por João Paulo Meneses,«Sete seguidas»…
Haverá alguém que ainda pense que o carro continuará a ser a catedral da escuta sincrónica e em acumulação? Pergunto isto porque há meia dúzia de anos, quando a Internet já começava a ser uma realidade, ainda havia quem duvidasse que a revolução chegasse ao rádio.
Já chegou, e há alguns anos.
Mesmo antes de surgirem carros com oferta directa ao mp3 (alguns, até, oferecendo iPods…), já existiam ‘adaptadores’ destes leitores de áudio aos auto-rádios, curiosamente usando as frequências do FM; e há poucos dias a Chrysler anunciou que todos os seus carros, em 2009, terão acesso directo à Internet (nos EUA).
Isto significa que a rádio convencional, aquela que hoje ainda conhecemos por… rádio, passou a ter concorrência. E que terá cada vez mais concorrência.
A ameaça, mais uma vez, é sobretudo à rádio musical.
A rádio de palavra, sobretudo aquela que tem uma vertente informativa e aposta n(a emoção d)o directo, não tem concorrência à vista, ainda que possa ser desenvolvida não por actuais operadores, mas por novas empresas baseadas na internet.
Já para ouvir música – a rádio musical vale 80% do mercado nacional – existem várias e boas alternativas. Antes também existiam as cassetes e os CD, mas não eram boas alternativas. O iPod é uma alternativa com muitos ganhos face à rádio convencional e quando operado em ‘random shuffle’ até parece uma rádio…
Dir-se-á que a rádio é melhor para descobrir a música nova. Ainda é. Mas cada vez menos. É que – como é público e muito notório – a nova música está cada vez mais na net, às vezes primeiro do que na rádio. Ora, não faltará muito para que o nosso auto-rádio seja um terminal multimédia, a partir do qual poderemos ouvir tudo. A música nova e a velha. As nossas playlists (no LastFM, Finetune, etc) ‘embedded’ (a partir do nosso blogue ou página, a que acedemos, quando ligamos o carro).
Dirão os ‘velhos do restelo’: conduzir e manipular estes terminais são coisas incompatíveis. Mas, primeiro, esquecem que operar esses terminais dependerá de sistemas de voz; depois balizam a rádio mais uma vez no erro da conveniência. A rádio é boa porque é conveniente (prática, acessível, imediata, etc…).
Ora, o futuro da rádio não pode continuar a ser a sua conveniência, não pode continuar a viver disso. Acredito que perante tecnologias (técnicas?) mais convenientes, resta à rádio (convencional) apostar na dimensão humana, na criatividade, no génio. «Sete seguidas sem palavra»? No iPod há 700 seguidas sem… Mas no iPod não há quem me saiba relacionar cada música, contar-me uma curta história, ir ao baú buscar um tema esquecido – que serviços como o Pandora, LastFM ou Finetune começam a fazer. Acredito que a gente da rádio poderá fazer melhor. Mas não vai ser fácil, admito.
Uma coisa é certa: o carro deixará de ser um rádio com rodas.
Jornalista da TSF e investigador
blogouve.se@gmail.com