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Media

” A Imprensa regional é um dos negócios do futuro”

7 de Dezembro de 2007 às 18:00:22, por Maria João Morais

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Assinala em Novembro os 20 anos de vida e é o jornal regional com maior circulação paga do país, ao registar valores na casa dos 22 mil exemplares no primeiro semestre 2007, de acordo com dados da APCT. Joaquim Emídio, director-geral do Mirante, explica ao M&P a longevidade do título, ao mesmo tempo que faz uma análise à imprensa regional

As alterações ao porte pago, o investimento publicitário, a parceria com o Expresso e o futuro da imprensa regional foram alguns dos temas abordados por Joaquim Emídio, em entrevista ao M&P.

Meios&Publicidade: Vinte anos depois, o que distingue O Mirante de hoje do que era o jornal no seu lançamento?

Joaquim Emídio: Éramos um pequeno jornal da Chamusca. Mensal, depois quinzenal e só muito mais tarde semanal. Quando mudámos de armas e bagagens para Santarém, respirámos fundo e com uma equipa de meia dúzia de jornalistas demorámos menos de um ano a editar um jornal para uma área de intervenção que abrangia quase todos os concelhos do distrito de Santarém. Já tínhamos lançado as bases na altura da contratação dos jornalistas, que foram escolhidos de acordo com as suas áreas de residência. Queríamos fazer jus ao título de jornal regional.

M&P: O que diferencia O Mirante de outros jornais regionais?

JE: Na minha opinião, a forma como constituímos a nossa equipa de trabalho. O Mirante tem uma redacção de jornalistas residentes em Tomar, Torres Novas, Entroncamento, Chamusca, Almeirim, Santarém, Benavente, Cartaxo, Vila Franca de Xira. Outra das grandes diferenças: editamos três edições diferenciadas. No caso da edição Vale do Tejo e Lezíria do Tejo, só o caderno de Economia é comum. Não é sério falar em jornalismo de proximidade e estarmos a dar a ler aos leitores de Vila Franca de Xira notícias de Tomar.

M&P: Como avalia o actual panorama da imprensa regional em Portugal?

JE: Não sou pessimista. Nunca fui mensageiro da desgraça. Mas temos que reconhecer que a imprensa regional tem um longo caminho para fazer. A maior parte dos jornais regionais não passa de jornais locais. Uns de cidade outros de vilas e aldeias. Poucos se fazem com jornalistas e com boas chefias. Muito poucos são projectos culturais. Não conheço nenhum como o nosso que tenha essa característica. Somos o que somos pelo valor do nosso trabalho e não porque temos um grupo económico a suportar os nossos investimentos. Conheço jornais que tiveram vários subsídios do Governo, arrecadando muitos milhares, que ainda hoje não passam de folhas de couve… Gostava de saber como é que essa gente ainda tem coragem de escrever artigos de opinião a dizer mal do país e dos nosso políticos. Se o Governo tivesse aplicado os regulamentos que estiveram por detrás desses financiamentos, que os obrigavam a contratar pessoal e a fazer investimentos, já tinham ido quase todos para o maneta.

M&P: Que balanço faz da parceira estabelecida com o semanário Expresso?

JE: Ainda é cedo para balanços. Mas esta parceria foi estudada, pela nossa parte, durante os últimos cinco anos. E deve-se sobretudo à dificuldade cada vez maior na distribuição do jornal, com o aumento dos portes, os preços inflacionados dos correios e o mau trabalho que muitas vezes é prestado na distribuição. Não há publicação que se sustente das assinaturas que aguente tanto atraso na distribuição, tanto jornal mal devolvido, tantos feriados e tantas greves pelo meio, e tanta dificuldade em colocar uma publicação numa minúscula caixa de correio.

M&P: Está a ser equacionada mais alguma parceria com outro órgão de informação?

JE: Os editores não podem deixar de procurar alternativas para a distribuição das suas publicações. Infelizmente os patrões da imprensa regional são, na sua grande maioria, pequenos comerciantes. Cada um cuida da sua loja e do seu pequeno negócio. E os grandes patrões da imprensa de hoje não têm a visão que Francisco Pinto Balsemão sempre teve. Se aparecerem meia dúzia deles com visão de futuro, a imprensa regional será nos próximos dez anos a imprensa do futuro em Portugal. Temos muito melhores condições para nos tornarmos jornais de referência que os actuais, e mais conhecidos títulos, que se publicam em Lisboa e no Porto.

M&P: Em que medida as alterações ao porte pago vieram influenciar as contas dos jornais regionais, e em particular de O Mirante?

JE: Não é ainda o fim e nunca o será para projectos profissionais. Quem anda nisto há muitos anos já sabia o que nos esperava. Por isso fomo-nos preparando. Sem querer baixar os braços numa luta em que estive sempre sozinho contra o preço mínimo de assinatura e o pagamento à cabeça das assinaturas, acho apesar de tudo que as alterações vieram moralizar o sector. Espero que o porte pago acabe para começarmos a pedir ao Governo os outros apoios que são dados por todo o mundo aos jornais que fazem serviço público e criam riqueza nas regiões onde se publicam. Mas é uma injustiça, num mercado aberto como é o mercado europeu, o governo exigir preços mínimos de assinatura e pagamento de assinaturas à cabeça, quando precisamos para sobreviver de implementar planos de marketing e campanhas de assinaturas da forma que cada um achar mais pertinente. Principalmente agora que o porte pago está a acabar.

M&P: De que forma está a imprensa regional, e o O Mirante, a adaptar-se à transição de leitores para os suportes de internet?

JE: Nós não nos atrasamos. Termos um portal diário há mais de três anos. Mas não vamos ficar por aqui. A redacção já está preparada para trabalhar nos vários suportes. Neste aspecto a imprensa regional tem muito que ensinar a algumas redacções de Lisboa.

M&P: O investimento publicitário nos meios regionais tem acompanhado o potencial do suporte?

JE: Claro que não. O Mirante tem dez engenheiros da publicidade. Devemos ser o único jornal do país que tem “engenheiros” no sector comercial. Se um dia os planeadores descobrirem que nós somos um dos maiores jornais do país, e que temos índices de fidelidade e de afinidade superiores aos dos chamados jornais de referência, então já poderemos dizer que vivemos num pais de gente normal.

M&P: Face aos novos desafios que se impõem à imprensa, ainda haverá espaço para a imprensa regional crescer?

JE: O negócio da imprensa regional é um dos negócios do futuro. É preciso é saber trabalhar. Não basta ter uma equipa de jornalistas que sabe dosear a brilhantina para o cabelo para fazer um jornal. É preciso contratar outros profissionais, tão ou mais importantes que os jornalistas, para que os jornais vinguem. Dou um exemplo: se o Governo regulamentasse a publicidade selvagem que suja os centros históricos, as ruas das cidades, os jornais que existem viam crescer o investimento publicitário para o triplo. E não digo mais porque para bom entendedor meia palavra basta. Aqui está um bom exemplo que devia unir todos os patrões da imprensa portuguesa.