O spot que valeu por sete

Por a 24 de Dezembro de 1999

O humor é uma característica excelsa. Ainda mais no futebol e na publicidade. O drible é um exercício do humor sobre a violência. Oxigénio para mentes extenuadas, no tenso jogo do tempo que vivemos

No futebol como na publicidade não existem campeões morais. Joga-se conforme regras pré-determinadas. Vence quem tem garra. Quem tem talento. E usa e ousa, mas não abusa, da criatividade. Ninguém joga para perder. As derrotas existem, porém. São parte da essência do futebol. Da sua mística. Do esplendor e do calvário das pequenas ou grandes equipas. Em qualquer continente, só se tornam desmoralizantes quando tentam explicar os falhanços com falhanços ainda maiores, principalmente ao nível da comunicação. A dignidade é uma senhora respeitável. Não faz comunicados apregoando a integridade dos seus valores sobre o que destoou da sua imagem. Tão- -pouco lança mão de vitupérios quando é pegada no contra-pé. Tem a sabedoria de absorver o impacto sem perder a compostura. Conserva o savoir-faire. Sabe que o mundo é uma bola. O humor é uma característica excelsa. Ainda mais no futebol e na publicidade. O drible é um exercício do humor sobre a violência. Oxigénio para mentes extenuadas, no tenso jogo do tempo que vivemos. Faz a bancada delirar com seu feitio irreverente. Desequilibra jogos de vida ou morte. Quase nos convence de que, também nós, poderemos driblar o inevitável, no lance final das nossas vidas. Bergson, em “O Riso”, filosofa e decifra o sistema do poder desconstrutivo-construtivo do riso. Na publicidade é igual. Milhões de anúncios estão em campo. Poucos emocionam como um golo. E o golo, definiu Roberto Dinamite, ex-atacante do Vasco da Gama (o time dos portugueses no Rio de Janeiro), é como um orgasmo. Como é um golo, o anúncio que dribla a mediocridade, apesar “da consciência da desimportância da publicidade na vida das pessoas”. Expulsamos de campo um jogador que consegue arrasar a defesa adversária, deixando-a estatelada no chão, por sua habilidade? O drible é tão-somente a humilhação do adversário? Ou meio de chegada á meta, que é o golo? Enxovalhamos, com impropérios e estultices, quem aproveitou a oportunidade, criada pelo próprio adversário, ao escancarar a sua defesa? Ilibados profissionais, passa-se a usar métodos rasteiros? Ou esta é simplesmente mais uma afirmação infeliz, que baixou o nível á perspectiva de quem ficou de rastos com o drible que levou? No futebol, na publicidade, os velhos do Restelo costumam apelar com ranzinzices e golpes baixos. Tentativa malsã de arrebentar com os joelhos dos craques. É típico. O pior, é que nem pareciam falar de um assunto onde as claques se espicaçaram até fartar, com saídas sublimes. Saídas que nem o melhor publicitário do mundo conseguiria criar. O que, convenhamos, é totalmente mais saudável, e revigorante, do que andar á porrada. Seja na bancada ou nos debates na TV. Pedro Batalha (Torpedro) e João Matado (Zangado) são a dupla da área no momento. Publicitários do Porto, sim senhor. Dominam a diferença entre o que é paródia e o que é parolo. Fazem uma tabelinha com habilidade e intimidade tal, como só os meninos simples e abençoados têm com o futebol. Assim fizemos uma campanha, privilegiando o rádio. Este craque da comunicação tão injustiçado. Simplesmente um spot. Nada mais do que isso. Mas foi um golo que valeu por sete. Sem qualquer impedimento legal, ético ou moral. Foi lícito e legítimo. Acima de tudo, profissional. Bilhetes vendidos. A torcida agradece e pede bis. Pedro Batalha, João Matado e eu continuamos na área. Prontos a aproveitar outra oportunidade. Porque, como já dizia o Neném Prancha (o tio Olavo do relvado), no futebol – e na publicidade – quem não faz, leva. E nos apetece fazer bem mais do que fizemos.

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