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Cronistas

Morreu o DAB; viva a Internet

4 de Maio de 2007 às 11:39:00, por Meios & Publicidade

Um relatório recente do regulador britânico das telecomunicações avisa que pretende desligar a amplitude modulada (a onda média) em 2009 e o FM três anos depois. Ou seja, a rádio será, daqui a poucos anos, cem por cento digital, via DAB (Digital Audio Broadcasting), satélite ou Internet.

A ideia da Ofcom não é para ser levada á letra – creio – devendo ser entendida como uma forma de pressionar os consumidores a aderirem ao DAB.

Mas então a Grã-Bretanha (GB) não tem sido anunciada como o melhor exemplo de sucesso do DAB na Europa e no mundo? Realmente, a Grã-Bretanha é o país em que a transmissão digital de emissão rádio tem mais expressão, mas – soube-se recentemente – há muito de “marketing” nesses números e nesses adjectivos: o número de ouvintes que o fazem via receptores DAB não chega aos 15 por cento. Muito, quando comparado com outros países europeus onde o DAB tem alguma expressão, como a Alemanha ou a Holanda, e radicalmente diferente de países onde esta tecnologia não descolou (Portugal ou Espanha, por exemplo) ou foi mesmo desmobilizada (Suécia ou Finlândia).

O que é que explica que esta tecnologia esteja ameaçada ou precise de “incentivos”, como os que são anunciados pela Ofcom?

Basicamente duas razões:

- a primeira, mais imediata, tem a ver com os custos: para quem já tem uma rede de emissores analógicos, pagar a nova tecnologia não é atraente. E isso fez os operadores retraírem-se. Mas também custos na recepção: o DAB não é compatível com os receptores actuais, pelo que é necessário comprar um novo. E os seus preços nunca se popularizaram, atingindo em Portugal os 60 euros, por exemplo. Como os operadores não se entusiasmaram, a oferta DAB também não entusiasmou os compradores. Ou foi ao contrário?

- a segunda é mais recente: o DAB representa alguns ganhos face á emissão analógica, pela possibilidade de inserir informação (texto), por exemplo, mas não representa nem uma oferta realmente mais diversificada nem a possibilidade de controlar os conteúdos por parte dos consumidores – provavelmente a grande marca da transmissão através da Internet. Ou seja, o DAB é uma rádio melhorzinha, mas não muito melhor, porque – como se tem visto na GB – são muitas as queixas quanto á qualidade da emissão, sobretudo musical (e que resultam do facto de haver vários canais a dividir pelo espaço disponível, tornando a emissão mais “congestionada”).

Quando o DAB apareceu a Internet não era o que é hoje – por exemplo a nível da generalização da banda larga (o primeiro receptor digital é apresentado em 1995). Na altura, o entusiasmo foi enorme e fizeram-se as previsões mais optimistas. Portugal não quis ficar atrás e em 1998 foi aberto num concurso para cobertura nacional através da tecnologia DAB. Ganhou a RDP, que deve ter gasto uns milhões nos últimos anos com esse equipamento. Hoje parece claro que o DAB não tem futuro em Portugal – os três canais nacionais da RDP emitem digitalmente mas para quantos ouvintes? (RR e RFM, se emitem via DAB, nada dizem).

Não gostaria que ficasse a ideia de que estou a criticar a opção que na altura foi feita pelo DAB – limitámo-nos a ir atrás de uma tendência que parecia clara, por falta de alternativas, e são esses os custos de não ficar sempre desfasado da realidade. Não havia, há 10 anos, alternativa.

Contesto, em alternativa, a continuação dos investimentos quando se percebeu que o DAB não tinha futuro. E isso não é de hoje. Investimentos que continuam a ser feitos? Desconheço, mas lembro-me de ter lido que a cobertura de Portugal ficaria pronta em 2007. Contesto também, e são coisas relacionadas, ainda não ter sido assumido o fracasso desta tecnologia em Portugal. Por falta de alternativas? O futuro chama-se Internet. É fácil, é barata e dá milhões. Não se percebe é que quem esteve disponível para gastar tantos milhões com emissores que não têm utilidade esteja tão reticente quanto ás potencialidades da Internet aplicada á difusão sonora (de áudio, portanto). Basta ver/copiar o que estão a fazer a BBC ou a NPR.

Finalmente uma outra lição que este caso nos dá: o já citado relatório da Ofcom começa assim: “a rádio vive um momento excitante da sua história”. Um momento excitante, mas também de grande indefinição. Que aconselha a alguma prudência quando se trata de novas tecnologias. O que é verdade hoje pode não o ser amanhã. Mas penso não estar a cometer o mesmo erro se apostar na Internet para a transmissão digital daquilo que ainda conhecemos por rádio.

João Paulo Meneses

Jornalista da TSF e investigador