Correcção de rota

Por a 18 de Fevereiro de 2000

A saturação publicitária torna-se cada vez mais evidente. Por um lado, são boas notícias. Significa que existem investimentos crescentes, que a actividade nos media, na publicidade e de todos os que prestam serviços a estes estão florescentes. Por outro, representa uma ameaça, um desequilíbrio que provocará um novo ajustamento. Uma análise simplista conduz necessariamente a algumas conclusões óbvias: o número de portugueses não está a aumentar (antes está a diminuir); os dias continuam a ter 24 horas; as pessoas continuam a precisar de trabalhar e de dormir; o tempo disponível para ler, ver televisão, ouvir rádio, ir ao cinema ou andar na rua é o mesmo que sempre foi. Não. É menor, porque cada vez mais a Internet vai ocupando espaço, e muito, na vida dos consumidores. Economicamente, as coisas não vão melhorar muito. As taxas de juro já bateram no fundo, a capacidade de endividamento das famílias está á beira de esgotar, o rendimento disponível dos portugueses aumenta agora de forma mais lenta. Claro que existem baixas de preços. A pressão sobre as margens da distribuição e da indústria leva a que tudo hoje seja relativamente mais barato quando comparado com há alguns anos. Existe uma transformação do consumo. De facto, as pessoas que hoje têm telemóvel gastam um dinheiro que não gastavam há pouco tempo. Provavelmente, a grande maioria desses quatro milhões que usam telemóvel deixou de consumir outros bens e serviços, a troco desta sua nova factura mensal. Em resumo: temos a mesma gente, muito endividada, com o mesmo dinheiro ou quase e, acima de tudo, com o mesmo tempo para receber mensagens publicitárias pelos canais tradicionais. Estes últimos proliferam na TV e na imprensa, mas as suas audiências continuam a girar sempre em torno dos mesmos. A RTP tem limitações de espaço a oferecer. A Internet está naquela fase em que não é nem deixa de ser, mas em que todos querem acreditar (dos empresários aos investidores em Bolsa) que vai ter futuro enquanto negócio. Onde chegamos? Ao momento de, finalmente, os meios começarem a respeitar mais as suas tabelas de publicidade. Se cada vez existe mais investimento, mais empresas novas em lançamento, mais informação a dar, mas os receptores não aumentam de número e dedicam o mesmo tempo á recepção de informação, então que aumentem os preços. É uma questão de oferta e procura. Nada mais. Talvez assim se volte a moralizar um mercado, acabando de vez com os modos de agir comercialmente a que os anos da crise 93-95 nos habituaram, levando os anunciantes a criar hábitos pouco saudáveis para os restantes intervenientes na cadeia de valor.

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