Saltar o menu e ir para os conteúdos
Media :: Artigos de Fundo

Um mercado cada vez mais interessante

23 de Março de 2007 às 17:18:00, por

A presença de grupos internacionais de media em Portugal é cada vez mais uma realidade, cimentada por aquisições, parcerias ou abertura de filiais no nosso país. O M&P apresenta-lhe uma radiografia dos principais players a actuar no nosso mercado

Se dúvidas existiam acerca do interesse que o mercado nacional de media pode despertar junto de alguns dos principais players internacionais desta área de negócio, os últimos anos ajudaram a dissipá-las. A OPA da Prisa sobre a Media Capital, as movimentações da RTL em torno da holding detentora da TVI e os rumores acerca do seu interesse em entrar no capital da Impresa, o alegado interesse da Globo no grupo de Balsemão ou a entrada da Vocento, da Prisa e da Recoletos na ‘corrida’ aos activos da Lusomundo Media alienados pela PT em 2005, são disso exemplo.

Actualmente, de resto, são já vários os grupos internacionais a actuar em Portugal. Prisa, Edipresse, RCS Mediagroup (através da recente aquisição da Recoletos), RBA, Gruner + Jahr (através da aquisição da Motorpress) ou Lagardére (através da Hachette Filipacchi Médias) são os expoentes máximos deste cenário, complementado pela presença em Portugal de filiais de empresas como as produtoras Endemol ou Fremantle Media e de canais como a TV Record, a MTV, o Panda ou o História, por exemplo.

Ou seja, o mercado nacional de media cada vez mais se assume como um puzzle constituído por peças das mais diversificadas origens, dando azo ao estabelecimento de um universo de negócio ‘globalizado’. Um mero reflexo, aliás, da realidade económica actual de praticamente todos os sectores de actividade a nível mundial.

Uma fase de boas oportunidades de negócio em Portugal

O recente interesse dos grupos internacionais pelos activos de media presentes em Portugal é um fenómeno que pode ter, no entanto, uma explicação bastante simples: a constatação de que o mercado português tem potencial de crescimento e que atravessa uma fase em que – dada a conjuntura económica desfavorável do país – é possível concretizar negócios proveitosos.

É essa, por exemplo, a perspectiva assumida pelo Investor Relations do grupo Impresa, José Freire, quando instado a comentar o visível incremento de movimentações de grupos estrangeiros no nosso país no passado recente. “É normal que isto esteja a acontecer porque eles olham para o nosso mercado e acham que o potencial de desenvolvimento do sector é muito grande”, defende o responsável do grupo de Balsemão, convicto de que “a presença e a experiência desses grupos noutros mercados permite-lhes olhar para Portugal e ter a perfeita noção de que esse crescimento que já sentiram lá fora também acabará por acontecer no nosso país”.

Uma fase de crescimento que, para José Freire, “ainda não se está verificar apenas devido á difícil conjuntura económica” que Portugal atravessa. Uma condicionante que, se por um lado dificulta a vida aos players nacionais, por outro “permite aos grupos internacionais aproveitarem esta fase para fazerem negócios proveitosos para eles”. “Usando o jargão bolsista, podemos dizer que os grupos internacionais que estão agora a investir no nosso país estão a ‘comprar em baixa’”, resume o Investor Relations da Impresa.

Contudo, de acordo com a opinião de José Freire, as movimentações destes grupos internacionais no nosso mercado não parecem assumir uma lógica puramente bolsista, no sentido de investirem numa fase de recessão para posterior venda em alta, de forma a daí retirarem dividendos.

“Pelo que me é dado a perceber, os grupos estão a investir com o objectivo de ficarem por cá muitos anos. É normal que isso aconteça, porque sempre que essas empresas apostam em países que estão a atravessar fases de menor crescimento, fazem esse investimento por considerarem que existe uma maior margem de crescimento nos seus negócios”, resume.

E é possível perceber para que lado pende a balança na relação entre os benefícios e os prejuízos que a entrada em cena destes players de envergadura internacional pode transportar para o mercado nacional de media? “Parece-me que é uma situação benéfica porque estes grupos ajudam a profissionalizar a gestão dos grupos de media. Tomam decisões de gestão mais pensadas e diria mesmo que mais acertadas. Temos o exemplo recente de um grupo que assumiu o controlo de uma empresa de media e que tomou quase no imediato a decisão de encerrar uma revista que provavelmente estava a dar prejuízo. Se fosse uma empresa nacional, o mais provável é que continuassem a esperar mais algum tempo para ver se conseguiam equilibrar as contas, até decidirem finalmente encerrar a revista”, exemplifica, aludindo ao encerramento da revista Grazia por parte da nova administração da Media Capital, já sob a égide da Prisa.

Da “porta de entrada” para um universo de 500 milhões de pessoas…

Pegando precisamente no exemplo da Prisa e cruzando as apreciações de José Freire com as intenções manifestadas pelos responsáveis da holding espanhola aquando do desfecho da OPA voluntária sobre a totalidade das acções da Media Capital, é possível confirmar que entre as motivações do grupo espanhol para a sua entrada no mercado português está uma perspectiva de longo prazo na gestão da empresa proprietária da TVI.

“Este é um negócio que oficializa a constituição de um grande grupo de comunicação ibero-americano e luso-hispânico”, referiu a propósito do desenlance da operação o CEO da Prisa, Juan Luis Cebrián, convicto de que a passagem da Media Capital para a alçada a Prisa deu origem á criação do “maior grupo ibérico de comunicação”.

Contextualizando a entrada do grupo espanhol no mercado português através da aquisição da Media Capital, Cebrián começou por justificar a decisão com a convicção de que o mercado português tem uma grande “capacidade de desenvolvimento”. Uma situação que conduziu o grupo á decisão de não perder a oportunidade de concretizar uma operação que encaixou de forma natural “na estratégia da Prisa de acreditar nos processos globais dos mercados”.

Nesse âmbito, de resto, o responsável destacou a importância da presença da holding espanhola no nosso país á luz das portas que esta realidade abre ao grupo: “É uma situação que não só facilita a acção da Prisa em mercados lusófonos como o Brasil e alguns países africanos, como também permite á Prisa operar num universo de 500 milhões de pessoas que falam português ou espanhol”, argumentou Cebrián, enfatizando, no entanto, que estes processos de globalização dos mercados de media não podem descurar a necessidade de “respeitar a identidade de cada país”. “A Prisa tem uma identidade global e não nacional, mas reforçamos sempre a identidade nacional dos activos que detemos. Em Portugal também queremos reforçar a identidade portuguesa dos nossos meios, porque sabemos que isso é muito importante junto do público”, reforçou.

… á “extensão natural” de portfolios editoriais

Para além do grupo Prisa, 2006 foi também o ano em que ficou oficializada a entrada no mercado português da igualmente espanhola RBA. A aquisição dos direitos de exploração no nosso país da revista National Geographic – que o grupo já detém em Espanha – foi o “mote” para a abertura da filial portuguesa da editora, que pretende dar sequência á sua presença em Portugal através da extensão do seu portfolio de títulos para o nosso mercado, mediante o lançamento de edições lusas de algumas das suas principais publicações.

Uma posição em tudo semelhante á adoptada no nosso país pela Hachette Filipacchi Publicações, sucursal do grupo editorial Hachette Filipacchi Médias (propriedade da francesa Lagardére), cuja presença em Portugal se materializou através da adopção de edições portuguesa de revistas como a Premiére, a Elle ou a Ragazza, também exploradas pela editora em mercados internacionais.

No caso da RBA, o lançamento de uma edição portuguesa da revista El Mueble – cuja edição espanhola já vende perto de 20 mil exemplares mensais no nosso país, segundo dados da editora – deverá ser o passo seguinte, estando já a filial portuguesa do grupo espanhol a trabalhar nesse sentido.

E se a perspectiva globalizada de mercado, como a apresentada pela Prisa, “não pode ser comparável com uma empresa como a RBA, que não tem negócios de rádio ou de televisão como a Prisa tem”, como reconhece a directora-geral da RBA Portugal, Teresa Vera Magalhães, a entrada da editora no mercado português é, ainda assim, encarada como uma “extensão natural” das actividades de media na península ibérica, como explicou a responsável, escusando-se a revelar grandes pormenores sobre a estratégia da RBA para o nosso país.

Sobretudo porque, como recordou a responsável, os molde finais dessa estratégia estão ainda dependentes do acordo estabelecido no final de 2006 entre a RBA e a suíça Edipresse Hymsa para a fusão das suas actividades editoriais no mercado espanhol. Um negócio que deu origem á criação de uma nova empresa, a RBA Edipresse (detida maioritariamente pela RBA), que passou a agrupar a esmagadora maioria das publicações exploradas por ambos os grupos no país vizinho, num portfolio que permite á nova empresa resultante desta fusão assumir-se como a principal editora espanhola em número de títulos, circulação e audiência, com receitas anuais estimadas em 250 milhões de euros.

Curiosamente, o início de actividade da RBA no nosso país coincide, assim, com um processo de fusão que congregou sob a mesma holding no mercado espanhol as actividades da RBA e de um dos grupos internacionais com mais anos de presença em Portugal: a Edipresse.

O grupo de origem suíça, recorde-se, tem desde 1999 uma parceria com a Impresa na exploração das revistas agrupadas sob a holding Edimpresa, detida a 50% pelo grupo de Balsemão e pela empresa helvética.

Contudo, as negociações entre RBA e Edipresse no mercado espanhol em nada deverão influir, no curto prazo, com a realidade de ambas as empresas em Portugal. Foi essa, pelo menos, a firme convicção expressa ao M&P pelos responsáveis da Impresa e da Edipresse. “O negócio feito em Espanha é um assunto á parte e não pode ser interpretado como indicador de qualquer probabilidade noutro mercado. Sentimo-nos bem em Portugal e estamos satisfeitos com os resultados da parceria que temos com a Impresa”, explicou ao M&P o managing director da editora helvética, Gregory Blatt, aquando da formalização do acordo com a RBA em Espanha, garantindo ainda que “não está nos horizontes da Edipresse sair do mercado português”, pelo que a presença do grupo em Portugal “é para manter”.

Declarações que vão ao encontro das palavras do Investor Relations da Impresa, José Freire, que explicou ao M&P não estar prevista “no futuro próximo” qualquer alteração na parceria que o grupo de Balsemão mantém há quase uma década no nosso país com a Edipresse.

Aquisições “colocam” RCS MediaGroup e Gruner + Jahr em Portugal

Outra das curiosidades que o passado recente apresentou foi a ‘entrada’ ou reforço de posição de novos grupos internacionais no nosso mercado na sequência de aquisições formalizadas fora do nosso país. Um ‘efeito colateral’ chamado Portugal acabou, assim, por ser integrado no extenso universo de mercados em que operam gigantes como a italiana RCS MediaGroup (através da aquisição, em Fevereiro deste ano, da espanhola Recoletos) e a alemã Gruner + Jahr (na sequência do negócio que em 2005 a levou a deter a maioria do capital do grupo Motorpress Estugarda).

No caso da Gruner + Jahr, a integração da Motorpress no seu leque de activos deu início a um processo de alinhamento estratégico ao nível das políticas implementadas na gestão do portfolio da Motorpress um pouco por todo o mundo. Contudo, nos mercados que afectam directamente a gestão da Motorpress em Portugal, o único resultado prático verificado até ao momento na sequência deste novo cenário foi a criação, entre a Gruner + Jahr e a Motorpress Estugarda, de uma joint venture (a GPS) para o mercado espanhol, com o objectivo de gerir todas as áreas de negócio não relacionadas com a vertente editorial das duas empresas.

Detida a 50% pela G+J Espanha e pela Motorpress Ibérica (MPI), a GPS ( abreviatura de Gestão de Publicidade e Serviços) não terá, assim, qualquer influência na gestão operacional dos portfolios editoriais dos dois grupos, que continuarão a ser detidos a 100% pelas respectivas “casa mãe”, que mantêm as suas estruturas separadas.

No caso português, de resto, como explicou ao M&P o vice-presidente e proprietário de 25% da Motorpress Lisboa, João Ferreira, a Gruner + Jahr já se encontrava presente no nosso país “através de uma quota de 50% na All Media” (através da qual são explorados no nosso país os títulos Geo, Mia e Bebé d’Hoje), sendo que a Motorpress Lisboa já estava encarregue da gestão corrente desta empresa. Na sequência da criação da GPS, João Ferreira defende que, em termos práticos, a criação desta ‘joint venture’ não alterará a estrutura das empresas no mercado português, sendo que no caso da All Media, “a pequena dimensão da empresa não justifica” que tal aconteça.

No que concerne á RCS MediaGroup, o facto de o acordo entre a holding italiana e a Recoletos só ter sido formalizado há pouco mais de um mês faz com que seja prematuro antecipar quaisquer cenários sobre a presença da empresa no nosso mercado. O negócio, recorde-se – consumado com o objectivo da RCS “desenvolver e consolidar a missão de grupo multimédia á escala europeia” -, fez transitar para mãos italianas a propriedade da subholding Economica SGPS, através da qual a Recoletos explorava no nosso país os jornais Diário Económico e Semanário Económico. Contactada pelo M&P, a administração da Económica SGPS tem invocado o facto de o processo de aquisição da Recoletos pela RCS se encontrar ainda em fase de ‘due dilligence’, para não prestar quaisquer comentários sobre o assunto, remetendo para uma fase posterior a revelação das implicações que este negócio poderá ter na gestão dos dois jornais de economia.

De qualquer forma, os casos das entradas da RCS e da Gruner + Jahr no nosso país são a evidência de que o mercado nacional de media cada vez mais se encontrará exposto á entrada de novos players internacionais, quer por aquisições directas, quer mediante aquisições indirectas, quer pelo simples abertura de delegações próprias no nosso país. E só o futuro próximo poderá confirmar quais os caminhos a trilhar pelos grupos nacionais para fazer face a este novo panorama.