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Media

Ainda há razões para desconfiar?

20 de Novembro de 2007 às 12:36:15, por Filipe Pacheco

Confrontados com a desconfiança que ainda recai sobre o seu papel na hipotética manipulação da agenda mediática, os profissionais ouvidos pelo M&P relativizam a questãoAs recorrentes incursões na política por parte das agências de comunicação trazem constantemente a público a discussão sobre a influência cada vez maior das consultoras de comunicação na determinação da agenda mediática. Os serviços prestados recentemente pela Cunha Vaz & Associados a Luís Filipe Menezes por ocasião das eleições internas no partido, vieram mais uma vez fazer sobressair na opinião pública algumas das vozes que criticam o excessivo protagonismo das consultoras na gestão dos processos de informação, o que poderia, em última instância, colocar em causa a independência da actividade dos jornalistas. Mas, os profissionais do sector defendem-se e unem esforços no sentido de demonstrar a legitimidade e a transparência dos vários serviços que prestam.
“Ninguém dá tiros na cabeça dos jornalistas para publicarem notícias”, sintetiza Salvador da Cunha a propósito da hipotética manipulação exercida pelas agências de comunicação sobre os media. O director-geral da Lift explica: “São fantasmas que surgem de tempos a tempos, sobretudo na política, sector que começou recentemente a utilizar os serviços das consultoras de comunicação. Neste sector existem verdadeiras batalhas campais entre candidatos que ganham e que perdem. O que acontece é que muitas das vezes as consultoras de comunicação acabam por ser os bodes expiatórios das derrotas de alguns candidatos eleitorais”.

Tiago Franco mostra-se igualmente convicto da inocência do sector, até porque, como salienta, a existir promiscuidade, terá de contar com a conivência dos jornalistas. “O dever das agências é o de fazer um trabalho eficaz que forneça a informação adequada aos jornalistas. Nessa medida, a influência que exercemos é pela positiva”, refere o responsável da Ipsis. O que pode acontecer, acrescenta, é agências que “possam vender aos seus clientes que conseguem fazê-lo, o que é um erro”.

Para António Cunha Vaz, a falta de investigação em torno de casos palpáveis e concretos só vem favorecer o aparecimento dos fantasmas referidos por Salvador da Cunha. “Essa promiscuidade só existe se as duas partes quiserem. Do lado da comunicação social, a ERC devia ser a primeira a comunicar à Polícia Judiciária a promiscuidade existente entre as agências de comunicação e os jornalistas. Em lado nenhum do mundo existe este clima de desconfiança em relação às agências de comunicação. Por isso é que acho que se devia investigar tudo para saber como as coisas se passam”. O problema, de resto, também está do lado dos jornalistas que, como acrescenta, não têm coragem para publicar toda a verdade acerca do sector. “Os jornalistas são os únicos que podem dizer se a empresas manipulam ou falseiam a informação. Seria bom que o fizessem porque, tal como no jornalismo, há bons e maus profissionais no sector. Na nossa área também há gente que deveria ser banida”, destaca.

E em relação a quem aponta o dedo às agências de comunicação pela excessiva influência que exercem na construção da agenda jornalística, Cunha Vaz diz que são os próprios a pautar a sua conduta pela mesma lógica. “Há pessoas que se pronunciam contra as agências de comunicação e que vivem dos seus contactos com a comunicação social. Exemplos? Escritores que aparecem nas capas das revistas todos os dias. Coincidência ou não, na mesma semana saem uma série de entrevistas com o Miguel Sousa Tavares e com o José Rodrigues dos Santos”. E questiona. “Afinal quem é que põe lá as coisas? São os jornalistas que se lembram de ir falar com eles ou é um departamento de comunicação da editora que faz esse trabalho? Ou é ele mesmo que é jornalista e faz contactos?”. Assim, na óptica de Cunha Vaz, o discurso de quem crítica estas empresas peca por excesso de contradição. “A diferença entre a minha empresa e o que essas pessoas fazem na comunicação social está apenas no facto de eu ter uma empresa que presta serviços externos a clientes”. E esclarece, deixando no ar a questão: “Ou só eles é que são sérios e todos os outros são pouco sérios. Agora não ataquem é as agências de comunicação no geral, porque nós não somos todos iguais”.