“O mercado das letras é muito particular”

Por a 6 de Outubro de 2006

mario feliciano

Mário Feliciano, que criou as letras do BES, DN e Expresso, é o tipógrafo mais reconhecido em Portugal e no estrangeiro

Mário Feliciano, 37 anos, além de tipógrafo, é também o delegado local da Atypi, organização internacional dedicada á tipografia e design de tipos de letra, que realizou entre esta sexta e domingo a 50ª Conferência em Lisboa. O tipógrafo conta com letras produzidas para projectos como o Diário de Notícias, Expresso, BES, O Jogo, Passaporte Electrónico Português ou Expo 98.

Meios & Publicidade (M&P): Qual o balanço que faz destes três dias de conferência?

Mário Feliciano (MF): Acho que correu bem. É difícil para mim que estou dentro fazer o balanço da conferência. É um sempre um balanço muito pessoal, mas nesse sentido é um balanço muito positivo e de missão cumprida. Não diria que correu acima das minhas expectativas porque correu dentro daquilo que imaginava porque fui eu que pensei em muitas coisas e acompanhei o processo todo.

M&P: E comparando com as outras conferências?

MF: Em comparação com as outras há um aspecto que destaco que é a integração do local da conferência na cidade. É uma coisa difícil de conseguir e aqui isso era uma mais-valia porque as pessoas ao saírem da Faculdade de Belas Artes estavam no coração de Lisboa. Isso enriquece bastante a conferência porque as conferências passam muito também pela forma como as pessoas que vêm interagem com a cidade. Depois a própria hospitalidade dos portugueses, a comida e todos esses factores são coisas que me ajudam mas já sabia que era assim, por isso é que aceitei fazer isto, de outra maneira não aceitava. Por outro lado, uma outra coisa que destaco, e isso não tinha a consciência que iria ser assim, foi a interacção da conferência com a escola. Acho que isso foi uma coisa muito positiva tanto para os alunos como para a Atypi. Já houve conferências noutras escolas, mas por alguma razão nunca houve uma interacção tão grande. Os estudantes tiveram um empenho incrível e um papel fundamental e fulcral para que isso acontecesse.

M&P: A conferência foi muito intensa, mesmo depois de terem reduzido de três para duas apresentações em simultâneo…

MF: Era muito intensivo e mesmo assim é puxado. É muita informação, e particularmente ali, porque era um espaço pequeno, ou pelo menos aconchegado, a própria intensidade do lado social era grande e isso também cansa.

M&P: A conferência tinha como tema Typographical Journeys. Foi uma viagem pela tipografia?

MF: O tema da conferência era Typographical Journeys, que traduzido para português seria viagens tipográficas. Embora não goste muito da tradução, fui eu que sugeri o tema, mas quando o digo em inglês ele corresponde a uma coisa, quando o traduzo para português perde o sentido. O Typographical Journeys não é no sentido de viagens, no sentido de divagar, mas é no sentido de migrações. Se tivesse de traduzir para português eram mais migrações tipográficas do que viagens, tem a ver com as mudanças das tendências de um lado para o outro em termos de tipografia e da história da tipografia.

M&P: Que temas foram abordados dentro da tipografia?

MF: Foram abordadas quatro áreas dentro desse tema mais genérico. O desenho de jornais, uma coisa a que não só tenho estado particularmente ligado, como é uma coisa que tem vindo a ganhar bastante relevância no panorama do design como área específica, graças á própria crise dos meios. Depois havia também uma série de conferências dedicadas á educação, ao aspecto do ensino da tipografia, uma outra que tinha a ver com a tipografia relacionada com os meios de transporte, metros, aeroportos e sistemas de informação inerentes a esses espaços e ainda uma outra sobre o negócio, o type business.

M&P: Na sua opinião qual o tema que mais motivou os participantes?

MF: De todos os temas aquele que talvez suscite mais atenção, até porque é o mais misterioso, embora as pessoas não tenham muita noção disso, é o dos jornais. Os jornais são, de facto, uma categoria á parte dentro do design gráfico e acho que nesse sentido não há muita informação sobre o que é. É muito recente, mas o design de jornais tem-se tornado uma coisa cuidada e elaborada. Os jornais arranjaram maneira de se renovarem e de poderem atingir mais pessoas.

M&P: Em relação aos participantes e aos oradores, que feedback teve da conferência?

MF: De uma forma geral as pessoas gostaram e muitos ficaram surpreendidos pela positiva. Lisboa é uma cidade muito agradável de visitar, muito tridimensional, as pessoas estão sempre a ver qualquer coisa de cima ou de baixo. A maioria das cidades europeias, não todas, são planas e as pessoas têm uma visão muito plana das coisas e penso que essa constante mudança de perspectiva é uma coisa que acaba por alimentar muito as pessoas sem que elas se dêem conta. A comida, as pessoas, os locais, as lojas, o misto de antigo e moderno, são coisas que as pessoas gostaram muito. Isso atenua um bocado a falta de condições sofisticadas já que a faculdade não é um edifício sofisticado.

M&P: Na conferência de imprensa de apresentação dos encontros, alguns dos oradores revelaram que já tinham tirado muitas fotos a várias “letras” da cidade. Lisboa pode servir de inspiração?

MF: Não diria tanto de inspiração, mas mais como estímulo no sentido mais vasto porque de facto é uma cidade muito estimulante em termos de letras porque ainda tem muita coisa conservada que noutros sítios não é possível encontrar. E coisas que nós nem nos apercebemos e não nos damos conta dessa riqueza. Como a maioria das pessoas estavam hospedadas na zona da Baixa e da Avenida da Liberdade, o próprio percurso a pé era feito naquela zona. Isso foi tudo pensado porque sabia que era positivo. Por exemplo, fazer uma conferência destas na Gulbenkian, o espaço seria muito agradável mas a vivência da cidade era muito empobrecida.

M&P: A tipografia não é uma área de que se fale muito. Como é que está este mercado em Portugal?

MF: Nunca houve propriamente uma tradição de tipografia em Portugal porque, embora hoje em dia se fale de design tipográfico, a tipografia quando teve início não se podia considerar design. Era mais uma forma de artesanato. Foi, de facto, uma das grandes invenções que permitiu ás pessoas reterem informação verbal escrita, mas nos últimos vinte anos houve uma grande mudança em termos dos meios necessários para a produção de tipos de letra. Isso permitiu que, com um computador, se produzissem tipos de letra com qualidade. Em relação ao mercado propriamente dito, já sei há algum tempo que as letras são uma coisa importante e não me estranha que as pessoas tenham agora percebido isso. Mais tarde ou mais cedo isso iria acontecer, e quando isso acontece as pessoas passam a valorizar um produto que antes não valorizavam e percebem que é uma mais-valia e que transcende o âmbito do design gráfico da forma como o tendemos a olhar. É uma coisa muito mais transversal e que premeia outras áreas. Nesse sentido há um mercado, isto corresponde de facto a um mercado, mas o mercado das letras é uma coisa muito particular, é difícil. Se eu disser que não ganho dinheiro estou a mentir, mas o meu trabalho é de muita qualidade, é um trabalho que a nível mundial é bastante reconhecido. Para mim há mercado, agora para os meus colegas não sei se há.

M&P: Mas há muita gente a trabalhar nesta área em Portugal?

MF: Há algumas pessoas, são para aí dez.

M&P: São as suficientes, são demais?

MF: Não são poucas nem demais. É aquilo que temos. Na Holanda, por exemplo, há muitos, há centenas eu diria, e é um país pequeno, na Suíça também. Se calhar não há mercado para cinco Mários Felicianos, no sentido em que não há de certeza absoluta dez projectos da dimensão do Expresso ou do BES por ano cá em Portugal. Neste congresso diria que estavam 80% dos profissionais desta área do mundo. É uma coisa onde as pessoas se conhecem todas. Não é uma coisa onde aparecem pessoas do dia para a noite ou do nada.

M&P: E estavam na conferência mais tipógrafos portugueses?

MF: Estavam outros colegas que desenham e alguns já são profissionais. Não são é profissionais a tempo inteiro. É esta a diferença. Demorei 10 a 12 anos até correr o risco de dar o passo de fazer só isto porque não é fácil, é preciso algum risco.

M&P: E como é ser o primeiro tipógrafo em Portugal?

MF: Já é muito natural, já participo nestas conferências há dez anos, integrei-me na profissão a nível internacional desde o início. Por um lado foi mais complicado ao início mas, por outro lado, é uma coisa que ninguém me tira, ser o primeiro. Mas, independente de ser o primeiro, houve um grande investimento da minha parte e um grande risco que as outras pessoas não correram. Gastei muito dinheiro a ir a conferências lá fora, em livros, e passei muitos fins-de-semana a trabalhar.

M&P: Isso porque não havia nada nem ninguém em Portugal?

MF: Não tinha outra hipótese, tinha que ir lá para fora aprender com os profissionais. E muito cedo conheci as pessoas de topo nesta área. Era uma pessoa um bocado acanhada com o meu trabalho, mas já mudei um pouco isso, deixei que isso interferisse na promoção do meu trabalho. Tenho consciência de que o trabalho que faço é de qualidade e promovo-o. E o reconhecimento a nível internacional dá uma grande trabalheira mas é um reconhecimento na comunidade da profissão que é muito importante, tenho consciência disso.

M&P: Recentemente trabalhou para projectos como o Expresso e o Diário de Notícias….

MF: Em Portugal trabalhei com o Diário de Notícias, Expresso, Banco Espírito Santo, O Jogo, o Passaporte Electrónico Português, a Expo, o Metro, embora o tipo de letra tenha sido encomendado por Inglaterra. A última campanha da PT com os Gato Fedorento tem letras minhas. Portanto, é difícil movimentar-me na cidade sem me confrontar com o meu trabalho.

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