por João Paulo MenesesA rádio informativa: passiva e activa
Nos dois anteriores textos acentuei aquela que me parece ser a grande tendência da «rádio» do futuro: a do consumo activo.
Consumo activo pressupõe, por oposição, consumo passivo – que é aquele que temos na rádio de hoje: ligar ou desligar, ouvir o que outros nos impõem, ouvir quando os outros nos impõem.
O consumo activo vai acabar com a rádio tal como a conhecemos?
Provavelmente não, pelo menos até 2018.
Iremos assistir, isso sim, a uma coexistência entre os dois tipos de consumo, o novo e o velho. O novo, que tentei caracterizar nos dois textos anteriores; o velho que é este que hoje temos no éter.
Basicamente, iremos ter consumo passivo em três situações:
- falta de ligação (temporária ou permanente, sobretudo em zonas mais pobres) à Internet;
- vontade de ouvir sem agir (e tanto pode ser por via hertziana, enquanto esta se mantiver, como via Internet);
- a rádio de palavra, sobretudo de informação. É sobre ela a crónica de hoje.
Os carros tornar-se-ão, cada vez mais, estações multimédia, em que o controlo se fará através da voz. Mas por muito que a recepção se sofistique, e enquanto houver gente a passar horas nos carros, é preciso companhia. Consumo passivo. De notícias, de fóruns, de relatos de futebol, etc. De conversa. De voz.
Parece claro que os novos hábitos impostos/descobertos pelo consumo activo também contaminarão os consumidores de rádio informativa (no seu sentido mais largo). Estes (alguns destes) também vão querer participar, intervir, decidir. Mas por muito que queira, o consumidor activo do meio multimédia será passivo quando chegar ao carro. Ou mesmo quando acordar. Ou quando estiver a cortar a barba e quiser/precisar de saber das notícias.
Como em tudo em que a Internet intervém, as fronteiras clássicas que hoje marcam as diferenças entre meios vão desaparecer. Daí que seja necessária muita cautela nas previsões. Quando, por exemplo, for possível reconstruir uma programação, a partir da actual lógica de «tags», apenas por voz (quando, por outras palavras, for possível chegar ao carro e pedir para ouvir apenas as últimas notícias do Benfica, de uma ou mais rádios), o consumo passivo acabará. Mesmo no carro. Mas até 2018 acredito que isso não aconteça…
Tal como acontece no carro, a rádio informativa será passiva em muitos momentos, mas seguirá, genericamente, a tendência da rádio musical. Ainda assim com uma grande diferença. Se, relativamente a esta, parece certo que a indústria apostará em dar muito protagonismo aos consumidores (façam as vossas playlists; muitas…), a rádio informativa manter-se-á dentro dos limites do editor. Do jornalista. Do gatekeeper. Fala-se em jornalismo do cidadão, em cidadão-repórter, mas o consumidor irá, depois de algumas experiências, preferir a informação mais profissional, mais rigorosa, mais credível.
Isto não significa que tudo fique como dantes. É impossível ignorar que os consumidores estarão mais atentos às falhas, que querem que a sua opinião seja valorizada, que querem ser mais participativos e ter mais informação sobre o próprio processo produtivo.
Os meios de consumo activo – ainda que mantenham em simultâneo um canal áudio, a que se chamará… rádio – têm todo o interesse em responsabilizar o consumidor e em serem responsabilizados por ele.
Jornalista da TSF e investigador
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