Há alguns dias, durante uma entrevista na Prova Oral da Antena 3, e perante o meu cenário um pouco negro relativamente ao futuro da rádio musical, Fernando Alvim assustou-se. Insisti em duas ideias:
- a ameaça dos novos suportes digitais é real e quem não o perceber vai ficar para trás;
- ainda assim, a rádio musical tem alguns trunfos que não devia desperdiçar.
Como exemplo, disse ao Fernando Alvim que me parecia uma boa ideia ele vir a ter uma rádio na Antena 3 (ou no universo da RDP) só dele. Com as músicas que ele escolhe e gosta, com as entrevistas que ele quer fazer, com suas apostas. Uma rádio na Internet, claro, que pode e deve estar associada a uma página, incentivando a interactividade com os seus ouvintes, com espaço e ligação para outras sugestões (texto, som ou imagem; sim vídeo), transformando o seu canal numa espécie de página do hi5 com som. Possivelmente, em alguns horários, em “simulcasting” (FM e net).
O Fernando Alvim confessou, também em directo, que nunca tinha pensado no assunto, mas se pensar mais um pouco vai ver que não só é possível, como será um desafio interessante. Será, provavelmente, o futuro.
A proposta – que precisaria, obviamente, de mais elaboração – contempla algumas das tendências fundamentais da comunicação do futuro, a que a rádio (com este ou com outro nome) não pode ficar indiferente:
- os seus ouvintes (os do Alvim, da Antena 3, da rádio musical e da rádio em geral) passam cada vez mais tempo na Internet, beneficiando de uma oferta que se multiplica quase todos os dias; usar os vídeos do Youtube, as páginas do hi5 ou do Flickr é, além de ferramentas úteis, ágeis e baratas, estar onde estão os ouvintes;
- os seus ouvintes querem participar, querem decidir, querem pelo menos influenciar; ouvi-los é envolvê-los; ouvi-los é permitir que eles se apresentem também como produtores (e não apenas como consumidores); ao produzirem estão a fornecer conteúdos exclusivos para esse canal (uns serão melhores do que outros, claro, mas o Fernando Alvim teria sempre a hipótese de decidir);
- o podcast ainda não descolou, mas o podcasting – mais como filosofia do que como técnica – veio para ficar (como a lógica dos RSS).
Mas o futuro não será só a distribuição de conteúdos (a capacidade de os arrumar, de os apresentar, de os fazer chegar bem aos ouvintes).
É fundamental ter os conteúdos – e isso tanto significa ter novidades da música como, sobretudo, ter bons comunicadores: pessoas que fazem a diferença junto dos ouvintes. Que têm ouvintes. Como o Fernando Alvim.
Por isso é que a rádio musical, como nós a conhecemos hoje, não se pode distrair, perdendo mais tempo. Em vez de ser ultrapassada por operadores sem qualquer tradição, e que basicamente vivem da nova lógica digital, como os canais de streaming, tipo Pandora, a rádio musical deve avançar por si própria. Com os seus trunfos. No terreno que conhece melhor e onde tem tradição.
Podia ser já amanhã – até porque estamos a falar de custos baixos. Mas não sei quanto tempo os responsáveis pelas nossas rádios vão demorar a perceber.<
João Paulo Meneses
jpm@tsf.pt
jornalista da TSF e investigador