Arte e Publicidade

Por a 6 de Abril de 2001

Nestes dias de alguma contenção económica, para usar um termo brando, surgem sempre algumas frases feitas típicas de épocas como esta: “Estamos todos nisto por dinheiro”, “Quem pensa que publicidade é arte está enganado”, “O tipo tem a mania que é artista”, etc…

Todos sabemos que existe uma recessão económica, que o desinvestimento publicitário é uma realidade e que, nestas alturas, instala-se o pânico e os contabilistas tentam de novo tomar as rédeas do poder. Sempre foi assim e toda a gente se lembra de que só existiu uma época chamada Renascimento porque houve um período de bem-estar económico que a provocou.

Parece-me natural que, nos períodos de maior desafogo económico, os clientes estejam mais abertos á inovação e a apostar em novas formas; quase poderíamos dizer que, nessas alturas, estão abertos á “arte da publicidade”. Sorte a nossa!

Quando não há vacas gordas e passa a haver só vacas loucas, começa a roda viva dos orçamentos passados a pente fino, da procura do melhor preço a todo o custo, não se pode falar de qualidade e muito menos de arte. Então, já sabemos que não podemos dar ideias muito arriscadas nesta época porque os clientes vão logo buscar os alhos e o crucifixo.

Então e nós, o que fazemos? Somos só artistas nos primeiros momentos e transformamo-nos em merceeiros nos outros?

Na minha opinião, é aqui que a porca torce o rabo; quase todos nós fomos para a música, o som, a imagem e para a comunicação por amor e por vocação. Abraçámos a publicidade como uma arte, vibrámos e ainda vibramos perante uma ideia genial, seja ela um filme, uma banda sonora ou um outdoor! Queremos sempre ir mais longe e fazer melhor. É nos períodos de ressaca económica que devemos ter este sentido ainda mais reforçado, porque há muito mais coisas em jogo.

Perante a oferta hoje existente no mercado (não sou dos que se queixam de haver muitos estúdios de som, até acho isso bom), há espaço para tudo e para todos. Acho que a postura certa de qualquer empresa que presta serviços é ter consciência do serviço que presta e nunca o deixar abandalhar. As empresas que privilegiam o baixo custo – baixo preço têm toda a razão de existir e muitas exercem a sua actividade com dignidade. Do mesmo modo, as que se apetrecham para competir em termos qualitativos, apostando na criatividade, têm de manter a sua postura em todos os momentos.

Como em tudo na vida, o mais importante são os princípios e a firmeza com que os defendemos. Sobretudo em época de vacas loucas.

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