A propósito de Marketing Político

Por a 12 de Abril de 2001

A comunicação de cariz político por parte dos partidos que aspiram ao exercício do poder e dos candidatos a lugares públicos determinados por eleição no quadro dos regimes que fazem recurso ao voto dos cidadãos é hoje colocada no plano do chamado marketing político, que, aliás, na prática, de um modo geral, se contrai nas actividades do marketing eleitoral.

Não foi necessário nenhuma particular subtileza de análise servida por qualquer atitude construidamente cínica para que certos políticos e variados conselheiros, de diferentes formações e sensibilidades, sentissem que se podia comunicar com os respectivos eleitorados como as companhias comunicavam com os seus mercados-alvo acerca dos seus produtos e serviços.

Os cidadãos seriam, assim, persuadidos a votar em personalidades construídas por técnicos de Relações Públicas, consultores de imagem e publicitários que, a partir de matérias-primas mais ou menos interessantes, estudariam, minuciosamente, o posicionamento de cada candidato, as diferenças individualizantes, os seus atributos positivos e negativos, as ameaças e oportunidades da sua candidatura e o mais que fosse necessário para o seu êxito.

Dos políticos se construiriam imagens mais ou menos adequadas ás necessidades do mercado. Bom político, isto é, bom produto — ou melhor dizendo, bem apresentado – , de acordo com as expectativas dos destinatários da sua mensagem, bons resultados, quer dizer, votantes em número suficiente ou acima do previsto.

Desde 1936, aquando da primeira campanha considerada de acordo com as premissas do marketing político e que fez eleger Franklin Roosevelt como Presidente dos E.U.A., se tenta, cada vez em mais países, tornar o lançamento (ou relançamento) de um político, de uma força partidária ou de qualquer organismo que se submete a um escrutínio, semelhante ao de um produto ou serviço.

Evidentemente que nem todos os que são nomeados conselheiros ou autores de campanhas de comunicação de âmbito social e político correspondem ás exigências necessárias, para além do talento bastante: forte preparação nas matérias da sociologia e psicologia social, a cultura e capacidade suficientes para realizar verdadeiros diagnósticos sócio-políticos e compreender a personalidade e carácter dos candidatos. E nem todos percebem que é preciso fazer coincidir o estilo de uma campanha com o estilo de um candidato e encontrar os valores ajustados á candidatura nas medidas fundamentais do impacto, da afectividade e da intensidade.

Felizmente, a vida política, no plano das eleições, é mais complexa do que pensam aqueles — sempre os mesmos, nas mesmas circunstâncias – que a querem reduzir ás sondagens (há casos importantes neste particular, a comprovar que mesmo certos eleitorados estabilizados resistem aos condicionamentos das certezas pré-anunciadas), aqueles que lhe encontram como finalidade os apelos demagógicos aos temores e ás ignorâncias (veja-se esse monumento de estupidez que foi o apelo do candidato dos não socialistas) aqueles que julgam que é mais vantajoso sublinhar a fraqueza que encontram nos outros do que falar das suas próprias forças ou propostas (veja-se essa pateta demonstração de não ter nada para dizer de si mesmo que se corporizou no cartaz da “rosa murcha”), aqueles que acham que alguém encontra significado no que não tem nenhum (“esquerda com rosto”), aqueles cujo auto-convencimento quer convencer os outros que levar ao esgotamento a “originalidade” da plataforma da frase francesa ” le coeur et la raison” é panaceia universal e eternizável.

Porque a Política não merece o entendimento redutor e insultuoso que parece ser, agora mais do que nunca, de bom tom, por parte de todos os que dela se servem em vez de através dela servirem, porque a Política se destina ao progresso das comunidades de cidadãos, é preciso que os agentes do marketing político, cuja importância aumenta na proporção do aumento da complexidade da informação nas nossas sociedades, compreenda a sua natureza e o seu papel.

Quero saber e sei que um ser humano não é um produto comercial, não é um equipamento de som, mesmo que seja o amplificador não só da própria voz mas de outras e (não) variadas vozes. O marketing político é um estudo de homens acerca de homens para induzir comportamentos de homens. E quem o faz precisa de estar cõnscio dos valores que transmite e neles acreditar.

Porque não é, meramente, o “técnico” de comunicação a conceber e transmitir uma mensagem que permite a uma coisa vender-se; é o cidadão a dar voz a modos de entender a vida em comunidade, que aceita ou recusa nesse mesmo estatuto.

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