Crise traz novos leitores para o jornalismo económico

Por a 28 de Novembro de 2008

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As redacções reorganizaram os seus recursos e empenharam-se em descodificar a linguagem face ao perfil dos novos leitores não especializados. Com a crise financeira os económicos ganharam leitores…

Houve, de facto, um ‘antes e depois’ da falência da Lehman Brothers, a 15 de Setembro, um domingo”. É assim que Pedro Guerreiro, director do Jornal de Negócios, responde quando o M&P lhe pergunta se a crise económica constituiu uma oportunidade para aumentar as vendas da publicação que dirige. Apesar de considerar a pergunta “demasiado calculista”, o responsável diz ter percebido que “nesse mesmo domingo, o assunto [crise económica] ia entrar nas preocupações quotidianas dos leitores, até porque tivemos uma enorme procura de informação no site, dia em que habitualmente a audiência é fraca”. Pedro Marques Pereira, subdirector do Diário Económico, partilha da mesma opinião e recorda que, até Agosto deste ano, o Diário Económico tinha vendido, em média, mais 1.500 exemplares por dia do que em 2007. A tendência, aliás, parece manter-se nos meses cujos dados não foram ainda divulgados pela APCT. “Os números mais recentes de que dispomos mostram que a subida se acentuou ainda mais nos últimos dois meses”, assegura.

Com um público mais diversificado, que até há pouco tempo não leria publicações económicas, os jornais da área tiveram que se adaptar. “Temos feito um enorme esforço de explicação das causas e consequências do que está a acontecer. Sabemos que muitos dos nossos leitores [actuais] são novos leitores, não especializados em economia/gestão, por isso, empenhamo-nos também na forma como apresentamos os conteúdos”, explica Pedro Guerreiro. Já Pedro Marques Pereira diz que “este esforço de descodificação” tem sido uma das principais preocupações do Diário Económico e não apenas agora com a crise. “Há muito que o Diário Económico faz trabalhos de fôlego destinados a um público mais vasto”, salienta, e critica ainda o facto dos jornais generalistas não fazerem um esforço para responder às inquietações dos seu leitores: “É paradoxal que sejam os jornais económicos, que à partida se poderia julgar serem mais talhados para um público mais especializado, a fazer o maior esforço de descodificação destas matérias para o cidadão comum”.

No entanto, apesar de terem captado novos leitores, os investimentos publicitários nestas publicações não apresentaram grandes oscilações (ver caixa). No mês Setembro, aquando da falência das várias instituições bancárias e das quedas na bolsa nacional e internacional, os números não foram muito díspares daqueles que se verificaram até então. O Diário Económico apresentou investimentos de 1.848.796 milhões de euros, o Jornal de Negócios 748.036 mil euros e o Semanário Económico 377. 690 mil euros, a preços de tabela, segundo os dados disponibilizados pelo grupo Starcom MediaVest. Todas as publicações já tinham registado valores mais altos em meses anteriores. Os dados de Outubro e Novembro não são ainda conhecidos e poderão traduzir valores mais elevados, segundo contaram ao M&P os responsáveis das publicações. Para além da publicidade nas edições impressas, Pedro Guerreiro salienta ainda que 40 por cento das receitas publicitárias do Jornal de Negócios advêm do seu site, que atingiu um recorde de leitores, em Outubro, com 22.863.016 páginas vistas, de acordo com o ranking de tráfego de entidades web divulgado mensalmente pela Netscope. Os números poderão justificar-se pelo fórum que o jornal abriu na internet onde, conta o director, “convidávamos os leitores a colocar as suas perguntas e respondemos nos dias seguintes [na edição impressa], transferindo muitas dessas perguntas para os próprios bancos”. No caso do Diário Económico, não foi possível contabilizar a preponderância do seu site, visto não terem sido disponibilizados o número de visitantes e as verbas investidas em publicidade.

Como foi feita a gestão de informação

Com a crise a ocupar quase toda a actualidade mediática, as publicações tiveram que arranjar estratégias para não descurar as restantes áreas habitualmente abordadas. Espaço físico no jornal e falta de profissionais para cobrir os dias em que se chegou a falar de um “colapso bolsista” a nível mundial poderiam ter sido alguns dos problemas. Pedro Marques Pereira diz que esse foi um “esforço facilitado” porque a redacção do Diário Económico passou a funcionar de forma articulada com a do Semanário Económico. “Essa mudança permitiu dar uma flexibilidade acrescida e concentrar um poder de fogo nas histórias de crise do dia sem comprometer nada do resto”, avalia. No Jornal de Negócios, Pedro Guerreiro diz que esse equilíbrio foi conseguido através de um trabalho de cooperação entre a edição impressa e o site. “Foram dias loucos, com muita informação para assimilar que ia mudando ao longo do dia”. Apesar disso, confessa que “são também esse os dias em que um jornalista se sente mais vivo e colocado à prova pelos acontecimentos”. O espaço físico na edição impressa também teve que ser recalculado. Temas que habitualmente seriam de abertura, como o Orçamento de Estado, passaram para segundo plano. “Chegámos a fazer ‘primeiras linhas’ quase até à página 20 só sobre bolsa e crise financeira, o que naturalmente implicou fazer opções na distribuição de recursos (equipa e espaço disponível na edição impressa)”, recorda Pedro Guerreiro.

Economia foi tema de abertura de telejornais

“Desde que se justificasse, na SIC, os temas económicos eram abertura de telejornais e sempre foram tratados com cuidado”. É assim que José Gomes Ferreira, subdirector de informação da SIC, responde quando o M&P lhe pergunta a partir de que momento se percebeu que a crise económica poderia passar a ter lugar na abertura dos telejornais. No entanto, a opinião pública começou não só a debater o tema mas também a ficar preocupada. Com o futuro, com as poupanças que tinham nos bancos, com o clima de crise generalizada que se fazia sentir pelas notícias de falências de instituições bancárias e de quedas abruptas na bolsa. José Gomes Ferreira reconhece que houve uma “preocupação deontológica” para não produzir notícias alarmistas. “Chegaram-nos ecos de pessoas sobre a solidez do sistema financeiro, mas sabíamos que o sistema não estava um colapso e preocupámo-nos em tratar o tema com calma”, recorda. O subdirector da estação de Carnaxide diz também não ter tido dificuldades em cobrir a crise económica ou ter sentido falta de profissionais especializados na área. “Sempre apostámos numa equipa especializada de economia, depois pedimos a colegas de outros pelouros que ajudassem na cobertura. Houve uma ajuda mútua entre a redacção”, recorda. Aparentemente, TVI e RTP terão feito uma cobertura semelhante da crise financeira. No entanto, nem o director de informação da RTP, José Alberto Carvalho, nem o director de informação da TVI, João Maia Abreu, quiseram prestar declarações sobre o tema.

Os programas de economia

Actualmente, são emitidos quatro programas exclusivamente dedicados à área económica na televisão por cabo: Jornal de Economia I e II e Negócios da Semana, na SIC Notícias, e a Cor do Dinheiro na RTPN (a emitir desde Setembro) (ver caixa). Negócios da Semana foi o que apresentou audiências mais altas, tendo o seu pico em 63.800 espectadores, em Agosto, aquando do boicote ao abastecimento de combustíveis. A Cor do Dinheiro, o mais recente, foi o que registou audiências mais baixas, nomeadamente em Setembro, no seu mês de arranque, com 8.800 espectadores. Para além destes, o recurso a comentadores externos e entrevistados foi prática corrente, tanto nos canais de informação por cabo como nos generalistas. Os números do último trimestre deste ano ainda não são conhecidos, mas tudo aponta para que 2008 tenha sido um “ano exemplo” na abordagem de temas económicos na agenda mediática.

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