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Media :: Artigos de Fundo

(Relatórios e) Contas á lupa

16 de Março de 2007 às 17:06:00, por

A divulgação dos relatórios e contas de 2006 dos grupos Impresa, Media Capital, Cofina e RTP permite traçar um retrato fiel ao estado de saúde das finanças dos principais grupo nacionais de media. O M&P apresenta-lhe o diagnóstico ás contas dos players que mais fazem mexer o mercado

41.551 milhões de euros. Foi este o montante total de lucros acumulado pelos três principais grupos de media nacionais cotados em bolsa: Impresa, Media Capital e Cofina. Um valor que representa uma variação homóloga negativa de 2,9% face aos 42.7 milhões angariados pelas três holdings no ano anterior, num comportamento de ligeira quebra que, no entanto, é influenciado pela performance do grupo de Francisco Pinto Balsemão – o único a registar uma variação homóloga negativa entre os dois anos, com a quebra de 25,9% a fazer recuar os lucros da empresa dos 22.2 milhões de euros em 2005 para os 16.4 milhões em 2006.

Apesar deste comportamento, o grupo Impresa manteve no último ano o estatuto de holding com melhores resultados no mercado português de media, ao fechar o exercício de 2006 com um resultado líquido de 16.4 milhões de euros, contra os 15.4 milhões da Media Capital e os 9.6 milhões da Cofina.

No caso da holding agora detida pela Prisa, o resultado líquido do exercício do último ano representou um crescimento de 18,3% face aos lucros de 13 milhões de euros obtidos em 2005. No que respeita á Cofina, os lucros gerados pelo grupo de Paulo Fernandes em 2006 traduzem um aumento de 28,5% face aos valores do ano anterior, cotando-se assim como a holding a apresentar a melhor performance evolutiva nos últimos dois anos entre as cotadas em bolsa.

Televisão sustenta diferenças entre grupos

Apesar deste crescimento, o resultado líquido obtido pelo grupo Cofina continua ainda distante dos patamares de lucro registados pela Impresa e pela Media Capital, numa situação justificada pela simples diferença entre… ter ou não ter uma área de negócio de televisão. Isto porque, tanto no grupo de Balsemão como no grupo detido pelos espanhóis da Prisa, a SIC e a TVI, respectivamente, continuam a constituir-se como os grandes motores do negócio destas holdings.

Para aquilatar da importância destes activos basta, de resto, observar o que as receitas geradas pela televisão representam nestas duas empresas face aos proveitos proporcionados pelas restantes áreas de negócio: na Impresa, as receitas do universo SIC situaram-se nos 164 milhões de euros, perto do dobro dos 92 milhões provenientes do conjunto das áreas de negócio de edição de jornais e revistas; na Media Capital, os proveitos operacionais da TVI situaram-se nos 171.9 milhões de euros, sensivelmente o triplo dos 57.4 milhões de receitas gerados pelo conjunto dos segmentos de rádio, publicidade exterior, internet e edição de revistas (valores que, refira-se, para além de confirmarem a importância da área de negócio de televisão nos dois grupos, comprovam ainda o facto de a TVI ter conseguido, pela primeira vez, ultrapassar o nível de proveitos gerados pela SIC).

Mas no que respeita á diferença de peso entre os diferentes segmentos de negócio das empresas de media, fazendo a comparação directa possível entre as áreas de negócio comuns que estas três holdings exploram, constata-se que, enquanto na Cofina as receitas operacionais dos segmentos de jornais e de revistas registaram em 2006 crescimentos homólogos de 0,3% e 3,3%, respectivamente, os proveitos gerados pela Impresa Jornais, pela Edimpresa e pelo segmento ‘outros’ da Media Capital (onde se integram, para além da publicação de revistas, a área de internet, os custos centrais da holding e os ajustamentos de consolidação), diminuíram 3,1%, 6,9% e 13%, respectivamente.

Cenários de evolução opostos que, de acordo com os dados constantes no relatório e contas da Cofina, têm a sua génese na liderança que o grupo ostenta tanto ao nível de média de circulação paga das suas publicações (27% de share de mercado, contra os 23% da Global Notícias, 13% da Impala e 10% da Impresa), como ao nível da captação de investimento publicitário em imprensa (20% de share de mercado, contra os 18% da Impresa, 17% da Global Notícias e 7% da Impala).

O crescimento das receitas da Cofina neste universo editorial não permite á empresa, porém, ombrear com os já referidos montantes de receitas gerados pelas áreas de negócio de televisão das ‘rivais’ Impresa e Media Capital, que acabam por desequilibrar a balança em favor destas duas holdings. Sobretudo porque, conforme comprovam os relatórios de ambos os grupos, as receitas gerada pela exploração do negócio de televisão apresentou em 2006 crescimentos de 1,2% no caso da Impresa e de 8% no da Media Capital. Ainda assim, se a Media Capital conseguiu que este aumento de receitas se traduzisse num crescimento de 7% no resultado operacional desta área de negócio, que se situou nos 44.8 milhões de euros, já o crescimento de receitas do universo SIC não evitou que o resultado da exploração deste segmento de negócio registasse uma quebra de 2,9% face aos valores de 2005, recuando para os 25.6 milhões.

Uma discrepância justificada, em grande medida, pela divergência na forma como ambos os grupos fizeram face aos crescimentos registados nos custos operacionais associados ao segmento de televisivo de cada empresa, que se situaram nos 9% na TVI e nos 3,7% no universo SIC. Na Media Capital, no entanto, este aumento nos custos acabou por ser absorvido pelos crescimentos de 5% nas receitas de publicidade e de 25% nos proveitos de merchandising, call-tv e venda de CD. Na Impresa, por seu turno, ao aumento de custos do universo SIC associou-se a quebra de 2,1% nas receitas de publicidade, numa conjugação que não conseguiu ser anulada pelo crescimentos verificados nas receitas dos canais temáticos (0,1%), do multimédia (23,4%), do GMTS (110,8%) e do merchandising (43,3%).

Dívida diminui

Outro dos dados que a divulgação dos relatórios e contas destas três empresas permite constatar é a redução registada nas dívidas líquidas de todos os grupos.

Neste domínio, e de acordo com os dados disponíveis, a Media Capital viu recuar a sua dívida dos 107.7 milhões em 2005 para os 79.7 milhões em 2006 a representar uma diminuição de 26%.

No caso da Impresa, a redução foi menos substancial, situando-se nos 2,5%, reflexo do recuo da dívida da holding de Balsemão dos 214.3 para os 208.9 milhões de euros. Uma diminuição menos significativa que poderá estar relacionada com o aumento dos custos na empresa de Balesemão, não apenas devido as investimento na aquisição dos direitos da SIC para a transmissão do Mundial de futebol e nas reestruturações do Expresso e da Blitz, mas também devido ao investimento feito pelo grupo em novas áreas de negócio com o objectivo de tornar a Impresa numa holding multimédia.

Perante o desempenho destes dois grupos, acabou por ser a Cofina a holding que apresentou o melhor desempenho percentual neste particular, com uma diminuição de 59,1% no seu endividamento, que recuou dos 51,4 milhões de euros em 2005 para os 21 milhões no final do último ano.

Receitas de publicidade crescem

O bolo total das receitas publicitárias captadas pelas três holdings de media cotadas em bolsa cresceu 1,8% entre 2005 e 2006, situando-se no último ano nos 402.4 milhões de euros. Na análise evolutiva dos três grupos, constata-se que apenas a Impresa se apresenta em quebra neste domínio, com um recuo de 1,5% face aos valores de investimento publicitário acumulados no ano anterior.

Na comparação entre as receitas geradas pelas três empresas, a Media Capital continua a deter a maior fatia de captação de investimento, com o crescimento de 4,3% face aos montantes de 2005 a elevar o total de receitas de publicidade da holding detida pela Prisa dos 171.9 para os 179.2 milhões de euros.

Com a queda de 1,5% a fazer recuar as receitas publicitárias do grupo de Balsemão para os 168 milhões de euros, destaque também para a distância a que o grupo Cofina ainda se apresenta das suas rivais: embora a holding de Paulo Fernandes tenha acumulado mais 4,6% de investimento em publicidade em 2006, o bolo publicitário da empresa situa-se ainda nos 55.1 milhões de euros. Uma diferença de valores justificada pelo facto de a Cofina não explorar a área de negócio de televisão, ao contrário das suas ‘rivais’ (ver texto principal).

Estado ganha peso nas contas da RTP

Embora tenha fechado o ano de 2006 com um resultado operacional consolidado de 16,4 milhões de euros – que ultrapassa em 15 milhões as receitas operacionais de 2005 – o exercício do último ano apresenta um resultado líquido negativo de 24,7 milhões de euros, que ainda assim constitui uma redução nos prejuízos de 31 milhões de euros em 2005 na exploração do grupo RTP que, para além da RTP1, é também proprietária de activos como o canal 2:, RTPN, RTP África, RTP Açores, RTP Madeira, RTP Internacional e as rádios concentradas na holding RDP.

Um resultado líquido negativo que, recorde-se, está relacionado com o facto de o operador público estar em pleno processo de recuperação do passivo financeiro da empresa, que em 2006 se situava nos 888,4 milhões de euros.

Os proveitos operacionais citados representam, ainda assim, um encaixe de mais seis milhões de euros ao nível de receitas face ao previsto no plano de reestruturação financeira da empresa para o último ano.

De acordo com o relatório e contas divulgado pela administração da RTP, esta evolução positiva nas contas do grupo esteve em grande parte relacionada com o aumento de 11,9% no peso das contribuições governamentais nas contas do grupo, através do expediente de compensação financeira pelo serviço público prestado pela operadora.

Os números constantes no relatório da empresa revelam que, em termos práticos, esse crescimento no último ano se consubstanciou numa compensação estatal de 224.3 milhões de euros, provenientes da taxa de contribuição audiovisual (100.3 milhões) e da indemnização compensatória (124 milhões). Ou seja, mais 24 milhões de euros que o recebido pela holding em 2005.

Neste cenário, e tendo em conta que os proveitos totais do grupo RTP se situaram nos 292.1 milhões de euros em 2006, os proveitos comerciais gerados pela operadora pública acabam por representar cerca de um quarto do bolo total de receitas: apenas 67.7 milhões de euros, mais 3,2% que os proveitos gerados em 2005.

Publicidade com descontos médios de 88%

Os relatórios e contas dos grupos que exploram os canais generalistas permite confirmar que se mantém inalterável a tendência para a prática de descontos substanciais dos três operadores aos seus preços de tabela para inserções publicitárias. Basta, para isso, fazer o cruzamento entre o montante de proveitos publicitários que TVI, SIC e RTP1 apresentam nos relatórios da Media Capital, Impresa e RTP, respectivamente, e os números de captação de investimento constantes no relatório da Mediamonitor, efectuado com base nos preços de tabela.

A comparação entre os valores destes documentos revela que os três canais generalistas praticaram em 2006 uma média de descontos na ordem dos 88,1% face aos valores constantes nos respectivos preços de tabela.

Assim, conforme se pode aferir pelo quadro, os três canais acabaram por facturar no último ano, e em média, pouco mais de 12% dos valores adiantados pelo relatório da Mediamonitor. Um cenário que é, de resto, transversal ás três operadoras, na medida em que embora apresentem volumes de facturação real distintos, os três canais acabam por apresentar um comportamento homogéneo (com um ligeiro desvio de 1% no caso da TVI) na média de descontos praticados junto de anunciantes e agências de meios.

De notar ainda que os valores reais de captação de investimento publicitário destas três operadoras em 2006 apresentam tendências divergentes ao nível da sua evolução face aos montantes de 2005: no universo SIC registou-se uma quebra de 2,1% face aos 118.3 milhões do ano anterior; na TVI verifica-se um crescimento de 5% comparativamente aos 136.2 milhões de 2005; no grupo RTP, nota-se uma variação positiva de 0,7% face aos 47.7 milhões do ano transacto.

Aumento dos custos ultrapassa crescimento dos proveitos

Se o crescimento conjunto dos proveitos operacionais das três holdings cotadas em bolsa se situou nos 1,3%, em termos percentuais esta evolução positiva foi anulada pelo aumento de 2% que também se verificou nos seus custos operacionais.

Na prática, estas evoluções resultaram no crescimento dos proveitos operacionais das três empresas para um total de 616 milhões de euros, enquanto os custos operacionais conjuntos aumentaram para os 512.9 milhões.

Analisando estes resultados de forma individual, o grupo Impresa acabou por ser o que pior performance apresentou ao longo do último ano na conjugação destes dois vectores, na medida em que foi o único a apresentar uma quebra nos proveitos operacionais – menos 0,7%, para 255.2 milhões -, e o que registou o maior crescimento nos custos operacionais – mais 3,1%, para 214.8 milhões. Uma situação á qual não será alheio o maior volume de investimentos feito pelo grupo em novas áreas de negócio, em reformulações editoriais e na aquisição de direitos de transmissões televisivas sobre eventos como o Mundial de Futebol ou o Rock in Rio.

No caso da Media Capital, o crescimento de 2,1% nos custos operacionais da holding, para 184.5 milhões, foi absorvido pelo aumento de 3,7% nos proveitos operacionais do grupo, que evoluíram positivamente para os 229 milhões.

Na Cofina, por último, os custos operacionais da empresa estabilizaram nos 113.5 milhões de euros – sensivelmente o mesmo volume de custos do ano anterior -, enquanto os proveitos gerados pela exploração dos seus activos cresceu 1,2%, para 131.3 milhões.