A televisão deste século

Por a 7 de Janeiro de 2000

Até pouco mais de metade da década que agora começou, 30% da receita das estações de televisão virá do comércio electrónico, 50% da publicidade e 20% das assinaturas dos espectadores

A imagem habitual do espectador de televisão é a do tipo preguiçoso, mais ou menos esparramado num sofá, a beberricar qualquer coisa e a encher-se de migalhas de chocolate ou de bolachas. O supra-sumo da actividade do espectador nos bons tempos da televisão do século passado era um grito ou um impropério, dependendo de se o golo tinha sido marcado pela sua equipa ou pela adversária. A televisão deste novo século, que será a televisão digital interactiva, vai mudar este estado de coisas. A TV vai deixar de ser o monumento do direito á preguiça, para passar a ser a bandeira da liberdade de acção. Os espectadores vão passar de receptores passivos a intervenientes activos. E, acima de tudo, vai estabelecer-se um novo paradigma: a televisão vai passar do estatuto de mass media para o de veículo de intimidade: a relação não é estabelecida com uma multidão de espectadores, mas sim com cada um deles, um a um. Num futuro próximo, o espectador pode comandar ele próprio a repetição, individualizada, de uma determinada jogada, ou visualizar um golo de um outro ângulo. Mas poderá, também, agir sobre as transacções: em vez de, por exemplo, ir comprar uma viagem para as Caraíbas áquela que seja aparentemente a melhor oferta, poderá simplesmente lançar um leilão: «Tenho 250 contos para gastar com duas pessoas numa semana de férias nas Caraíbas – que me oferecem em troca?» E ficará a aguardar as respostas. Muitas compras poderão passar a ser leilões invertidos. Os sistemas digitais, sejam hertzianos, de satélite ou de cabo (e estes últimos vão decerto ser os primeiros implantados em Portugal) permitirão que o cliente estabeleça uma relação directa com o fornecedor de conteúdos via set-up box, essa caixinha mágica que facilitará que cada espectador comunique directamente com o canal que está a ver. De facto, a nova televisão será o fruto da convergência da velha televisão com a Internet. Esta convergência criará obrigatoriamente novas formas de desenvolver conteúdos e possibilitará novas formas de comércio electrónico. O facto de toda a atracção de espectadores se continuar a basear na capacidade de despertar o seu interesse fará, no entanto, que aqueles que detêm a capacidade de produzir programas de televisão continuem a ter uma enorme vantagem sobre os simples operadores de comunicações ou os fornecedores de Internet. Uns terão que cooperar com outros e ninguém poderá viver de costas voltadas. Dominar as possibilidades da convergência entre televisão e Internet é o desafio que se vai colocar a todos nos próximos anos. Estudos recentes indicam que até um pouco mais de metade desta nova década que agora começou, 30% da receita das estações de televisão virá do comércio electrónico, 50% da publicidade e cerca de 20% das assinaturas dos espectadores. Só isto vai alterar radicalmente a lógica e a estrutura da programação. E todos aqueles que hoje produzem programas para a velha televisão, terão que começar a pensar como poderão adaptar-se aos novos tempos.

Deixe aqui o seu comentário