1, 2, 3, concurso outra vez

Por a 17 de Março de 2000

Expliquei hoje ao meu alfaiate que estou a pensar mandar fazer dois fatos meia-estação e que, apesar de trabalhar com o senhor Ernesto desde meados da década de noventa, resolvi abrir concurso. É mais moderno. Já mandei as minhas medidas para os dez maiores alfaiates nacionais e para duas senhoras que trabalham por conta própria e são conhecidas da tia da melhor amiga da minha mãe. Fiquei contente com a minha decisão, apesar de já ter recebido algumas cartas perguntando-me quanto é que eu estava disposto a investir. Odeio quando me aborrecem com detalhes. Respondi, naturalmente, que se me surpreenderem com um modelo espectacular tudo é possível, muito embora tenha deixado claro que a minha decisão recairá sobre a proposta que conseguir o melhor equilíbrio custo/qualidade. Levantaram-me também uma questão sobre a forma de apresentação das propostas. Expliquei que um simples boneco, com algumas amostras, era mais que suficiente, mas que não podia fechar os olhos se aparecessem propostas já alinhavadas. Perante tantas questões levantadas para fazer um simples fato, resolvi ser um pouco mais objectivo e informei todos os alfaiates de que eu salvaguardava o direito de não aceitar nenhuma proposta, escolher o fato de um participante e o colete de outro, acrescentando que o fornecedor do tecido seria contratado directamente por mim. Quanto aos botões, estava a pensar fazer um concurso á parte. Como precisava de um dos fatos para ir a um casamento daí a um mês, dei uma semana para apresentarem propostas, três semanas para eu me debruçar sobre o assunto (não é fácil escolher entre dez fatos) e três dias para fazer o fato? Acham três dias pouco? Por favor, eu preciso de ver o fato antes do casamento. Pode ser preciso mexer nalguma coisa. E, aliás, toda a gente sabe que os alfaiates adoram trabalhar á noite e durante o fim-de-semana. As propostas ultrapassaram as minhas expectativas. Um dos alfaiates chegou mesmo ao ponto de apresentar três alternativas (por acaso não gostei de nenhuma). Outro surpreendeu-me com a oferta de uma camisa (pelo mesmo preço) e foi difícil dizer não ao alfaiate que apresentou ainda seis alternativas para gravata, botões de punho e uns sapatos que infelizmente não eram o meu número. Gostei, confesso que gostei. Sobretudo de um casaco. O mesmo já não posso dizer das calças. Talvez o desenho. Pareceu-me demasiado arrojado. Não era bem o que eu estava á espera. E descobri que devia ter mencionado que queria um fato cinzento escuro. Podia optar entre oito cinzentos claros, dois azuis e um branco completamente disparatado, mas, infelizmente, nenhum cinzento escuro. Outra coisa que me surpreendeu foram os preços. Como é possível!? Enquanto não me decidia, resolvi pedir orçamentos discriminados. Quis saber o preço de tudo: linhas; entretelas; chumaços; chumbos; tudo!!! Senti que me estavam a ir ao bolso de um casaco que ainda não tinha. Acabei por ter que ser eu a propor algumas alterações a uma das propostas. Cheguei mesmo a fazer alguns desenhos, não muito elaborados, mas bastante elucidativos. No fundo, no fundo, eu até percebo umas coisas de costura. Já recebi o fato. Por acaso ainda não o vesti. Outro dia vi um colega meu com um muito parecido e fiquei a pensar se alguma vez o usarei. Aliás, não sei o que é que se passa com os alfaiates. Já não fazem fatos como antigamente. Quando o casaco cai bem, são as calças que estão largas. Quando as calças têm um bom corte, é o casaco que tem as mangas curtas. Parece que é tudo feito á pressa, sem conhecerem bem o cliente, sem gosto. É raro encontrar alguém a quem se possa dizer que o fato assenta como uma luva. Por exemplo, como os fatos ingleses. Esses sim. Que acabamentos, que requinte, que perfeição! Já sei! A próxima vez que precisar de um fato abro um concurso europeu.

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