A imprensa regional parece estar a conseguir resistir de forma consistente aos problemas na captação de leitores e anunciantes que vão afectando os meios em geral. O M&P foi tentar perceber como estão os títulos regionais a subsistir a esta fase.
“A Sojormedia tem procurado encarar o actual cenário de crise como uma oportunidade para crescer e para se desenvolver”, começa por frisar Francisco Rebelo Santos, administrador da empresa detentora de títulos como O Aveiro, Região de Leiria, O Ribatejo, O Eco, Jornal do Centro, Jornal da Bairrada e, mais recentemente, do Diário As Beiras. Quanto a Joaquim Emídio, director-geral de O Mirante, acredita que o título “não vai sair do ciclo de crescimento que iniciou há uma dúzia de anos atrás”, e vai mesmo conseguir “ter o seu melhor ano de sempre”. Optimista quanto ao futuro, garante que “o mercado está todo à nossa disposição para ser trabalhado em termos editoriais e comerciais”.
O facto de estarem assentes num modelo que privilegia a assinatura tem ajudado a manter a performance dos títulos de imprensa regional. António Filinto, director comercial do diário Açoriano Oriental faz notar que “a nível de leitores, como o jornal concentra o seu peso em assinaturas, qualquer variação das vendas em banca é globalmente pouco significativa”. Também José Miguel Pereira, director do Diário do Minho (DM), frisa que “dos 9 mil exemplares de cada edição do jornal, muito mais de metade já tem destino certo, pois o título foi conquistando ano após ano muitos assinantes, o que é óptimo em termos de fidelização e é um bom refúgio nas ditas épocas de crise”. Para 2008, espera “consolidar, e se possível melhorar, os resultados da Marktest, que nos dão a liderança, pelo quinto ano consecutivo, entre a imprensa regional no distrito de Braga”.
Ao nível da publicidade, garante que o espaço que o DM reserva para anunciantes se tem mantido, embora esteja “a ser vendida publicidade a preços mais baixos”.
Já o director comercial do Açoriano Oriental garante que o título está a ter um desempenho “em linha com o que se passou em 2007″, com resultados positivos até ao momento. Garante que “a crise que vai atravessando a economia nacional e internacional não está, felizmente, a afectar o jornal”.
A análise ao mercado feita pelas agências de meios ouvidas pelo M&P também é favorável. Rui Paulo Lopes, da Meioregional, central de vendas especializada em imprensa regional, garante estar a sentir “uma evolução positiva ao nível do investimento em meios regionais”. A inserção de campanhas nacionais é ainda “simbólica”, mas tem apresentado uma presença crescente na imprensa regional. Ainda assim, o grosso do investimento continua a vir da publicidade de nível local. Também José Branco, da Publimpor, tem notado um “crescimtno em termos de investimento” e concorda que os “anunciantes nacionais têm percebido a importância de imprensa regional”. A melhoria substancial na qualidade dos jornais o facto de grande parte deles já terem cores “tem permitido maior criatividade”. No entanto, refere que num universo de cerca de 700 títulos, é inevitável que haja muitas discrepâncias. Rui Paulo Lopes também lamenta que haja ainda um desfasamento acentuado entre as grandes e as pequenas publicações, mesmo ao nível regional. “O investimento da publicidade para a imprensa regional é sempre canalizado para os principais meios e acaba por não chegar a todos”, refere Rui Paulo Lopes. Outro desfasamento que se mantém é o que separa o litoral do interior.
A informação sobre os meios é dos principais factores apontados pelo responsável da Meioregional para a definição do investimento publicitário. Por isso, defende a importância de uma ferramenta de trabalho como o Bareme Imprensa Regional, que “não deve ser visto como peça de ranking, mas como um estudo sobre a evolução do leitor regional”. Acredita que o estudo “faz todo o sentido em complementariedade com o âmbito nacional”. Já José Branco entende que o mesmo “só peca por ser anual”, uma vez que ajuda a “impulsionar os jornais a melhorar”. A importância das publicações serem auditadas pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (APCT) é outra questão sublinhada por Rui Paulo Lopes, por isso permitir que a análise dos anunciantes seja feita “com base nas mesmas ferramentas”. Acredita que “o investimento só irá aumentar se houver mais informação”. A visão não é partilhada por José Branco. Frisando que 80 a 90% da circulação dos títulos regionais é feita através de assinaturas e que “não há grandes oscilações”, o responsável desvaloriza a presença dos meios regionais nos relatórios da APCT. O impacto do porte pago
O impacto das alterações ao porte pago ainda se vai fazendo sentir na imprensa regional, sobretudo no que diz respeito à chegada dos jornais às comunidades portuguesas no estrangeiro.
Francisco Rebelo Santos recorda que “a redução do porte pago teve um efeito imediato na subida do preço da assinatura”, garantindo que no que diz respeito às publicações da Sojormedia o abalo se deu principalmente a nível externo: “Para muitos emigrantes, o preço tornou-se incomportável e houve, naturalmente, quem desistisse”, lamenta. No país o impacto foi menos expressivo, não tendo registado “uma quebra significativa”. Destaca o facto de “todas as semanas receber novos assinantes, uma parte dos quais vindos do site, o que significa que a leitura do jornal em papel continua a ser valorizada”. Refere ainda, por outro lado, que “as campanhas de assinaturas e acções de venda de assinaturas em pacote têm tido resultados satisfatórios”.
Ainda assim, Rebelo Santos não deixa de frisar que “sobretudo para o estrangeiro, o porte pago não deveria ter tido uma redução tão drástica”. Lamenta, por isso, que o Governo não tenha tido em linha de conta “o papel importantíssimo que a imprensa regional desempenha na preservação e na promoção da língua portuguesa”, uma vez que “não se pode esperar que os emigrantes passem, de um dia para o outro, a ler os jornais da sua terra através da internet”.
Também no caso do Diário do Minho o porte pago “apenas não permitiu que o jornal chegue em maior número aos emigrantes”. No entanto, José Miguel Pereira destaca que o estrangeiro “nunca foi uma aposta” muito grande no jornal minhoto. Reflexo disso é que “dos 9 mil exemplares apenas umas centenas segue para o estrangeiro”, refere. Alguns destes, “quando se anunciou o último “corte” no porte pago, fizeram contas e anunciaram que não podiam suportar as despesas relacionadas com o envio do jornal, mas foram poucos”, garante. Resumindo, “as alterações ao porte pago levaram a que o DM continuasse a não apostar na divulgação no estrangeiro”.
No caso do Açoriano Oriental as consequências não têm sido muito significativas, devido ao papel supletivo que o Governo Regional assume. António Lourenço de Melo, administrador-delegado do título, destaca que “no que respeita à circulação dentro da região, o Governo dos Açores complementa até aos 100%”. Já no respeitante ao continente, Madeira ou outros países, isso não acontece. Daí que os assinantes que possuíam tenham “cancelado os contratos na quase totalidade”. No entanto, pelo facto de ser um diário, “o número de assinantes no estrangeiro não tinha significado, o mesmo acontecendo com o continente e a Madeira”, refere o responsável.
José Miguel Pereira conclui, contudo, que “o porte pago é (quase) uma falsa questão” e coloca a tónica na falta de fiscalização. Não compreende como “há directores e administradores de jornais que, em poucos anos, “abrem” e “fecham” títulos, através da criação sucessiva de empresas de media”. Para o responsável “é tempo de proibir esta atitude: quem dirige ou administra um jornal que cessa a sua actividade em pouco tempo, ficando com dívidas, não deveria ser autorizado a reiniciar a actividade durante algum tempo ou então só após a liquidação das dívidas”. Instado pelo M&P a concretizar, o responsável optou por não o fazer. O director do DM lamenta que seja com base nesta realidade que os governos “se desculpem para cortar paulatinamente neste incentivo”, garantindo que a medida devia ser outra: “fiscalizar e penalizar os prevaricadores”. O responsável questiona ainda porque foi criada uma alternativa ao porte pago quando este “deve ser um complemento”. Também Francisco Rebelo Santos garante que, mais do que apoios, gostava que “o Estado desempenhasse o seu papel de regulador”. O administrador da Sojormedia refere, nomeadamente, que “não é aceitável que o preço da publicidade em televisão seja de tal forma baixo ao ponto de retirar anunciantes à imprensa”. Em suma, conclui que pelo facto do mercado não estar regulado, “saem penalizados os projectos que actuam de acordo com a lei”.
Nos Açores, António Lourenço de Melo destaca os apoios que os jornais têm tido ao nível do investimento e da formação atribuídos pelo Governo Regional. No entanto, o responsável acusa o Governo da República, afirmando que “o melhor apoio que poderiam dar era deixar de “perseguir” os jornais. A “fúria” legislativa deste Governo relativamente aos jornais à verdadeiramente assustadora. Dá a sensação que querem acabar com a imprensa regional”. Grandes grupos de imprensa regional?
Uma das características que distingue a imprensa regional da nacional é o facto de, na sua maioria, estar ainda afastada de grandes grupos de comunicação social. A Sojormedia, que tem sob a sua alçada títulos como O Aveiro, ou o Região de Leiria, para além da presença no mercado radiofónico com a Antena Livre, assume-se como “o maior grupo de imprensa regional não diária”. A editora, que é controlada pelo grupo Lena, é ainda apontado actualmente como um dos potenciais compradores da Económica, empresa actualmente detida pelo RSC Media Group e que possui em Portugal os títulos Diário Económico e Semanário Económico.
Sobre a criação de grupos de media a actuar ao nível regional, Francisco Rebelo Santos refere que “a integração em grandes grupos de media cria aos jornais regionais condições para funcionarem melhor”. O administrador entende que os benefícios se verificam, sobretudo, “do ponto de vista da gestão”, tornando-se “mais rigorosos e profissionais”, o que se reflecte a todos os níveis, desde o relacionamento com os clientes, às condições de trabalho que proporcionam aos seus colaboradores”.
Paulo Simões destaca que o facto do Açoriano Oriental estar ligado a um “dos maiores grupos de comunicação do país, a Controlinveste”, lhe permite ser nos Açores “o único jornal a vender ou oferecer brindes” como livros, DVD, colecções de música ou arte. Estratégia que acredita estar a dar bons resultados.
Já José Miguel Pereira entende que “a imprensa regional não precisa de estar ligada a grandes grupos de media”. O director do DM não vê aí benefícios para os títulos de teor regional, “para não correrem o risco de perder o que lhe é peculiar”. No entanto, frisa que a imprensa “precisa de estar minimamente estruturada, não ficando pelo amadorismo e por pessoas faz-tudo”, ou seja que desempenham ao mesmo tempo o papel de director, redactor, impressor ou distribuidor do jornal. “Os grandes grupos vivem à custa de muito lucro”, refere, o que significaria que “títulos de imprensa regional teriam de fechar em pouco tempo ou então transfigurar-se, e quando se perde a identidade, é melhor “fechar” e “abrir” diferente”, lamenta. Joaquim Emídio opina no mesmo sentido, afirmando não ver um “futuro promissor aos jornais que se vendam a grandes grupos de media”. Admitindo que “a imprensa regional está muito longe de atingir a sua maioridade”, lamenta que o facto de “haver meia dúzia de jornais como O Mirante, que têm um bom estatuto, e que fazem serviço público, não chega para puxar dos galões”. Sublinha que “as organizações locais têm que mostrar que têm capacidade para fazerem e editarem um grande jornal. Só depois podem esperar algum interesse dos grandes grupos de media, sejam eles nacionais ou internacionais”. A evolução do online
A grande maioria da imprensa regional já percebeu a importância da vertente online, estando os títulos mais representativos já há alguns anos a fazer uso do suporte. Paulo Simões garante que o Açoriano Oriental “foi o primeiro a ter um sítio na internet, já lá vão 12 anos” e acredita ser a “referência no jornalismo online regional”. O responsável sublinha que “a estratégia desenvolvida assenta na gestão das sinergias existentes entre as redacções do Açoriano Oriental, rádio Açores-TSF e o AO online”, uma vez que as três plataformas produzem conteúdos noticiosos usados por todos. O objectivo é que o site funcione “com o espírito de agência noticiosa”, sendo sempre que possível, o “primeiro dos três a dar notícias de última hora, sem prejuízo dos directos realizados para a rádio e dos desenvolvimentos posteriores o jornal”.
A exploração do online no caso da Sojormedia, está, segundo Francisco Rebelo Santos, ainda numa fase inicial, mas há “boas perspectivas de crescimento” associadas à renovação gráfica e à introdução de novas funcionalidades que está a ser preparada. A parceria com o Sapo, que está neste momento a explorar comercialmente as páginas do grupo está a ser positiva, uma vez que “ganha o Sapo pelos negócios que faz e ganhamos nós, por aquilo que também recebemos e pelo tipo de publicidade que é inserida nos sites”.
Também o Mirante nota um “grande crescimento” ao nível do online, algo que atribui sobretudo à área de vídeos intitulada Mirante TV. Joaquim Emídio adianta estar ainda a preparar alterações nas suas páginas online, garantindo que vai “surpreender o mercado”.
Também o DM já tem presença online há alguns anos. O director do título garante que o desenvolvimento do suporte vai ser “a próxima aposta da redacção do jornal”. Um site na internet com mais informação actualizada vai permitir também a captação de mais anunciantes, acredita José Miguel Pereira. Com esse objectivo em mente, o departamento comercial vai voltar-se mais para esta área, garante o responsável. Há espaço para crescer?
Apesar do momento complexo que a imprensa regional atravessa, as perspectivas para o futuro são, na generalidade, positivas. Francisco Rebelo Santos sublinha que “a globalização trouxe, surpreendentemente, um gosto e um interesse pelas questões locais e regionais, numa reivindicação clara das identidades”. O administrador da Sojormedia acredita que “a imprensa regional cumpre o papel único de informar e questionar aspectos do dia-a-dia das pessoas, e aproxima-as”. Faz notar que uma das regras do jornalismo, a da proximidade, pelo que “o que mais interessa ao leitor é o que lhe está próximo, seja em termos geográficos, temporais, sociais ou psico-afectivos”. José Miguel Pereira subscreve a ideia, referindo que “haverá sempre espaço para a imprensa regional, desde que tenha qualidade”, devido ao seu “espaço próprio, que consegue pela proximidade aos leitores, algo que não acontece com o outro tipo de imprensa”.
Quanto a Joaquim Emídio, acredita que a imprensa regional tem que se renovar. No entanto, admite que ainda “falta fazer quase tudo para que a imprensa regional nasça outra vez”. O director-geral do Mirante atribui a responsabilidade aos “políticos que continuam a fazer do país um território desigual”. Acredita que “um dia destes alguém vai ter que meter o dedo na ferida e demonstrar que a imprensa regional não está representada nem nunca pode ser representada pelo grandes grupos económicos, nomeadamente aqueles ligados à construção civil e à distribuição”. Entende que não se pode esperar “jornalismo independente, ao serviço das regiões, de grandes grupos económicos”, uma vez que para eles “primeiro estão os lucros e só depois o serviço público que o jornalismo exige aos seus profissionais”.
Em suma, “a imprensa local e regional do outro tempo ainda não morreu o suficiente para dar lugar a uma imprensa local e regional renovada”. No entanto, não tem dúvidas de que O Mirante é um dos melhores exemplos de que a imprensa regional tem ainda um grande potencial de crescimento”.
Finalmente, António Lourenço de Melo acredita que “se alguma imprensa em papel tem hipóteses de crescer essa será naturalmente a imprensa regional. É necessário apenas que saiba explorar bem a proximidade com os leitores, ajustando os conteúdos”, conclui.