Para onde vais, jornalismo?

Por a 8 de Fevereiro de 2002

“Quem tem ética, passa fome”. Tenho a certeza de que não foi Teresa Guilherme a dizer isto — até porque sei, das suas atitudes, algumas que ela não sabe que eu sei. Mas dá jeito, para princípio de conversa, esta ideia. Porque só a sua interiorização pode justificar que haja tantos profissionais a deixar-se empurrar para estranhos caminhos e obscuros processos que em nada dignificam o exercício de uma das mais velhas profissões do mundo. E não se veja aqui ironia.

Eu explico: ao longo da minha curta experiência na TV Guia tenho defendido a ideia de que não há jornalismos menores. Há o bom e o mau, mas aí entra sempre uma dose de subjectividade. Mas há o honesto e aquele que tem como princípio “moral” o “salve-se quem puder”. Há aquele em que se procura confirmar notícias e o outro, em que conversas de corredor ou oportunas “sopradelas” ganham força de lei informativa.

Há, no limite, a opinião que se assume e se defende, assinando-a e dando-lhe uma cara real, alguém a quem “pedir contas” se for caso disso. E há, do outro lado da “barreira”, os cronistas sem rosto, os cobardes que inventam pseudónimos mais chiques ou mais banais para poderem despejar o saco da “fofoca” sem perderem a “camuflagem”.

Há pior: constatei, com alguma surpresa, que é prática corrente, talvez por força de um mediatismo mal digerido por todas as partes, pensar-se em “recompensa” para trabalhos que, assim, perdem parte da verdade jornalística.

Viagens, enxovais e outras benesses, com os mais variados contornos, transformaram-se em moeda de troca e em prática habitual de determinadas publicações (é verdade que sei quais são e estou disposto a citá-las perante os interlocutores certos, se ainda algum “poder” se dispuser a intervir nesta matéria), para não dizer de certos grupos de comunicação social.

Numa altura em que todos — os que podem e os que não deviam… — falam em “concorrência desleal” talvez valha a pena pensar nos vários formatos que ela assume.

É isto o pior do jornalismo que se pratica em Portugal? Claro que não. Mais grave é a lógica de grupos que sacrifica a isenção e o equilíbrio, mais dramática é a desonestidade intelectual que grassa, até em jornais de referência. Mas são também dados e pistas que têm um enquadramento transparente — a minha profunda convicção de que só os que têm ética é que sobreviverão, e que aqueles que cedem por sistema acabarão devorados pelos seus semelhantes, os que vêm a seguir e que se mostram mais úteis a quem tem do jornalismo uma estrita visão numérica.

Está na hora de repensar muito do que fazemos e, sobretudo, dos métodos a que recorremos — enquanto “classe” ou por causa da falta de classe — para o fazer.

Por mim, apesar dos ventos adversos, ainda acredito no Pai Natal.

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