Um novo Milénio, o mesmo papel

Por a 22 de Dezembro de 2000

Já com os mais pequenos dias do ano a imprensa em Portugal assume o seu papel. Foi apresentado por estes dias o estudo do Obercom sobre a Comunicação Social em Portugal que anuncia tendências de grande interesse para a imprensa. Para além de representar uma aposta ganha na possibilidade de dispor de estudos independentes de qualidade sobre os jornais em Portugal, este estudo do Obercom mostra também que a sociedade portuguesa não estacionou numa teledependência que muitos vaticinaram, quer para os investimentos publicitários quer para a diversificação temática.

Este meu texto é quase um balanço de um ano que no sector da imprensa foi rico em sobressaltos e promessas.

Na verdade, as negociações do porte-pago quase se saldaram por uma incompreensão por parte do Governo de que o controlo da utilização dos apoios do Estado e o castigo dos que abusam dos benefícios dos dinheiros públicos não são a maneira mais adequada nem mais responsável de reestruturar um sistema de apoio, cheio de vícios e alguns maus usos, que as Associações foram as primeiras a reclamar a reforma.

Estas negociações permitiram que as Associações representativas do sector da imprensa preparassem uma base sólida de definição do carácter empresarial e profissional da edição de publicações periódicas, a que deve corresponder um inequívoco reconhecimento por parte das entidades públicas de papel de relevo para a sociedade e para a cultura portuguesa desempenhado pela imprensa.

Por outro lado, o mesmo Governo que só nos últimos dias do ano deixou de mostrar uma insensibilidade empresarial no caso do porte-pago, ao conceder algum tempo, ainda que pouco, sem qualquer penalização para adaptação das empresas e compreensão dos novos critérios, que, sublinhe-se, foram preparados em conjunto pelas Associações, foi capaz de inovar e criar um novo sistema de incentivos á Comunicação Social para ajudar as empresas a enfrentar novos desafios tecnológicos e de desenvolvimento.

É neste aparente paradoxo que se desenrolou o ano que estamos a terminar.

Também na área dos direitos de autor e da ética se assistiu a evoluções de sentido contrário, com uma atitude avestruz no primeiro caso e uma assunção da importância dos valores e da sua hierarquização no segundo caso, de que um trabalho este ano realizado pela AIND – Associação de Portuguesa de Imprensa é certamente o primeiro passo. O Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, afirmou mesmo á Direcção da AIND – Associação Portuguesa de Imprensa que uma iniciativa na área da ética dos comunicadores poderia ter ecos para além da fronteira portuguesa, em todo o espaço da União.

Finalmente, vieram melhores notícias para a imprensa, mostrando que quem semeia sempre alcança.

O estudo do Obercom agora apresentado mostrou a acertividade das iniciativas que a AIND – Associação Portuguesa de Imprensa lançou nos últimos cinco anos para põr em relevo a importância do papel multiplicador da imprensa e a necessidade de estudos sobre a real projecção e lugar da imprensa regional e local.

Dos primeiros trabalhos, inovadores e largamente difundidos junto das Agências de Publicidade e dos Anunciantes, beneficiaram os suportes escritos de maior distribuição e difusão, começando a colocar Portugal na normalidade do padrão da repartição do investimento publicitário na Europa, ao termos conseguido, pela primeira vez, ultrapassar a televisão.

E a tendência manter-se-á.

Dos segundos estudos virão a beneficiar as empresas da imprensa regional e local e o índice de literacia dos portugueses em geral, pois criamos as condições para o reconhecimento deste sector da imprensa tanto ao nível da leitura de jornais — e que a breve espaço nos retirará da então incómoda posição de pequenos leitores de jornais (diários, bem sei…) que ocupamos na União — como ao nível do impacto do investimento publicitário, o que atrairá muitas empresas de âmbito local e regional para investirem no veículo de grande proximidade e influência dos consumidores.

E já que falamos na língua em que nos entendemos, só deixo para o fim, porque o ridículo não precisa de mais exposição, a referência á senha nacionalista do Instituto do Consumidor que, em 2000, decidiu entrar no milénio — ou seria no século… — com uma desabrida fiscalização da publicidade em língua estrangeira, esquecendo-se de que “small is beautiful”*, mesmo em Português.

Chegamos mesmo ao fim do ano 2000.

Para toda uma geração é o verdadeiro feito, de sonho e esperança. Mas chega também o tempo de põr os pés no chão e ver que há muito ainda para fazer ao nível associativo e nível de cooperação e troca de informação entre as empresas deste sector.

Em 2001, a AIND – Associação Portuguesa de Imprensa completa o seu 40º aniversário.

Para além de todo o trabalho que as questões que abordei prenunciam, faremos, em Abril, um Congresso em Newark (EUA) porque não esquecemos que há uma outra imprensa portuguesa no Mundo e porque queremos que as comunidades portuguesas possam exprimir os seus interesses e expectativas quanto á imprensa e ao seu lugar na afectividade e na cultura portuguesa.

Neste próximo ano recomeçará a funcionar o Conselho Consultivo da Associação e lançaremos a base para uma plataforma de entendimento continuado com a APAP e com APAM de que a APCT, a CAEM e o ICAP são os melhores prenúncios, ao mesmo tempo que teremos de fazer uma reflexão sobre a utilidade da Confederação de Meios.

E, se como mostram as estatísticas, a quantidade de alunos nos cursos superiores da área da Comunicação deixou de aumentar, a qualidade desta área de ensino e da da formação em geral dos comunicadores — de que o Cenjor continua a ser um expoente, desta vez da cooperação com o Sindicato dos Jornalistas e a administração pública — será certamente a garantia de que os nascentes jornais electrónicos, que nos orgulhamos de representar também, serão suportes, como propõs Fernando Pessoa, que se podem estranhar mas que se vão entranhando, a pouco e pouco, nesta sociedade do terceiro milénio que vamos começar a viver.

A small country with a beautiful people (slogan de uma campanha do Turismo Português, algures nos anos sessenta).

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