O Quarto Poder(osíssimo)

Por a 20 de Outubro de 2000

Já lá vai o tempo em que se lançavam jornais fruto de projectos de pessoas ligadas á vida intelectual e política e que materializavam na escrita a missão de põr em causa as figuras políticas no poder ou simplesmente nasciam para defender os interesses de uma classe mais abastada. Foi o caso dos jornais “O Tempo”, “O Independente” (que deixou de ter a chama que o mantinha aceso no tempo do governo de Cavaco Silva) e “Semanário”, no qual ainda se mantém um pouco desse espírito. Aliás, é isso que ainda o faz viver e estar acordado, pelo menos durante mais cinco semanas. E ainda existe porque há pessoas que acreditam que o jornalismo tem uma missão, a tal missão como era antigamente vista e que ainda é pelas pessoas que acabam os cursos de Comunicação Social.

Desde o lançamento desses jornais e dos mais recentes, que foram simplesmente projectos que tinham por objectivo a viabilidade financeira, não passou tanto tempo como isso. As pessoas é que se adaptaram rapidamente a uma nova conjuntura económica que se foi construindo numa década e que, apesar de tudo, não inverteu os valores. Está certo, a maneira de fazer jornalismo mudou. Os leitores também se adaptaram a uma nova forma de ler as notícias, passaram a preferir outro tipo de leituras, o que é fruto de uma concorrência saudável e que só pode beneficiar ambos os lados. Entretanto, o que se passa nestes grande grupos que detêm os vários sectores da Imprensa parece uma “dança com lobos”. De tal maneira que já é quase pré-histórico falar em guerra de audiências, porque estas são um facto essencial.

Procuram-se nichos de mercado e investe-se em publicações até agora impensáveis, mas que dão lucro. Mas também se fecha sem qualquer problema um título que não dá dinheiro. A missão é outra, a paixão que faz encher as páginas dos jornais é resultado da pressa com que todos querem viver. Isto não quer dizer que já não há pessoas com ideais. Elas existem. E continuarão a existir, naturalmente. Por outro lado, há os desiludidos, aqueles que já não acreditam no jornalismo e que acham que tudo isto se tornou um negócio. Não deixam de ter razão. Também é verdade. Mas é um facto que da situação se pode tirar partido para criar e acreditar que é possível continuar a ser jornalista idealista. O mercado está cheio de oportunidades onde se pode trabalhar com gosto e não cristalizar, como acontecia antigamente. Sim, porque antes também havia coisas más. Os idealistas nunca desistem nem vão deixar de estar presentes nos projectos em que acreditam. É possível continuar a ser o Quarto Poder, agora então poderosíssimo.

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