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Opiniao

Do futuro da rádio: a Internet e Brecht

9 de Março de 2007 às 15:30:00, por Meios & Publicidade

Não sei – alguém sabe? – se o impacto da digitalização vai realmente acabar com o negócio da rádio musical, mas – como tentei demonstrar na crónica do mês passado – há sérios riscos de que isso possa acontecer.

E não sei, sobretudo porque é certo que o paradigma da digitalização vai evoluir de uma forma imprevista.

Mas há algumas ideias que parecem claras, independentemente desse futuro muito interrogado.

A primeira é que a Internet é, muito mais do uma plataforma alternativa, a plataforma. Acredito inclusivamente que a emissão/recepção hertziana se tornará obsoleta. A Internet não só resolve muitos dos problemas da rádio convencional (o número limitado de licenças/alvarás, a propagação geográfica, a persistência da mensagem com texto e imagem) como permite abrir novos horizontes. Permite, por exemplo, pensar num meio quase tão interactivo como aquele que Brecht sonhou e permite responder áquela que parece ser a tendência mais persistente dos próximos anos: a hiper-especialização de conteúdos, que se tornará quase numa personalização.

O bom exemplo do Cotonete talvez tenha nascido cedo de mais – pelo menos em Portugal. Mas isso não é crime, pelo contrário. Precisa de mais compreensão por parte das editoras, para que a oferta musical seja válida (Carlos Marques, que foi director do sector multimédia da Media Capital, merece uma palavra pela visão estratégica e pioneira em diversos sectores).

Outro exemplo interessante: a associação entre a RFM e loja virtual de música MusicaOnline, permitindo comprar a música que está a passar, ou a música que está no top, ou a música mais pedida (consultei a página da RFM para escrever este texto e não encontrei referências á MusicaOnline, mas pode ser um problema passageiro).

Do mesmo grupo, são de aplaudir as experiências multimédia da RR.

Claro que a montante está uma coisa tão básica como a emissão através da Internet – tão básica mas, como se viu num recente estudo de Pedro Portela, só 70% das rádios estão online. Como também mostrou a Marktest há poucas semanas, a escuta da emissão radiofónica através da Internet já começa a ter valores consideráveis, pelo que não espanta que uma rádio, como a Radar, apenas com emissão em Lisboa, já apareça nas preferências dos ouvintes do Porto.

Mas há ainda muito para fazer.

A colocação de programas (da emissão convencional ou principalmente novos, próprios) na internet, como arquivo, e sobretudo o podcast são apostas que já deveriam ter saído da fase beta. O conceito de podcast (neste ou noutro formato) faz parte da rádio do futuro, mas ainda se pensa mais nas suas desvantagens do que naquilo que ele pode oferecer. Assim sendo, temos de continuar a esperar. Pode parecer que sim, mas não há muito tempo.

João Paulo Meneses

Jornalista da TSF e investigador

jpm@tsf.pt

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