Por João Paulo Meneses
São poucos os que, no universo da rádio, pensam que tudo vai continuar como antes – e menos ainda aqueles que acham que o futuro, continuando tudo como antes, será radioso. Os que já perceberam que alguma coisa vai ter de mudar, a partir do momento em que a digitalização permite a pulverização da oferta na net e o aparecimento de concorrência em situações de acumulação, dividem-se entre os que defendem a manutenção do status actual, ainda que em novos formatos, e os que pensam que é necessária uma revolução completa (permitam-me incluir-me entre estes).
Os que têm uma visão mais conservadora da mudança defendem por exemplo a necessidade de estabelecer um novo padrão de emissão digital, alternativo ao hertziano.
Nos Estados Unidos a indústria impôs o HD (que, basicamente, permite o aparecimento de novos canais, alternativos), na Grã-Bretanha o DAB demorou mas parece estar a crescer e na França tudo parece indicar a generalização de um outro padrão digital, o DMB (de tecnologia sul-coreana).
Ou seja, a primeira conclusão é que não existe uma forma universal de difusão da rádio digital – o que fará com que os novos receptores tenham preços mais elevados, porque a generalização nunca se fará.
Depois, que a indústria não só não se pôs de acordo, como parece guerrear-se, fazendo lóbi pelas suas opções. E quando a França assumir a presidência da União Europeia voltará a falar-se do assunto.
Os fabricantes têm todo o interesse em fazer valer os seus interesses e, como há vários padrões no mercado, é provável que assistamos à pulverização de diferentes suportes – o que terá como consequência o aceleramento do fim do próprio digital (ninguém dúvida que se os fabricantes tivessem conseguido concertar um padrão, este teria muito mais viabilidade de se impor e duraria mais anos). Os receptores DAB servirão apenas para a Grã-Bretanha, os de HD para os Estados Unidos (e talvez Canadá e Brasil, que pretende juntar outro sistema, o DRM, para as emissões de onda curta), os de DMB para a França e?
A imposição de um único padrão de emissão digital em toda a Europa seria competência de Bruxelas? Admito que sim. Mas a questão central parece-me outra: o padrão de futuro, ao nível da emissão e da recepção, chama-se Internet e todos os esforços que forem feitos na adopção de veículos digitais intermédios são uma perda de tempo.
Quanto mais as rádios se ocuparem a escolher, adoptar e a confundir os ouvintes com novas formas de emissão e a obrigatoriedade de comprar um novo – e caro – receptor, menos estão a combater a nova concorrência que se apresenta aguerrida: a nova concorrência são os jornais que lançam canais de rádio através da net, as novas empresas de streaming «on demand», as webradios que têm todas as condições para proliferarem.
A proliferação de padrões digitais tem outra consequência negativa, que não pode ser negligenciada: o receptor do futuro chama-se telemóvel e a pulverização de sistemas acabará por fazer dissuadir os fabricantes de integrarem a recepção áudio nos novos aparelhos.
O mercado português – por ser economicamente desinteressante – não tem sido um alvo do lóbi dos fabricantes. O pior é se, arrastados por forças mais poderosas , acabamos por ter de entrar num barco que, antes de partir, já se está a afundar.
A rádio do futuro não é a rádio do presente e do passado – uma rádio de acumulação, de escuta secundária, de companhia; a rádio do futuro pode e deve lutar por conteúdos primários, que prendam a atenção (texto, vídeo, imagem, etc.) e que não precisam do DAB, do DMB ou do HD…
Investigador e jornalista da TSF
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