Há duas formas de encarar o impacto da digitalização, estejamos ou não a falar de rádio: colocarmo-nos numa posição de distância e reserva, tentando interpretar os sinais, mas sempre com desconfiança ('é uma moda', 'o crescimento vai estagnar', 'não vale a pena fazer grandes investimentos') ou projectar os dados disponíveis e antecipar um futuro dominado pela banda larga, pela rede, pela Internet, pela digitalização.É obviamente no segundo lado que me coloco – mesmo admitindo que, por vezes, o entusiasmo se confunde com as expectativas e que, no presente, somos levados a tomar a parte pelo todo. Ainda assim, os números mostram que nunca houve uma tecnologia com tão rápida progressão como a Internet (comparativamente, a mais rápida a conquistar 50 milhões de utilizadores).
A desconfiança é geracional e resulta, sobretudo, do aparecimento de uma tecnologia quase omnipresente que administradores e directores das rádios não conhecem e, pior, não compreendem.
Por isso se ouve tantas vezes, aqui como nos Estados Unidos, comparações entre a Internet e a televisão ou entre a Internet e o CD, por exemplo. 'Já decretaram, antes, a morte da rádio e ela sobreviveu. Irá continuar a sobreviver'.
O erro, mais uma vez, resulta da incompreensão do que é a Internet. Abro uma excepção nestes textos, para fazer uma citação; o espanhol Castells explica-a desta forma aos que pensam que se trata de mais um meio concorrente: “A Internet é o tecido das nossas vidas. Se as tecnologias de informação são o equivalente histórico do que foi a electricidade na era industrial, na nossa era poderíamos comparar a Internet com a rede eléctrica e o motor eléctrico, dada a sua capacidade para distribuir o poder da informação por todos os âmbitos da actividade humana. E mais, tal como as novas tecnologias de geração e distribuição de energia permitiram que as fábricas e as grandes empresas se estabelecessem como as bases organizacionais da sociedade industrial, a Internet constitui actualmente a base tecnológica da forma organizacional que caracteriza a Era da Informação: a rede” (Castells, A Galáxia Internet, pág. 15)”
Acredito que entre a indústria radiofónica portuguesa (mas não só) haja quem gostasse de acordar uma destas manhãs e ouvir a notícia que a Internet morreu. Acabavam-se as angústias, os equívocos, as incertezas, e tudo voltava a ser como era antes: a rádio anuncia, a televisão mostra e o jornal explica!
O “problema” é que isso não só não vai acontecer como as televisões e os jornais também já anunciam! Mais: a digitalização não se limita a quebrar as barreiras clássicas, como cria cenários de concorrência onde antes a rádio era exclusiva. Os leitores de mp3 ou os cartões de memória nos telemóveis são portáteis, móveis e acumulativos – antes era inevitável que levasse o rádio quando fosse correr; hoje tenho alternativas.
Pior, provavelmente: a Internet potenciou o aparecimento de operadores concorrentes aos que antes disputavam o mercado, concorrendo com as programações musicais clássicas. Devo dizer, por exemplo, que substituí a escuta de música na rádio portuguesa ao fim-de-semana por serviços como Pandora (entretanto interdito a não-norte-americanos), Lastfm ou Launchcast.
Há muitos milhares de anos que os chineses nos ensinaram que uma crise também pode ser uma oportunidade. Nestes textos, que tenho vindo a publicar no Meios & Publicidade, preocupam-me mais as soluções do que os diagnósticos. Apesar de considerar que a rádio está sofrer um choque digital e que ficarão sequelas, sobretudo na rádio musical, não acho que o futuro seja negro… se entretanto alguma coisa for feita.
O futuro passará pela conjugação destas duas tendências:
- a diversificação da oferta de conteúdos sonoros (aquilo a que, ainda, chamamos rádio e que poderá ter outro nome entre as próximas gerações), coexistindo uma emissão que pode ser também hertziana com outros canais e serviços “on demand”, arquivos e podcasts;
- o enriquecimento das páginas “on line” com conteúdos que só uma mentalidade analógica poderá classificar como acessórios: muita interactividade, notícias e informações e vídeo; não esquecer o vídeo!
O que é que vemos em Portugal?
Receio em potenciar o podcasting, páginas sem arquivos, um serviço público que devia liderar e que tem nas suas congéneres BBC e NPR excelentes exemplos e, desculpem-me o desabafo, notícias como esta: “Renascença lança nova rádio generalista”. Mesmo tratando-se de um canal destinado ao público com mais de 54 anos, ouvintes que já não chegarão à Internet, preferia ficar a saber que a Renascença está a olhar para o futuro, com as mãos na digitalização.
Se os meus argumentos não servem, eis mais dois, recentes:
- “A Internet ocupa já 25% do tempo total que os portugueses gastam no consumo de meios. A Net ultrapassou, inclusive, o tempo dispendido com a rádio e a imprensa, estando apenas atrás da televisão na preferência dos portugueses” (do Expresso de 30/06);
- “Os dados recentemente divulgados na 1ª vaga de 2007 do Bareme Internet, o estudo de base do Netpanel, contabilizam 3 839 mil indivíduos que costumam utilizar a Internet. Este valor representa 46.2% do universo composto pelos residentes no Continente com 15 e mais anos” (Marktest, 05/07).
João Paulo Meneses
Jornalista da TSF e investigador