A rádio em 2018 (11)

Por a 21 de Novembro de 2008

João Paulo Meneses

Uma nova rádio para novos ouvintes: consumo activo

por João Paulo Meneses,

Sendo esta a penúltima crónica e na ressaca do que disse sábado passado, no congresso da Associação Portuguesa de Radiodifusão, deixo ficar aqui algumas linhas sobre aquilo que me parece poder vir a ser a rádio do futuro. Assim, resumidamente:

1) O mais aproximado com rádio será uma página na Internet, independentemente de haver ou não uma emissão hertziana, com um menu de ofertas (de programas) sonoras (mas não só, podem e devem ter texto e uma ou outra vez imagem); os actuais operadores de rádio estão melhor posicionados porque sabem construir esses conteúdos, porque têm os meios; haverá necessidade de conteúdos sonoros, para situações de acumulação de tarefas e não só;

2) Essas ofertas não obedecem a uma grelha de programas nem a uma temporalidade: ou seja, quando se liga o computador de manhã já lá estão os principais conteúdos dessa programação (e não será preciso esperar pelas 9h20 para ouvir a crónica de humor), da mesma forma que determinado conteúdo, mal esteja pronto, pode ir imediatamente para o ar (o repórter acabou de gravar uma peça ou uma entrevista às 16h35, não tem de esperar pelas notícias das 17h);

3) A oferta de programas pode incluir facilmente propostas de ouvintes (de produtores-amadores), na lógica actual dos podcasts (e do jornalismo do cidadão, do «prosumer»);

4) Todos os conteúdos propostos no menu estão dependentes da sua viabilização pelos ouvintes: só existem os conteúdos que são clicados (que são ouvidos); o ouvinte terá o poder de decidir os conteúdos que existem e os patrocinadores estarão sobremaneira atentos a isso; as programações deixarão de ser construídas por intuição e mimetismo, como agora e poderemos dizer, finalmente, adeus ao Bareme…

5) Aquilo que hoje conhecemos por podcast evoluirá certamente para a desconstrução «ao milímetro» da oferta; poderá haver um podcast por noticiário mas sobretudo um podcast por notícia, de modo a que qualquer ouvinte construa o seu noticiário. Se as informações da bolsa não me interessam porque é que tenho de as ouvir? No meu noticiário só ouço as que quero, quando quero e com múltiplas origens. Ou seja, posso subscrever «tags» de várias fontes sonoras (de várias rádios, mas não só), que irão confluir para o meu computador, telemóvel ou outro qualquer aparelho online;

6) Cada podcast (ou seja, cada oferta, cada notícia) terá de ser comercializado por si próprio; um spot antes e outro depois da notícia sobre o jogador do Benfica que se lesionou.

7) As empresas terão estratégias de atracção dos ouvintes (melhor dizendo, utilizadores…) para as páginas, onde há publicidade visual, mas terão de viver com a realidade dos «feeds», das «tags» e dos «podcasts» (que, muito provavelmente, vão evoluir e ser substituídos/complementados por outros desenvolvimentos);

PS – A rádio, tal como a conhecemos hoje, desaparece? Enquanto houver carros haverá necessidade de companhia. O talento não se substitui por uma máquina. Mas há duas coisas que me parecem certas: o consumo passivo, o que hoje existe, terá cada vez menos audiência (quota de mercado); a rádio de palavra (informativa ou não) terá mais possibilidades de continuar inalterada do que rádio musical, seriamente ameaçada pela realidade digital, que criou uma oferta, maior e melhor, de ouvir música. Sobretudo a nossa música.

Jornalista (TSF) e investigador

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