Muita tese, alguma anti-tese e pouca síntese

Por a 16 de Junho de 2000

O V Congresso de Jornalismo em Língua Portuguesa pautou-se por questões polémicas. Estas, todavia, não foram suficientes para gerar a dinâmica nos auditórios

O V Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa, que decorreu a par do Congresso da AIND/AID de Imprensa Portuguesa, no Recife, entre os dia 7 e 9 deste mês, foi marcado por questões polémicas que, todavia, não foram suficientes para gerar um congresso dinâmico. Aquelas começaram nas queixas de participantes dos países africanos, que julgaram haver falta de representatividade destes nos painéis e terminaram em assuntos bem mais teóricos, como a questão da prática de um jornalismo de causas. Aliás, e após a abertura do congresso, onde o seu presidente, o jornalista brasileiro Alberto Dines, falou de «um projecto de entendimento» em Língua Portuguesa, o primeiro painel, “Jornalismo e Solidariedade: o Caso de Timor”, parece ter marcado o decorrer de todo o evento. Muitos jornalistas, imensos palestrantes e opiniões distintas. Às intervenções de Luís Vilasboas, secretário-geral da TSF, e Adelino Gomes, sub-director do “Público”, entre outros, respondeu Mário Mesquita com uma intervenção que, manifestamente, punha em causa a prática do jornalismo “emotivo”. A divergência de opiniões, todavia, não foi suficiente para dividir a consistência do quorum. Adelino Gomes, por ocasião do relato final do congresso, fez questão de propor a inclusão da posição do seu colega, ou seja, a falta de consenso quanto á questão da cobertura de Timor, acrescentando que este «lhe parecia não um relatório do que se passou, mas do que devia ter-se passado». Outra das questões que fez história neste congresso foi a do jornalismo africano, essencialmente o angolano, abordado em vários painéis, do “Mídia e Violência, Mídia e Paz” até ao último painel sobre as raízes e convergência do jornalismo lusofóno. A discussão foi acesa, como não poderia deixar de ser, tendo em consideração o facto de o Governo de Angola, numa operação de charme (ver foto), ter deixado que os jornalistas William Tonet e Joaquim Aguiar, arguidos num processo que se refere á liberdade de imprensa, estivessem a dividir a sala com pessoas como João de Melo, jornalista e deputado do MPLA. Outro dos temas que não podia deixar de ter pautado este congresso foi a questão das novas tecnologias. Esta foi abordada em painéis tão diversos quanto “A Nova Era da Rádio” ou os “Direitos de Autor”. Aqui, a discussão variou entre dois temas distintos: a questão da utilidade do jornalismo numa era em que a informação estará acessível a todos e a questão dos direitos de autor na era das novas tecnologias. As opiniões divergiram consoante o interesse dos participantes. Aliás, a sua heterogeneidade – de jornalistas a gestores da comunicação social (ver caixa) – foi evidente e contribuiu certamente para o seu enriquecimento. Pena é que a organização não tenha permitido aprofundar as polémicas, visto estarem sempre diplomaticamente presentes muitos palestrantes, não dando azo a sessões de discussão prolongadas. O verdadeiro debate parece ter acontecido fora das palestras. Aliás, foi longe destas que um grupo de jornalistas propõs, em abaixo-assinado, a constituição de uma Federação de Jornalistas de Língua Portuguesa. Ficamos á espera dos resultados.

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