Porque acabaram os líderes

Por a 25 de Janeiro de 2002

No mundo de hoje já não há líderes. Porquê? A resposta não é fácil e julgo mesmo que não existe resposta. A forma mais fácil de abordar esta temática será a simplista: os media acabaram com os líderes.

Quando no pós-guerra surgem os quatro líderes vitoriosos (W. Churchill, Roosevelt, de Gaulle e J. Staline) estamos na consagração de pequenos deuses transformados em heróis e homens de Estado.

Aliás, essa imagem de homens de Estado atinge também os países do Sul da Europa, como foram os casos de Mussolini na Itália, do Generalíssimo Franco em Espanha e de Oliveira Salazar em Portugal.

A imagem de líder associa-se também á de um regime autoritário em que tudo depende de apenas um único homem. O desaparecimento desse líder é visto como uma catástrofe, ou o fim da História.

A ideia de líder percorre todo o imaginário político e filosófico do século XX.

Nos anos 60, Fidel Castro (o último dos dinossauros), Che Guevara (transformado pela Cuba revolucionária em santo de altar), Kennedy ou Salvador Allende são vistos como homens á parte, iluminados e portadores de mensagens capazes de mudar radicalmente a vida dos povos.

É agora, no início do novo século, que cada vez mais se questiona onde estão os líderes de hoje? Será que acabaram?

Julgo que a civilização mediática acabou por resolver o último dos tabus e revelar, afinal, que os homens que nos governam são iguais ao comum dos mortais. Hoje as pessoas conhecem os líderes que as governam. Entram por nossa casa dentro a toda a hora, têm hesitações quando falam, erram e, afinal, são iguais a nós.

Obviamente que nos anos 40 ou 50 os líderes estavam mais resguarda-dos dos jornalistas e não havia televisões. Por isso era muito mais fácil alimentar uma certa auréola divina que legitimava os seus comportamentos, o modo como governavam e as condutas que assumiam publicamente.

Naturalmente que os homens de hoje não são diferentes dos do passado recente, só que hoje a mediatização colocou os líderes mais perto dos governados e, com as imagens em directo, deixou também de haver espaço para protagonistas românticos que com uma boina preta mobilizavam multidões.

Hoje a nossa imagem está sempre em directo. Todos nos conhecemos e vivemos numa aldeia global.

Quando o mundo era maior, havia mais espaço e tempo para líderes, mártires e revoluções. Era o tempo da imprensa escrita e das vozes na rádio. Eram vozes que davam para sonhar construir mitos e alimentar os amanhãs que cantam.

A civilização mediática encarregou-se de remeter definitivamente para a memória da História uma certa forma romântica de fazer política, de sonhar com o homem novo e criar no nosso imaginário heróis lendários.

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