Jornalismo maquiavélico

Por a 4 de Fevereiro de 2000

Todos sabemos que a definição de interesse público é, no mínimo, vaga. De facto, levada ao extremo, qualquer matéria jornalística poderá ter interesse para a vida pública. Há, no entanto, uma norma no código ontológico dos jornalistas que defende que estes não podem actuar sob disfarce, ou seja, escondendo a sua verdadeira identidade, a não ser que a matéria em questão seja de interesse público. E como tudo é de interesse público, esta regra fica-se pelas intenções. Ou seja, cabe ao jornalista conhecer os limites da sua actuação. Isto vem a propósito das reportagens da BBC que têm vindo a ser veiculadas pela RTP nas terças-feiras á noite. Os temas são de facto muito interessantes. Mas o processo de recolha de informação é duvidoso. O jornalista (que decerto não viverá muitos mais anos) infiltra-se no meio para investigar sob falsa identidade, ganha a confiança das fontes e consegue registar, sem consentimento, informações escaldantes. Não contente com o seu feito, monta a peça e faz comentários em voz off, defendendo uma posição. Normalmente, uma posição politicamente correcta, é certo. Mas não deixa de ser uma posição. A primeira reportagem que visionei dizia respeito á actuação das agências de modelos com as jovens manequins. Já esta semana, a reportagem focava os hooligans em Inglaterra. Ambas muito interessantes. Ambas brilhantes. Mas eu não consigo deixar de pensar que isto não é jornalismo. É uma derivação aberrante da nossa profissão. E aberrante, porquê? Porque todas as profissões, e principalmente aquelas que envolvem relações com os outros, têm regras de conduta. Os médicos têm de respeitar o sigilo médico, os advogados o segredo jurídico e por aí em diante… O jornalista, devido á responsabilidade inerente ao seu trabalho, tem de respeitar um conjunto de normas de conduta, sob pena de destruir a credibilidade da sua profissão. E como a regra do interesse público é vaga e ainda por cima excepção, o melhor é referirmo-nos ás regras básicas. Um: distinguir notícia de opinião; dois: utilizar meios legais para a obtenção de informação; e três: não abusar da boa-fé das fontes. Ora, neste tipo de trabalhos, o jornalista recusa as três regras escudando-se com a noção de interesse público. O problema é que ele prevaricou antes de saber se o tema era ou não de interesse público. E tal como prevaricou nestes casos, poderá prevaricar noutros que, por não terem interesse público ou dos públicos ao qual terá de prestar contas (como queiram), não foram transmitidos. Os fins justificam os meios. Trata-se de um jornalismo maquiavélico, que não se coaduna com os conceitos de ética que prevaleceram na modernidade. Digo que isto é aberrante porque se trata de exercer uma profissão em toda a liberdade, sem os constrangimentos da mesma. É como se o psicanalista do Presidente da República nos revelasse as suas angústias por serem de interesse público. É como se o advogado do SL Benfica nos revelasse os seus problemas por serem de interesse público. Judite de Sousa, após a emissão da primeira reportagem, justificou a qualidade e credibilidade da mesma por ter sido produzida pela BBC. Ora, eu acho que a BBC fez batota.

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