“A política de descontos de alguns editores é auto-destrutiva”

Por a 18 de Junho de 2007

antonio marques

António Eduardo Marques, administrador da Folha Digital, explicou ao M&P o estado dos segmentos onde a editora actua, TI e informática, e o porquê de lançar a Sal & Pimenta.

A aposta em novos projectos está nos planos para 2007

Numa entrevista por e-mail, António Eduardo Marques, administrador e sócio da Folha Digital, explicou ao M&P que o “mundo das TI está em permanente evolução”, o que faz com que este segmento se renove constantemente. Pelo contrário, considera que o sector das revistas de informática está “perfeitamente estabilizado e sem grande margem para crescimento”. De resto, António Eduardo Maques considera que uma das principais dificuldades de actuar neste mercado advém da “política [de descontos] que alguns editores têm tido nos últimos dois anos”, que classifica como “perfeitamente auto-destrutiva para o mercado em geral”. Sobre a Sal & Pimenta, “a primeira experiência no licenciamento de uma revista”, o administrador da empresa revela que a decisão de avançar com o projecto foi tomada depois de constatar que “o sector das revistas de culinária teria espaço para mais um título”. Até ao final avança com a possibilidade de “lançar outras publicações”, até porque ” 2007 constitui um ponto de viragem para a empresa”.

Meios & Publicidade (M&P): A Folha Digital foi criada com um core business muito definido: publicações dedicadas ao mundo das novas tecnologias e da informática. Considera que este nicho ainda está em fase de desenvolvimento ou já atingiu a maturidade?
António Eduardo Marques (AEM): Sim e não. É verdade que a Folha Digital foi criadas por três jornalistas – eu, o José Antunes e o Pedro Freire Alves – com bastante know-how na área das tecnologias da informação. Quando, há seis anos, decidimos avançar com a Folha Digital, estávamos todos, por razões diferentes, a trabalhar na RGB Editora, que foi recentemente encerrada. Na altura, eu era director da revista Mega Score, o Pedro estava à frente da DVD Review e o José Antunes, que desde sempre manteve uma actividade essencialmente de freelance, era colaborador da Mega Score desde a primeira hora. Quando a Folha Digital nasce é essencialmente com dois objectivos: criar uma revista de fotografia digital e também produzir revistas para terceiros, a primeira das quais foi a revista Sirius, propriedade da Associação Portuguesa de Pilotos de Linha Aérea. A partir do momento em que montámos a estrutura básica da empresa, sabíamos que podíamos produzir outras publicações; o facto de termos maior know-how em áreas de tecnologias de informação leva-nos naturalmente a pensar mais em publicações dessa área, mas tal não é necessariamente forçoso…

M&P: Mas ainda há nichos por explorar nas TIs?
AEM: Penso que continuam a existir nichos interessantes que podem ser explorados, tanto mais que o mundo das TI está em permanente evolução. E se hoje nos pode parecer que o mercado se encontra saturado, amanhã poderá surgir um mercado completamente novo. Parece-me que há áreas que estão de facto saturadas, quer ao nível do potencial de leitores, quer ao nível dos anunciantes – se os primeiros podem “esticar”, o mesmo raramente acontece com os segundos. O sector das revistas de informática, que em meados dos anos 90 foram um excelente negócio, parece-me hoje perfeitamente estabilizado e sem grande margem para crescimento. O mesmo se poderá dizer do mercado das revistas de videojogos cujo potencial de alargamento é, em Portugal, limitado pelo facto de o maior editor do sector, a Goody, estar ligada ao também maior distribuidor nacional de videojogos, a Ecofilmes/Ecogames.

M&P: Quais são as principais particularidades de actuar neste segmento?
AEM: Penso que não há grandes diferenças entre este e outros segmentos do mercado à excepção da contracção permanente do mercado da publicidade. Se esta contracção afecta as publicações generalistas, ela é mais grave para quem actua apenas em determinados nichos, onde o número de potenciais anunciantes é mais reduzido. Contudo, creio que mais grave do que a reduzida “pool” de anunciantes, é a política que alguns editores têm tido nos últimos dois anos, e que considero perfeitamente auto-destrutiva para o mercado em geral, de esmagar os preços praticados. Temos conhecimento de revistas que operam nos mesmos segmentos de mercado onde nós estamos, que fazem propostas aos clientes com descontos da ordem dos 90% sobre a tabela. Penso que é uma abordagem ao mercado com efeitos gravíssimos a médio prazo: quando o mercado recuperar, como é que esses editores irão convencer os clientes a quem praticaram descontos absurdos que, agora que eles podem pagar, querem subir os preços?

M&P: Embora a editora esteja focada nas novas tecnologias e na informática, recentemente lançaram uma revista de gastronomia, a Sal&Pimenta. O que motivou esta opção?
AEM: Nunca foi a nossa intenção auto-excluirmos projectos de outras áreas. A Sal&Pimenta surge na sequência de olharmos para o mercado nacional e considerarmos que o sector das revistas de culinária teria espaço para mais um título, uma vez que as revistas actualmente existentes apelam quase todas ao mesmo público – mulheres donas-de-casa – e, além disso, são todas centradas na gastronomia tradicional portuguesa. Quanto a nós, faltava um título que acompanhasse a evolução da sociedade nesta área. Que apelasse quer a donas-de-casa como, e sobretudo, a mulheres urbanas, profissionais, mas que também precisam de cozinhar em casa, mesmo que de forma mais casual. Além disso, a gastronomia italiana está a ter uma aceitação cada vez maior em Portugal. Para a editora é também a primeira experiência no licenciamento de uma revista, neste caso com o Grupo Mondadori, o maior grupo editorial italiano. De facto, tinha já havido uma primeira abordagem no final de 2006, mas como nessa altura a Mondadori tinha relações privilegiadas com outra editora, com quem estava a publicar uma revista feminina, as conversações nunca chegaram a avançar. Quanto essa revista feminina deixou de se publicar no final de 2006 e a Mondadori deixou de ter quaisquer negócios com outros grupos portugueses, voltámos a contactar os responsáveis italianos pelo licenciamento e chegámos rapidamente a um acordo.

M&P: Quais são os primeiros resultados?
AEM: No momento desta entrevista temos ainda a primeira edição nas bancas, mas as primeiras sondagens confirmam as nossas melhores expectativas. Contamos atingir o ponto de equilíbrio deste projecto muito rapidamente.

M&P: Estão a ponderar o lançamento de mais algum projecto fora do core business da Folha Digital?
AEM: Até ao final deste ano é possível que venhamos a lançar outras publicações.

M&P: Em que áreas?
AEM: Ainda é cedo para falar sobre isso.

M&P: Do portfolio de títulos da Folha Digital, onde se inclui, por exemplo, a FOTOdigital e a Vídeo & DVD, quais são as revistas mais rentáveis?
AEM: A FOTOdigital foi, é e continua ainda hoje a ser um bom negócio, embora o mercado da fotografia digital se tenha expandido de tal forma que, paradoxalmente, afectou o seu potencial comercial. Isto porque, dada a mudança de paradigma neste sector, aqueles que eram alguns dos players mais fortes, deixaram de o ser; ao mesmo tempo houve também algumas fusões, o que levou também a que o número de anunciantes se reduzisse. Também em termos de leitores, o mercado evolui de forma que levou também à evolução da própria revista. No início, a FOTOdigital era, sobretudo, uma revista de testes de equipamento. Hoje, tal já não acontece; por isso, também a revista evoluiu para uma revista “de fotografia” onde é dada mais ênfase aos resultados do que aos equipamentos.

M&P: Em sentido contrário, têm algum título deficitário?
AEM: Numa editora como a nossa, não há espaço para títulos deficitários…

M&P: Além da edição das vossas publicações, a editora tem uma área de custom publishing. Quais os planos que têm para esta vertente de negócio?
AEM: A área de custom publishing sempre existiu na empresa desde o primeiro dia, com a edição e publicação da revista Sirius. Trata-se de uma área onde a editora até ao início de 2006 não procurou activamente novos negócios mas onde, apesar de tudo, surgiram algumas interessantes oportunidades, designadamente através da Porto Editora (Educare Hoje e Revista Oficial PlayGames) e, no início de 2006, a MegaJogos, que produzimos para a Infocapital durante alguns meses. Nos últimos meses, esta é uma área a que temos dedicado mais atenção, com uma maior proactividade na captação de clientes. Na sequência desta nova atitude, em meados de 2006 ficámos com a edição da Microsoft Magazine, que desde o início da publicação e até à data era produzida pela Edimpresa.

M&P: Estão a negociar algum título?
AEM: Até ao final deste ano deveremos anunciar novos negócios nesta área.

M&P: Quanto é que o custom publishing representa na facturação da Folha Digital?

AEM: Até agora, tem representado uma fatia minoritária da nossa facturação, mas a tendência é que venha a aumentar, mesmo tendo em atenção que estamos a lançar novas revistas de edição própria, como é o caso da já referida Sal&Pimenta. Este aumento da actividade no custom publishing justifica-se por várias ordens de razão. Primeiro, porque é de facto uma área em franco crescimento, por outro lado, porque da nossa parte temos capacidade para oferecer serviços muito diversificados, desde a simples paginação à criação de conteúdos, passando por soluções completas. Outra das nossas vantagens deriva da pequena dimensão da empresa, que tem uma grande agilidade e capacidade de resposta. Dou-lhe um exemplo: a revista MegaJogos, que criámos a pedido da Infocapital no final de 2005, foi posta de pé em 45 dias, desde o momento em que houve luz verde até à saída em banca. Este foi um exemplo em que a Folha Digital criou um projecto 100% de raiz – desde criar e registar o título, até ao modelo gráfico, passando pelos conteúdos, edição e impressão.

M&P: Em 2006, a editora encerrou o ano com resultados positivos?
AEM:O exercício de 2006 foi de transição para editora, especialmente na área de Custom Publishing. A editora teve uma facturação superior a meio milhão de euros e apresentou um resultado líquido equilibrado no final do exercício passado.

AEM: Quais são as expectativas de facturação e lucros?
AEM: As expectativas são de crescimento face ao exercício anterior, mas tudo dependerá do andamento dos novos projectos até ao final do ano.

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