Se há coisa de que a indústria da rádio não se pode queixar é de avisos: a rádio, sobretudo musical, está em declínio mas em Portugal são poucos os que não assobiam para o lado.A indústria está a ignorar os sinais que vão chegando, principalmente, dos Estados Unidos, parece conformar-se com a queda das receitas publicitárias e desperdiça as alternativas oferecidas pela digitalização. Porquê? Porque as audiências continuam a registar, entre os jovens, mais ouvintes do que a média, porque não há a noção de investimento (antes de custos) e porque – sejamos claros – há um problema de desconfiança geracional relativamente à Internet, entre quem tem mais de 40 anos e está em lugares de decisão.A semana passada, nos jornais, dois artigos foram mais dois avisos. No Diário de Notícias podia ler-se que “A rádio vai morrer muito em breve e só a publicidade é que decidirá por quanto tempo é que ela se mantém”, por outro, neste mesmo Meios & Publicidade escrevia-se que “A rádio e o iPod são parceiros perfeitos”, mas que “A rádio tem de mudar se quiser sobreviver”.
Ou seja, há o risco de extinção, mas ao mesmo tempo existem hipóteses de sobrevivência – se algo for feito.
Em Portugal estamos a ver como param as modas, sobretudo da Europa – que os Estados Unidos são de outro campeonato. O problema é se não será demasiado tarde. É que a rádio musical em Portugal apresenta números francamente desequilibrados comparativamente com outros países: à volta de 80%! Em Espanha ou França não são superiores a 50%.
E como, não tenhamos quaisquer dúvidas, a rádio musical será aquela que irá sofrer maior erosão, por concorrência directa dos leitores de mp3/iPod e do acesso a canais na Internet, o impacto em Portugal será maior. Vai demorar? Talvez. Mas é apenas uma questão de tempo.
Não acho que a rádio vá morrer, mas acho – e tenho-o defendido nestes artigos – que a rádio musical está muito ameaçada. Se tivesse dinheiro investido no sector de rádio estaria preocupado. E das três, uma: ou reciclava o projecto para palavra (insubstituível, quando apresentada em directo), ou desistia, ou – mais certo – começaria a tirar o máximo partido das potencialidades abertas pela Internet. E isto já pouco tem a ver com a emissão em “streaming”, tão inevitável quanto básica. Tem mais a ver com formas de aumentar a interactividade com os ouvintes, com a colocação de conteúdos “primários” (texto e vídeo) na página, com a possibilidade do ouvinte personalizar a emissão.
No artigo do DN podia ler-se que “o estado actual da rádio deve-se às novas tecnologias, como a Internet ou o iPod”. Não, deve-se antes à própria rádio que está adormecida, desinspirada, sonolenta. São fracas, com uma ou outra excepção, as páginas das rádios musicais portuguesas: poucos conteúdos, pouco atractivas, pouca navegação interna.
Um exemplo? Os podcasts que existem (quando existem) resultam da transmissão radiofónica, em vez de se perceber uma preocupação com a elaboração de novos conteúdos, alternativos, complementares, de nicho, que interessem aos milhares que têm leitores de mp3/iPods. Leitores e rádio podem ser “parceiros perfeitos” se a rádio quiser.
O problema é, mais uma vez, de tempo: quanto mais demorar, mais gente se desabituará de ouvir rádio. Veremos se não será demasiado tarde.
João Paulo Meneses
Jornalista da TSF e investigador