Por, Edson Athayde
Volta às aulas
* iPosso? Poderia ser mais um banal exemplo de como o YouTube está a tornar-se numa fonte criativa incontornável para a publicidade não fossem os nomes das marcas envolvidas. O certo é que um estudante inglês de 18 anos, chamado Nick Haley, na falta do que fazer, produziu um pequeno spot amador para o iPod Touch e pôs no YouTube. Alguém da Apple viu e gostou. Contactou então a agência deles (a TBWA/Chiat Day) e mandou que negociasse com o miúdo a utilização da ideia para veiculação na TV nos EUA, Japão e Europa. Se quiser ver o spot, basta pesquisar no YouTube: “iPod Touch Ad – Nick Haley”. O anúncio em si é uma perfeita bobagem. Um mero video-clip, curiosamente sonorizado com uma música de uma banda brasileira alternativa, intitulada “Cansei de Ser Sexy”. O deprimente da história é mesmo esse detalhe: qualquer coisa que vá para o ar no YouTube parece ser mais convicente para alguns marqueteiros do que ideias criadas com princípio, meio e fim. Não tenho nada contra utilizar a internet para pesquisar insights, estruturas criativas, exemplos estéticos, etc. Hoje em dia o YouTube é fundamental para um criativo que queira estar sintonizado com o que as pessoas gostam e querem ver. Mas é triste ver uma coisa tão pobre como o vídeo do estudante inglês ganhar ares de fenómeno criativo. Não é. Mas os tipos da Apple é que sabem.
* Peraltices. Já que estamos a falar de estudantes, seguimos para o próximo tópico. Há mais de dez anos, conheci um jovem criativo brasileiro que queria vir para Portugal trabalhar comigo. O rapaz era realmente talentoso e estava já numa muito boa agência de São Paulo. Aliás, esses foram os motivos que me fizeram convencê-lo de que deveria seguir a sua trajetória por lá em vez de partir em aventuras. O certo é que o miúdo construiu um carreira sólida, tornando-se num dos mais premiados criativos do Brasil. Li há pouco tempo que está prestes a abir a sua própria agência. Desejo-lhe boa sorte. A criatura chama-se Alexandre Peralta e acaba de lançar um livro deveras interessante. O nome da obra é “Comece em Propaganda Com uma Ideia' (Editora Jaboticaba) e é direccionado basicamente aos estudantes publicitários. Mas há pelo menos um trecho que, por ser brilhante, merece ser lido por todos os que trabalham nessa nossa indústria. Trata-se do guião de um spot que faz um paralelo entre a relação paciente/médico e a relação cliente/agência. É tão verdadeiro e hilário que não resisto em reproduzi-lo (com alguns cortes, por questões de espaço) aqui:
Hospital. Homem a passar mal. Mulher e médico ao lado.
HOMEM: É o meu peito, doutor… Está a doer.
MÉDICO: É, senhor Luís, vamos ter que fazer um electrocardiograma.
HOMEM: Electrocardiograma? Parece interessante.
MÉDICO: Mas antes eu quero que o senhor tome um Cluorossil 300 mg.
MULHER: Não sei se concordo, mas vamos lá.
HOMEM: Doutor,… e se fosse um exame de sangue?
MÉDICO: Não, nós precisamos do electrocardiograma porque…
HOMEM: Mas pelo preço de um electrocardiograma, nós poderíamos fazer três exames de sangue!
MULHER: Humm… Eu gosto disso.
HOMEM: E aspirina?
MULHER: É mesmo. E a aspirina?
MÉDICO: O que é que tem?
HOMEM: Dizem que aspirina faz bem para o coração.
MULHER: Sabe, as minhas amigas tomam aspirina.
HOMEM: Eu gosto mais de aspirina.
MÉDICO: Eu sou médico há 30 anos e estou dizendo que o senhor precisa de um electrocardiograma.
HOMEM: Aspirina não é mais barato?
MULHER: E se também dá resultado…
MÉDICO: Senhor Luís, o senhor paga-me para dizer o que é o melhor…
HOMEM: Acho que poderíamos pensar noutras soluções.
MULHER: Mais opções.
HOMEM: Eu dou mais três dias para o senhor pensar.
MULHER: Vamos tentar para amanhã?
MÉDICO: Se o senhor não fizer esse electrocardiograma, pode ser que nem dure dois dias.
HOMEM: Um dia então. E não se fala mais nisso.
MÉDICO: Não vai tomar o Cluossil 300 mg?
MULHER: Acho que deveríamos rever tudo. E o 200 mg? E o 250? Vamos pensar…
HOMEM: Veja, não queremos dar a solução, o médico é o senhor…
MULHER: Isso, nós gostamos de ser provocados.
MÉDICO: Mas eu estou a dizer que o senhor precisa…
HOMEM: Doutor, é o seguinte…
MÉDICO: O quê?
HOMEM: Quem é que paga a conta?
Corta para velório. Viúva sentada, os parentes em volta.
VIÚVA: Eu disse que deveríamos trocar de médico…
Fade-out para ecrã a negro. Aparecem letterings: “Procure um especialista. Mas ouça.”
* Ou como diria o meu Tio Olavo: “O autodidata é alguém que é ignorante por conta própria.”