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Media

Qualidade e inovação marcam a diferença

11 de Julho de 2008 às 18:55:17, por Maria João Lima

Os profissionais da área das gráficas queixam-se dos curtos prazos de produção, das margens apertadas e dos incobráveis. Mas o crescimento do sector e a vontade de inovar não deixam esmorecer os protagonistasAs gráficas são fundamentais na área da comunicação, quer estejamos a falar de acções de ponto de venda, campanhas para televisão, marketing directo ou outras das tantas disciplinas ao dispor dos marketeers e dos publicitários. Por isso, o Meios & Publicidade foi auscultar os profissionais de algumas das maiores gráficas a operar em Portugal para traçar um retrato do sector.
Com trabalhos executados em áreas como publicidade exterior, aplicações de interior, publicidade para ponto de venda e decoração de veículos, a Distrade nasceu em 1994 como empresa especializada em impressão digital em pequeno e grande formato. “Executamos todo o tipo de produção de médio e grande formato, imprimimos directamente sobre suportes rígidos e flexíveis”, explicou ao M&P Carlos Simões. E, segundo diz este profissional, o conceito de dimensão não faz parte do seu léxico: “Neste momentos estamos a produzir uma tela com 3725 m2 numa só peça.” Quanto a preços, nesta empresa, podem variar entre os 12 e os 15 euros por metro quadrado. Entre os clientes desta empresa estão agências de design, empresas do sector da rotulagem, especialistas em serigrafia e agências de publicidade. A antecedência mínima com que devem contactar a gráfica é um a dois dias.
A Imprime, outra empresa deste sector que há 20 anos se implementou no mercado como especialista na impressão serigráfica de grandes formatos, em vários tipos de suporte como papel, cartão, ppa, metacrilato, lona, pvc, entre outros, passou, desde 2005 a fazer impressão digital em todo o tipo de suportes em grandes e médios formatos. “Comercializamos off set de grande e médio formato através de um parceria com um grande grupo impressor espanhol”, disseram ao M&P Susana Figueiredo e José Figueiredo, respectivamente da direcção de compras e da administração da empresa. Além disso, dizem, “estamos apetrechados tecnicamente e possuímos o know how suficiente para criarmos e produzirmos imagem gráfica”.
Entre os clientes da Imprime estão centrais de produção, agências de publicidade, empresas de criatividade e merchandising, meios como a JCDecaux, a Cemusa ou a Instore Media, e cada vez mais directamente com os médios e grandes clientes. “Tem sido essa a tendência do mercado europeu”, diz o administrador. Os trabalhos, à semelhança do que acontece nas outras gráficas, são orçamentados caso a caso. Todos iguais ou todos diferentes?
José Augusto Constâncio, da EuroDois, acredita que neste momento torna-se muito difícil existir grande distinção entre gráficas, pois nota-se da parte do comprador dos produtos gráficos uma grande preocupação em relação ao factor preço. “Outros aspectos, como a qualidade, o cumprimento dos prazos, o serviço associado, a capacidade para apresentar soluções para resolver problemas, a tecnologia, estão a ser muito pouco valorizados, no entanto continuamos a pensar que são aspectos que continuam a ser importantes para a decisão da adjudicação da encomenda à gráfica”, defende o responsável da EuroDois, empresa que faz trabalhos como expositores, PLVs, folhetos, cartazes, brochuras, mailings, calendários e relatórios e contas e que tem como principais clientes agências de publicidade e comunicação, ateliers, centrais de produção e algumas marcas na área da banca, seguros, telecomunicações e automóveis. “Só executamos trabalhos até ao formato 70×100 cm”, informa José Augusto Constâncio.
Na opinião de Hugo Fernandes, sócio da GPI-Prodigit, “uma gráfica não deve distinguir-se no mercado apenas por acaso mas sim por delinear uma estratégia de diferenciação resultante dum estudo e conhecimento do mercado, suas lacunas e necessidades, e do posicionamento dos seus players face ao mercado”. Na opinião deste responsável, a inovação é também aqui uma ferramenta preciosa e que, se bem utilizada, fará uma empresa distinguir-se no mercado.
A diferenciação entre as várias empresas a actuar neste mercado consegue-se, segundo o responsável da Distrade, “pela qualidade de execução, acompanhamento desde a entrega do ficheiro até à montagem”, opina. Vasco Sousa, director financeiro da L2 Spirit, sublinha, por seu lado, além da qualidade do trabalho impresso e do serviço prestado, a inovação, que no seu entender é um aspecto fundamental.
Os responsáveis da Imprime destacam o profissionalismo e a seriedade como aspectos essenciais, que o nível de equipamento e o know how completam. Alberto Moisés, administrador da GAR, sublinha também a inovação e o profissionalismo no serviço prestado, a contratualização de parcerias que permitem assegurar uma oferta integral de serviços dentro do sector – “One Stop Shopping”. Além disso, diz, há que haver responsabilidade total sobre o trabalho no decurso da sua realização, capacidade de resposta e cumprimento de prazos e qualidade no produto final.
Folhetos, brochuras, cartazes, monofolhas, revistas, autocolantes, mailings, material de ponto de venda, embalagens, estampagem e livros são alguns dos trabalhos que a Gar oferece aos seus clientes, entre os quais estão agências de publicidade, centrais de compras e as próprias marcas. Trabalhos marcantes
Entre os trabalhos mais marcantes do último ano, Carlos Simões, da Distrade, destaca o edifício da Zon em windows grafics com 3200 m2, a tecla da Audi situada na Avenida da República com 1750 m2 e as várias telas da Volkswagen na 24 de Julho com 800 m2. E o trabalho mais inovador que o responsável da Distrade se recorda dos últimos meses foi a impressão de mil m2 de vidros para a decoração de um edifico de escritórios. Nesse trabalho, explica Vasco Sousa, estiveram envolvidas várias empresas desde o gabinete de arquitectura até à empresa que montou todos os vidros em obra. A L2 Spirit dedica-se à impressão digital de grandes formatos para indoor (POS) e outdoor, nomeadamente impressão em cartão, PVC, PPA, telas e vinis. Vamos às compras
Em termos de máquinas, no último ano a Distrade investiu 750 mil euros numa máquina de impressão sobre rígidos (hp cor jet). Também a L2 Spirit realizou um investimento em maquinaria. “Foi feito investimento em novos equipamentos, tanto de impressão mas especialmente para a área do acabamento, nomeadamente uma impressora de cura uv com impressão a branco. Já nos acabamentos adquirimos máquinas para envernizar, aumentámos o nosso parque de máquinas de corte automático e comprámos uma máquina de colagens”, enumera Vasco Sousa, director financeiro da L2 Spirit.
Depois de recentemente ter feito avultados investimentos, este ano a EuroDois já teve que reinvestir num CTP (Computer to Plate) de nova geração para melhorar a qualidade e torná-lo mais rápido. Esta componente “serve para gravar a imagem nas chapas para offset”, explicou José Augusto Constâncio.
O último ano foi também um ano de investimento para a GPI-Prodigit. O responsável desta gráfica destaca dois investimentos. “Adquirimos a nossa segunda máquina de impressão UV de grande formato para impressão directa sobre materiais rígidos ou flexíveis – a Vutek QS2000 – primeira máquina instalada em Portugal. Este equipamento trouxe-nos a possibilidade de impressão em alta resolução (até 1080 dpi) em alta velocidade (até 70m2/h), com impressão a seis cores e branco localizado”, refere. E acrescenta que outro investimento importante foi a mudança de instalações de Queluz para Carnaxide, “um espaço muito maior, mais funcional e com condições excelentes para a nossa actividade”. Segundo o sócio da empresa, desta forma conseguiram “aumentar consideravelmente a nossa eficácia e eficiência”. E o mesmo responsável aguça a curiosidade ao dizer que também este ano terão novidades importantes para o mercado, não adiantando porém quais serão.
A Imprime não quis ficar atrás dos concorrentes. Adquiriram uma máquina de impressão digital de última tecnologia, 1 JETI 2048 UV Flatbed, com 48 cabeças de impressão e seis cores com possibilidade de imprimir branco e envernizar. Uma mesa de impressão de 2×3 metros permite que a gráfica faça um melhor aproveitamento dos suportes de impressão. “Este ano já comprámos mais duas máquinas JETI UV Jetstream, roll to roll, uma de cinco metros, já instalada, e uma de 3,20 metros, que imprime 250 m2/ hora e que será instalada até 15 do próximo mês”, diz o administrador. Estão a negociar mais uma máquina Flatbed, de grande formato, tecnologicamente avançada e que julgam poder vir a ser instalada até ao final deste ano. Os podres do mercado
Um dos principais problemas deste mercado prende-se essencialmente, segundo o director financeiro da L2 Spirit, com a falta de método de muitos empresários em saberem apurar o custo de produção, o que leva a que muitas vezes vendam com margens diminutas ou mesmo abaixo do seu preço de custo. E acrescenta: “Outro dos problemas que existe é a cada vez maior redução dos prazos de produção.” Vasco Sousa refere que na L2 Spirit são precisas pelo menos 48 a 72 horas desde a entrega das artes finais até à entrega do trabalho já produzido. Mas, José Augusto Constâncio, da EuroDois, comenta que nesta gráfica são cada vez mais frequentes as encomendas para executar de um dia para o outro. Alberto Moisés é de opinião que no mercado da publicidade e marketing os profissionais têm que estar sempre preparados para responder às necessidades dos clientes. “Por isso, trabalhamos 24 horas por dia, cinco dias por semana em horário normal utilizando os fins de semana com horas extra”, refere.
José Augusto Constâncio detecta outros problemas “graves” no sector das artes gráficas: “Excesso de oferta em relação à procura, falta de formação profissional técnica, falta de cursos técnicos e sensibilização na camada jovem com elevada capacidade empreendedora para integrar o sector gráfico.” Além disso, opina, são necessários investimentos contínuos para se manter actualizado tecnologicamente e há desigualdade na relação de forças entre cliente/fornecedor. Destaca ainda o elevado prazo médio de recebimentos e a elevada taxa de incobráveis. Carlos Simões refere também os pagamentos tardios dos clientes como o principal problema do sector.
À semelhança do que foi dito pela L2 Spirit,
o sócio da GPI-Prodigit declara que “pela parte dos agentes da indústria gráfica, assistimos a um fraco conhecimento dos seus custos reais de produção e operação, o que resulta numa prática de preços demasiado baixos, acabando por contribuir para estabelecer preços médios completamente especulativos”. Este responsável defende que aqui o caminho certo terá também que ser percorrido pelos clientes, que cada vez mais deverão ter o cuidado – e mesmo obrigação – de trabalhar com empresas que cumpram com todas as suas obrigações sociais para com o estado, colaboradores e fornecedores, opina.
Hugo Fernandes sente também que há muito a fazer por parte de todos os agentes (clientes e gráficas) no tema produtividade, principalmente no cuidado que se deve ter antes de colocar um trabalho em produção, “garantindo que este entra numa linha de produção, fazendo-se acompanhar de toda a informação necessária à sua perfeita execução, tornando o processo mais simples e, como tal, mais seguro e produtivo”. É que não deve ser raro serem entregues artes finais com pantones errados ou pormenores esquecidos.
José Figueiredo, administrador da Imprime, diz que os problemas deste sector são os habituais no mercado português nos vários ramos de actividade: “Aparecimento de novas empresas sem um projecto sólido, proporcionando ao mercado uma oferta excessiva e que se reflecte nos preços, chegando-se algumas vezes ao dumping”, refere. “Alguns clientes que cada vez mais dilatam os prazos de pagamento, que pagam através de letras e não as amortizam, ou que simplesmente não pagam”, comenta. E José Figueiredo vai desabafando que a justiça e os tribunais “funcionam como todos sabemos…” E dá o exemplo de um cliente do Porto que deve à Imprime mais de 500 mil euros. Este profissional duvida que alguma vez vá conseguir cobrar este valor. “A lei está feita para só pagarem aquelas empresas que, independentemente das dificuldades financeiras, honram os seus compromissos. E o número vai diminuindo”, lamenta.
Pedro Jacques de Sousa, administrador-delegado da Impression, destaca “a evolução tecnológica que, não só permite níveis de produtividade cada vez mais elevados, como também impulsiona a criatividade pois permite que se inventem novas soluções tanto em termos de formatos, como de materiais, como de acabamentos”. A titulo de exemplo, a empresa que dirige investiu este ano três milhões de euros. Na área do digital, as atenções vão para” uma máquina de grande formato HP FB6700 – a tecnologia mais avançada em impressão de rígidos, e utilizando tintas d’água, e no Offset, numa máquina Man Roland 900 – XXL”. Apesar deste optimismo, Pedro Jacques aponta para o “excesso de oferta, numa conjuntura global que não é das mais favoráveis. Diferenças de respeito pelos compromissos sociais e cívicos de algumas empresas, mas para os quais esperamos que o mercado as venha a reconhecer. Isso reflecte-se na constante procura da melhor qualidade ao preço mais baixo. No entanto, há limites para se poder continuar a manter os níveis de solidez e solvabilidade que permitam assegurar os investimentos necessários à oferta de qualidade pretendida pelos clientes”. Nem tudo é mau
A prova de que nem tudo vai mal neste mercado é, segundo Carlos Simões da Distrade, os muitos trabalhos a realizar e os já realizados. O facto deste sector ainda estar em crescimento deixa animado Vasco Sousa, director financeiro da L2 Spirit. Por seu lado, o responsável da EuroDois destaca como pontos positivos o dinamismo empresarial, o elevado desenvolvimento tecnológico e a elevada capacidade de resposta às solicitações do mercado. A maior e melhor transparência no sector é um factor apontado, por seu lado, por Alberto Moisés, administrador da GAR.
Apesar das dificuldades que se sentem na economia e neste mercado, existem de facto empresas que têm a capacidade de inovar e de contribuir para o desenvolvimento do mercado, lembra Hugo Fernandes. “É de saudar estes casos”, diz. E acrescenta que nos contactos que têm com agentes da indústria noutros países (clientes, fornecedores e gráficas), é com satisfação que verificam o “reconhecimento do nosso trabalho e da nossa mais valia”.
Susana Figueiredo e José Figueiredo destacam ainda que apesar da recessão económica existente, os grandes clientes e as grandes marcas apostam numa forma de comunicação diferente e mais eficaz, como é o ponto de venda. “Cada vez mais as televisões e a imprensa estão a perder mercado publicitário a favor do outdoor e da comunicação no ponto de venda”, garantem.
Bons negócios com nuestros hermanos
A Imprime considera ter uma das maiores capacidades de produção instaladas em Portugal. Os responsáveis enumeram o arsenal: “Uma máquina de serigrafia automática, a cinco cores, com uma mancha de impressão de 3,30×1,60 metros, uma outra a uma cor com 1,80×1,50, e na área digital duas máquinas roll to roll de cinco metros, duas de 3,20 metros (uma delas ainda não instalada), dias HP, a nível de impressão de rígidos uma INCA Columbia Turbo com uma mancha de impressão de 1,60×3 metros e uma JETI 2048 UV, a seis cores e uma mancha de 3×2 metros, para além de dois Lambda que nos permitem imprimir papel fotográfico e duratrans.” A gráfica trabalha diariamente com dois turnos. A rapidez de resposta pode ser imediata, ou ter de obedecer a um plano de produção já delineado, explica o administrador. Mas, diz, “estamos aptos para produzir ‘em cima da hora’”. Além disso, segundo diz, a parceria com um grande grupo espanhol também permite reforçar essa capacidade.
A Distrade também tem ligações a Espanha, fazendo parte de um grupo que está também presente no país vizinho. Ou seja, “em termos de concorrência para nos não existe, somo um só”, explica. Os preços que lá se praticam são muito semelhantes aos existentes aqui, diz Carlos Simões. Este profissional acrescenta que em termos de qualidade, essa não é superior porque a maquinaria é exactamente igual.
Há também empresas, como é o caso da EuroDois e a GAR, que dizem não notar a concorrência de Espanha. Para Alberto Moisés, a concorrência vinda de Espanha, no que respeita a máquinas planas é muito reduzida, logo não se sente muito. Outras gráficas, como a Imprime, admitem que a proximidade às vezes é uma tentação. “Mas eu que conheço muito bem a postura empresarial espanhola, essencialmente na área gráfica, não existem, com algumas excepções, empresas espanholas interessadas em investir industrial ou comercialmente num país em que as empresas gráficas vivem com margens miseráveis, fruto do desequilíbrio oferta / procura, e em que o prazo de cobrança está cada vez mais dilatado, e os incobráveis em crescimento”, comenta. Pelo menos por aí, aparentemente, as gráficas nacionais podem ficar descansadas.