Li com toda a atenção o trabalho que o Meios & Publicidade publicou este mês sobre a rádio, em particular o texto «Os dias da rádio». Desse texto retiram-se facilmente duas ilações: o esforço da nossa “indústria' em declarar que não há qualquer crise com a rádio e a desvalorização clara da única plataforma com futuro – a Internet.Admito que pode ser uma estratégia não falar de crise para ela não ganhar mais proporções, mas isso só seria aceitável se – do outro lado – se percebesse que os responsáveis pelas principais rádios estavam despertos para o presente e, sobretudo, para o futuro. E, já o disse várias vezes, isso não acontece.
Mais: se o alvo principal desta espécie de “branqueamento' é a publicidade, não faz sentido esforçarem-se; é a publicidade que está a arrastar a rádio para a crise!
Sim, a rádio está em crise. A rádio portuguesa.
Se as audiências não o confirmam claramente, também não o contradizem; já o investimento publicitário está a fugir e a transferir-se para outros suportes – as receitas de rádio nunca “coincidiram' com as audiências globais do meio, da mesma forma que, nos últimos meses, têm diminuído sem que o Bareme o confirme (ou seja, a publicidade não pede autorização para sair; sai sem precisar de uma razão forte para deixar o “elo mais fraco').
Por outro lado, e por muito que o tentemos ignorar, basta ver os sinais que vêm do exterior (a começar pelo desinteresse dos jovens nos Estados Unidos); tenho convocado alguns desses sinais para estes textos e nem possuo fontes privilegiadas; só não vê quem não quer.
Mas a realidade portuguesa é ainda mais preocupante – ainda que o possamos ignorar no presente – porque 80 por cento do mercado é constituído por rádios musicais. E se há cinco anos a rádio era soberana quando se tratava de mobilidade (correr) e acumulação (conduzir), hoje existem alternativas pelo menos tão válidas – sim, os leitores de mp3, os telemóveis, o iPod.
Por estas razões a rádio está em crise. Uma crise de desenvolvimento (vai crescer para onde?) e de conceito (a rádio deixará de ser ouvida no rádio). Mas isso não significa que vai morrer.
É por achar que há futuro para a ideia de rádio que tenho tentado alertar os protagonistas.
E o futuro passa obrigatoriamente pela Internet.
Os responsáveis pela nossa indústria radiofónica não ouvem o primeiro-ministro oferecer computadores e banda larga? Não percebem que há um esforço de disseminação da banda larga nas casas, empregos e escolas?
Ora se as pessoas têm Internet (e Internet 24 horas por dia) é normal que a usem. Quem oferecer melhores conteúdos vai conseguir sobreviver – foi La Palisse quem o disse – e há conteúdos na Internet em que a rádio tem vantagem histórica.
Do meu ponto de vista a rádio não tem tirado partido disso, não tem tido uma atitude mais ambiciosa (à excepção, talvez, da Rádio Renascença), não tem diversificado a sua oferta.
A rádio do futuro – por muito chocante que possa parecer – será um portal na Internet, com múltiplos canais, um dos quais pode funcionar em simultâneo com uma emissão hertziana. Mas a emissão hertziana – que hoje é tudo – será pouco mais do que uma das opções que a «rádio» oferece.
Para a rádio de palavra – não necessariamente de notícias – os pressupostos alteram-se, com uma visão menos apertada (isto é, o canal áudio terá mais protagonismo do que na emissão musical), mas mesmo aqui a rádio não viverá só no FM. Pelo contrário.
PS – Discute-se, nesta edição e entre a nossa indústria, a questão das quotas de música portuguesa impostas à emissão generalista e musical. A questão é, na base, ideológica: pode um governo impor conteúdos, interferindo na programação? Do meu ponto de vista, sim. Se os alvarás são dados pelo Estado, o Estado deve manter algum controlo. Além disso, se as próprias rádios portuguesas, sobretudo as nacionais, não sentem necessidade/obrigação de o fazer, então que alguém o faça (com bom senso e ponderação), em nome da valorização da cultura portuguesa. Apoio a decisão. Mas que o Estado não se limite a inventar uma lei, ainda por cima polémica, que depois é para ser ridicularizada.
Coisa muito diferente é a operação a partir da Internet. É, e acredito que continuará a ser, uma área desregulamentada. Aí poderão surgir rádios musicais que ignorem a música portuguesa, seja por ser essa a sua aposta (uma rádio de blues ou de flamenco) ou por teimosia.
João Paulo Meneses
Jornalista da TSF e investigador