Ser o Número 1

Por a 22 de Setembro de 2000

“Somos o primeiro” era um slogan que a RTP 1 utilizava há mais ou

menos sete anos. Passava com bastante frequência e sobressaiu pelo

ritmo das imagens e da música. Mais do que bem conseguido, porque

toda a gente sabia do que se tratava, marcou uma época em que

começou a disputa entre televisões Estado/privadas, não só porque

jogava com o facto de ser a televisão número 1 do Estado, mas

porque, ao mesmo tempo, a mensagem arriscava a dizer que era o canal

que se posicionava em primeiro lugar.

Mas entre a vontade, o dizer e o ser número 1, há na realidade uma

distância que até há pouco tempo tinha contornos mais definidos.

Hoje, os números podem ter as mais variadas leituras, isto é, podem

ser manipulados de forma a que todos se afirmem número 1 em qualquer

coisa. Ou são líderes de mercado em algum sector, ou número 1 em

serviço, ou ainda inovadores e, portanto, de alguma forma sempre em

primeiro lugar. A expressão número 1, líder de mercado, começou a

fazer parte e a ser prática corrente na forma de utilizar a

publicidade. Hoje, ninguém tem pruridos em dizer que é número 1, que

a sua empresa é melhor neste ou naquele aspecto, tudo fruto das

estratégias de comunicação e marketing que as regras assim ditaram.

Se funciona ou não, se é verdade ou não, o ue é certo é que as

pessoas começam a acreditar que há muitos números 1. E como todos

são números 1 em qualquer coisa, é preciso descobrir em quê.

É assim que se fazem diferentes leituras de forma a manipular as

audiências de televisão. É desta forma que se pode enganar as

pessoas, com dados que, embora correctos, deturpam, de uma maneira

geral, o que está envolvido num todo. O que é preciso é acreditar

que se é número 1 em qualquer coisa, coisa que, aliás, já faz moda

em Portugal. É simplesmente uma questão de convicção. Um país que

até há muito, muito pouco tempo tinha vergonha de afirmar e mostrar

as suas qualidades — antes pelo contrário, fazia gala em falar mal

de si próprio —, passou agora a acompanhar o resto da Europa e dos

Estados Unidos (esses, então, os maiores em tudo) numa conquista de

mercados e de público que quer ultrapassar as fronteiras e que,

afinal de contas, faz parte da natureza de ser português. Já Luís de

Camões dizia, no Canto Primeiro de “Os Lusíadas”: «Daqueles Reis que

foram dilatando/A Fé, o Império, e as terras viciosas (…) Cantando

espalharei por toda a parte,/Se a tanto me ajudar o engenho e a

arte.»

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