O iPod foi a melhor prenda que recebi em muitos anos e se por algum azar o perdesse faria o possível para comprar outro no mesmo dia. Eu e muitos milhões em todo o mundo não dispensamos ouvir as músicas que, pelas mais variadas razões, lá colocámos, em vez de ter de ouvir as músicas que alguém decidiu que nós teríamos de ouvir.
É por isso que a rádio musical está fortemente ameaçada pelas novas tecnologias. Não sei se toda a rádio musical, mas pelo menos a rádio musical tal como a conhecemos em Portugal: a rádio de playlist, baseada nas repetições de sucessos e fortemente condicionada pela vontade da indústria musical. A nossa rádio musical, portanto.
Até á digitalização da música, gostássemos ou não, tínhamos de ouvir a rádio. Uma rádio musical incapaz de surpreender, transformada em gira-discos e, basicamente, ao serviço das principais editoras (o exemplo mais perfeito disto mesmo: um músico lança um CD com 10 ou 12 músicas, mas rádio limita-se a passar os “singles” que a sua editora vai isolando). Mas a mais acessível e ubíqua.
Havia, por exemplo, caixas de CD no carro, havia leitores de CD ou MD, mas com uma capacidade de resposta muito reduzida e uma necessidade permanente de actualização (para não termos de ouvir o mesmo).
Os leitores de mp3 (ou a música em ficheiros, de uma forma geral, que tanto pode ser lida num telemóvel como no computador) vieram acabar com a “ditadura” da rádio musical. Vou no autocarro a caminho da escola e posso ouvir a minha música, vou correr e levo o leitor digital, estou a cozinhar e troco a rádio pela minha playlist.
Para a rádio a competição é dramática: a música digital representa uma série de ganhos e nem o argumento derradeiro – a rádio é de borla – é um trunfo, como bem se sabe. A playlist de uma rádio tem 200 ou 300 temas, um gigabyte guarda quase mil; que tocam quando e sempre que queremos, escolhidas apenas por nós ou sugeridas por quem queremos, sem publicidade, cortes, conversa de treta e com a vantagem de estarem identificadas. Além do mais, com a hipótese da máquina as misturar, surpreendendo.
Um estudo recente Omnicom Media Group Portugal diz que apenas 20 por cento dos jovens entre os 15 e os 24 anos ouve regularmente rádio em Portugal. Um valor que deve merecer muita atenção. Mas que ninguém parece interessado em admitir. Muito mais em Portugal, onde a rádio musical tem valores globais de audiência na ordem dos 80 por cento (contra os 40 por cento de Espanha ou de França).
As audiências vão naturalmente diminuir, os anunciantes vão redireccionar os seus investimentos para suportes digitais e alguns projectos, dos actuais, estarão em causa por falta de viabilidade. Este caminho parece-me irreversível, sobretudo se nada for feito para o contrariar. E há coisas que devem ser feitas. Na próxima crónica falarei sobre isso.
PS – A indústria musical deixou de precisar da rádio como veículo promocional por excelência; também ela estará cada vez mais onde estão os potenciais interessados: na Internet!
João Paulo Meneses
Jornalista da TSF e investigador