Das imagens morais

Por a 28 de Julho de 2000

A redacção teve uma ideia para a questão com a qual queriamos inaugurar as sondagens do site agora remodelado – já agora, vejam, porque não só tem as sondagens como os links e um serviço de clipping com as principais notícias da área. A questão é qualquer coisa como “associaria a sua marca a um programa como o Big Brother?”. Confesso que quando me informaram desta ideia, achei um bocadinho despropositado. A meu ver e á partida, a questão nem se punha. É claro que sim, depende da audiência e do target do programa. Não satisfeitos, insistiram. Porque houve muitos anunciantes que não investiram no “Ratinho” porque não era politicamente correcto. E eu lembrei-me de me terem contado que houve um anunciante que cancelou o patrocínio de um programa de televisão porque achava que a apresentadora tinha um “ar ordinário”. De facto, a redacção tinha razão. Há sempre alguns que não gerem os seus investimentos só com base nas audiências. A imagem também conta. E, ao que parece, a moral também. Embora eu tenha a certeza de que a maioria dos espectadores destes novos shows-voyeurs não faça a mínima ideia de onde é que vem o nome “Big Brother”, nem das especulações de Orwell sobre o futuro deste tipo de sociedade, o que é certo é que os que sabem poderão ficar incomodados com o assunto. Nesta perspectiva – salvaguardando a ficção científica e a propaganda anti-comunista que contextualiza o livro em questão -, compreendo quem hesite em apostar neste espectáculo. Todavia, e mesmo assim, hesitaria muito em não investir por questões morais, que são, por natureza, pessoais, num programa deste tipo. Não me parece correcto que um profissional não invista num determinado tipo de meio ou de programa com base em argumentos morais. Não é admissível. Já com base em argumentos de imagem, aceito. Percebo perfeitamente que uma empresa não queira investir num programa cujo apresentador é um boi, cheio de gente miserável e de histórias sinistras. Compreendo que o que a marca poderá ganhar em notoriedade, perderá em imagem. Todavia, isto seria num caso extremo. E deverá ser por esta razão que os produtores têm algum cuidado na escolha dos participantes deste tipo de programa. Mesmo sendo difícil, a ideia não deve ser constituir a presente “família almodovariana”, com pessoas a saltar pela janela e facas a voar pela cozinha. Deverá ser observar um convívio politicamente correcto. Com uns a lavar a escada, enquanto os outros fazem o jantar. Mas, desculpem lá, tentem acompanhar o meu confuso raciocínio. Será possível? E qual é a piada disso? Não sei. Vejamos o resultado das sondagens. A nossa e a da audimetria.

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