em movimento”, sintetiza.
O impacto da crise
Havendo fornecedores externos já preparados para oferecer conteúdos vídeo será que os mesmos irão ocupar uma presença cada vez maior no espaço editorial dos media ou irão estes apostar, cada vez mais, em produção própria num cenário de crise? O director-adjunto de informação do grupo Renascença admite que actualmente a oferta das agências noticiosas não detém um peso significativo na oferta. “A Lusa e a Reuters são sempre suportes, não enchemos a antena com esses conteúdos, só faz sentido disponibilizá-los se houver uma razão específica porque temos conteúdos nossos e preferimos fazer a nossa própria agenda”, defende Pedro Leal, adiantando que conteúdos de agência só para breaking news ou internacional. O recurso à oferta dos bancos de imagem não existe. “Não estamos a comprar nada. Temos um número enorme de fontes livres”, diz, referindo organizações como a Comissão Europeia, ONU, NATO ou a Agência Espacial Europeia. “Nessa nossa aposta temos de ter cuidado para limitar os custos”, justifica. A produção interna é, por conseguinte, onde o grupo investe. “Não usamos equipas externas por uma questão de continuidade de trabalho”, afirma. “Quando a obrigação é assegurar a produção de trabalho diária faz sentido ter uma equipa interna e não contratar equipas externas”, acrescenta. Isto por uma questão de custos e manutenção de uma coerência na linha editorial, justifica.
José Pacheco considera que o recurso regular aos bancos de imagem também para os conteúdos vídeo é uma questão de tempo. “Começa a haver produção própria dos meios, contudo, a partir de determinada altura, irão recorrer a outra produção que não a própria. É o mesmo trajecto que todos os meios já fizeram com a fotografia. Ninguém pode produzir tudo”, conclui o director-geral da Atlântico Press, relembrando a lição das estações de televisão que “no passado tinham estruturas de produção muito pesadas e que depois passaram a recorrer às produtoras externas”.
A conjuntura económica é também encarada por Luís Martins como uma oportunidade para o serviço de vídeo online da Lusa. Apesar de considerar que a partir do momento da comercialização do serviço o número dos actuais 44 utilizadores deverá “baixar drasticamente”, não tendo os media disponíveis “orçamentos extraordinários” para este ano, o director comercial e de marketing da Lusa mostra-se optimista. “A nossa sensibilidade interna é que os meios têm apetência por este serviço”, diz. “A crise vai afectar muito as redacções em termos de crescimento e se quiseram informação vão ter de recorrer a alguém, e a Lusa é quem está melhor preparada”, acredita.