Deve-se a uma agência de publicidade a ideia de criar, no mercado português, um serviço comercial de distribuição de notas de Imprensa. Estávamos na primeira metade dos anos 80. A McCann, que teve a ideia, liderava o sector (no tempo das margens boas, lembram-se?). O seu líder António Silva Gomes foi contratar o jornalista Carlos Pina para criar a Infoplan.
Todos os dias, várias vezes ao dia, as redacções recebiam uns dossiês de apresentação impecável com informações potencialmente interessantes de clientes da McCann. A qualidade do produto e as despesas e dificuldades que envolviam a sua distribuição por estafeta, num tempo sem Internet (nem, sequer, fax), provocaria uma selecção dos alvos bastante mais estreita do que a que é feita hoje em dia.
Mesmo assim, recordo o destino dado á esmagadora maioria das notas de Imprensa.
Ao criar a LPM, procurei seguir alguns passos dados pela Infoplan, corrigindo aqueles que me pareceram os seus maiores problemas. Por exemplo, optei pela autonomia empresarial de forma a valorizar a Assessoria Mediática no universo dos serviços de marketing e publicidade. Em contrapartida, fui associar-me ao então principal concorrente da McCann – a Ciesa-NCK, dando início a uma parceria que perdura, 20 anos mais tarde, com a “sucessora” Publicis, graças á visão e á persistência de Paulo de Abreu, um dos gestores portugueses com maior prestígio internacional.
Do ponto de vista técnico, fiz duas juras a mim próprio: nunca utilizar as notas de Imprensa como meio de comunicação com jornalistas bem como não fazer conferências de Imprensa e “visitas á fábrica” (naquela época as empresas que tinham notoriedade eram de base industrial e não de serviços).
O tempo veio demonstrar como eu estava certo e, ao mesmo tempo, errado. Sem notas de Imprensa, a assessoria mediática da LPM era muito mais personalizada e eficiente. A nova filosofia de trabalho ajudou a cimentar a nossa reputação e a criar uma carteira de projectos de referência. Mas, o mercado mediático foi mudando, pulverizando-se, o processo de divulgação passou a ser instantâneo, há mesmo quem lhe chame “difusão”. E eu, contra vontade, lá fui esquecendo as minhas juras.
Num tempo de Internet e correspondência electrónica, temo que, para muitos jornalistas, as notas de Imprensa (espero que não as da LPM) sejam, por vezes, vistas como mero “spam”. Por isso, embora me pareça estarmos perante mais um caso de “anúncio de morte exagerado”, devemos meter ombros á tarefa de repensar o papel das notas de Imprensa nos instrumentos de assessoria mediática.
Para isso, nada melhor do que recordar o documento considerado fundador das notas de Imprensa, escrito por Ivy Ledbetter Lee em 1906 (fez recentemente 100 anos). Ao acompanhar a sua primeira nota de Imprensa, Lee apresentou-se: “Não somos um gabinete de Imprensa secreto. O nosso trabalho é feito com transparência. O nosso objectivo é fornecer informação. Não somos uma agência de publicidade. Se pensarem que certas informações deveriam ser dirigidas ao departamento comercial, não as usem. O conteúdo que divulgamos é preciso. Elementos adicionais sobre o assunto tratado serão prestados prontamente e qualquer editor será apoiado com disponibilidade na verificação de qualquer dado”. Ora, aqui está um bom princípio.
Luís Paixão Martins
Director-Geral da LPM