Não gosto de recados

Por a 11 de Fevereiro de 2000

Há situações que não compreendo. Esta semana, uma operadora de telecomunicações forneceu a uma jornalista nossa os dados da Publivaga referentes ao índice de recordação das campanhas das várias marcas a actuar no mercado. Ficámos muito contentes. Já não há desculpa para não divulgar o que se passa, de facto, no sector mais quente do momento. No entanto, como tínhamos algumas dúvidas técnicas, entrámos em contacto com o fornecedor do estudo em questão, a Marktest, de modo a esclarecê-las. Pouco tempo depois, o director comercial da referida empresa liga-nos, informando a jornalista de que os dados de que dispúnhamos – e que, recorde-se nos foram fornecidos por um cliente da Marktest – não deveriam ser divulgados. Não considerava oportuno e, por outro lado, tinha prometido os mesmos a um órgão de comunicação social de grande difusão. Segundo o mesmo, caso optássemos pela sua divulgação, as nossas relações poderiam ficar “estragadas”. Dadas as circunstâncias, a jornalista ainda tentou passar-me a chamada, mas o senhor em questão pediu-lhe que transmitisse o recado e que lhe falasse se tivesse dúvidas. Eu recebi o recado e passo a responder por escrito: 1º: Não gosto de recados; 2º: Não gosto de ameaças; e 3º: Não tenho dúvidas. E esclareço a razão desta minha revolta: os jornalistas, graças a Deus, têm autonomia para responder pelo jornal. Mas quando uma empresa que é a única a fornecer um produto relevante para todo um sector de actividade ameaça cortar relações com o único jornal que cobre semanalmente as notícias do mesmo, o caso torna-se mais grave. Ou seja, não me parece adequado transmitir “recados” cujo conteúdo envolva uma “ameaça”. Agora, falemos de exclusividade. Eu conheço bem o tema. A minha grande tarefa neste jornal é assegurar o maior número de notícias exclusivas. Mas eu sei que só posso assegurar as notícas até certo ponto. Ninguém impede os nossos leitores – que também são por vezes os meios – de reproduzirem as notícias que damos em primeira mão. Ninguém os impede de as tratar, desenvolver, reformular. Se a direcção comercial da Marktest não quer que os dados sejam divulgados, ou se quer ser detentora dos seus direitos de divulgação, então entenda-se com os compradores do estudo. Mas não abuse da sua posição dominante para reagir arbitrariamente. Lamento muito que isto aconteça. É que já não é a primeira vez. O último Bareme Imprensa, fomos buscá-lo já não sei onde. A direcção comercial da Marktest também mandou um recado similar. Considerando a importância da empresa em questão, julgo que os jornais especializados não deveriam constituir uma ameaça, mas, pelo contrário, ser os seus principais aliados. É que, convenhamos, é um bocadinho maçador andar á procura dos dados do Bareme, da Publivaga, etc… como se andássemos a fazer algo de ilícito. É penoso ter que pedir as informações aos seus clientes porque a direcção comercial Marktest se recusa, quando lhe convém, fazê-lo. Enfim, lamento ter que proferir este discurso, mas a alternativa seria pura e simplesmente ignorar o recado, o que, após tudo isto, não seria adequado.

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