Num mundo perfeito, os meios de comunicação têm orçamentos para que os jornalistas se desloquem a qualquer lugar, os fotógrafos acompanham todos os serviços que são importantes, existe a figura do fact checker para monitorizar os processos de elaboração das notícias e os salários dos jornalistas são suficientemente sólidos para garantir a independência do chamado quarto poder. No mundo imperfeito em que vivemos, os jornalistas têm de viajar nos aviões fretados pela presidência ou pelo governo, as fotos também vêm de agências de comunicação, os press releases e as fontes organizadas são um ponto de partida para uma parte substancial das notícias e as prendas endereçadas aos jornalistas quase nunca são recusadas pelo também quarto do poder. As condições de produção da informação nunca foram perfeitas, mas não tem sido isso que tem impedido os (bons) jornais e os (bons) jornalistas de exercerem o seu trabalho. As prendas e as “viagens a convite de”, tema de capa desta edição, foram já exaustivamente analisadas nos livros e são tema recorrente nas colunas dos provedores dos leitores de muitos jornais. As histórias de excessos são frequentes: desde os jornalistas que vão até ao outro lado do mundo para conhecer um telemóvel, até àqueles que, depois de confirmarem, recusam a deslocar-se a uma capital europeia a convite de uma marca, alegando que o hotel não é suficientemente bom. É nas áreas de economia, marketing, automóveis e viagens que se vivem as situações onde é mais difícil traçar o que é acesso à informação e o que é sedução de jornalista para garantir espaço editorial. Apesar das empresas aparecerem como as más da fita, alguns jornalistas conhecem tão bem o jogo que, como comentava há uns anos um responsável pelo marketing de uma empresa automóvel, a relação com os jornalistas seria afectada caso as viagens de avião não fossem feitas em classe executiva. Simplesmente, garantia-me o responsável, metade dos jornalistas não aceitariam viajar com a marca. Também, por exemplo, ninguém estranhou as viagens com jornalistas que decorreram no último Euro 2008, a convite dos patrocinadores, com pouco interesse editorial mas com bastante, como diriam os marketeers, capacidade de gerar goodwill. Mais do que alguma regulação ou regra dos meios a funcionar, tem sido a crise e a limitação de orçamento das empresas a conter mais excessos.