O novo Independente

Por a 25 de Agosto de 2000

Ao contrário do que os analistas políticos pensam, eu sempre achei que o jornal ” O Independente” foi o maior aliado dos governos do PSD. A orientação editorial do jornal punha na agenda da opinião publica questões que, na sua maioria, tinham solução para o primeiro-ministro Cavaco Silva. De um modo geral, não eram as questões de fundo que eram postas em causa, mas sim as questões de forma. Não questões de orientação política ou económica, mas sim questões operacionais. Mesmo as mais dramáticas. Por esta razão, e mesmo que para isso fosse necessário fazer uma remodelação governamental ou destituir um eventual ministro, o líder do PSD conseguia dar sempre a volta ao assunto. Pelo menos, o povo achava que sim. As capas de “O Independente” marcavam a agenda política do governo. Se a questão fosse uma manta da business class da TAP roubada por um ministro, o problema resolvia-se com mais um processo nos tribunais e um esclarecimento chocado do visado. Se a questão fosse mais grave do que isso, a história da época era um confronto sem tréguas entre o ministro e o jornal. Foram tempos bem divertidos. Todavia, e contrariamente ao que todos pensam, eu julgo que o jornal teve um contributo importante para a aceleração da mediocridade do discurso político português. Foi tudo bastante fácil para o PSD. É certo que, á época, o jornal foi, inequivocamente arrojado. Sério, q.b., tinha um discurso contudo apelativo, destemido e mesmo revolucionário ( se bem que os próprios não se considerassem como tal). Era uma publicação feita com bom gosto, com jornalistas motivados, com temas de interesse e mesmo assim, independente. Marcou toda uma geração de pessoas e de jornalistas e obrigou a concorrência a reagir em conformidade. A imprensa portuguesa de hoje deve muito ao “O Independente”. A questão é a seguinte: Será que faz sentido, mais de dez anos passados, relançar um jornal com os mesmos critérios? Será que ainda há um público para “O Independente”. Eu, sinceramente, julgo que sim, todavia julgo que desta vez “O Independente” tem que ir mais além. O público já não se contenta só com um apanhado de notícias “brilhantes” dentro de um pacote de opiniões arrojadas. O público português tem muito mais jornais e revistas para ler e canais para ver. Os leitores de “O Independente” de então estão de um modo geral mais velhos e querem saber muito em pouco tempo. Os leitores mais novos já não bebem gin-tónico. Aliás, já não bebem sequer. Têm um governo socialista e minoritário. O Paulo Portas agora é líder do PP e existe um Bloco de Esquerda. Por isso, e mesmo julgando que seria muito bom ter um jornal “amigo” como “O Independente”, julgo que, desta vez, é obrigatório ir um bocadinho mais longe. E, já agora, esquecer o infeliz ministro Fernando Gomes, sofisticando simultaneamente o discurso. Só assim será possível cativar a audiência de então.

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