Ainda não ouvimos nada

Por a 10 de Dezembro de 1999

As melhores “brands” de rádio podem vir a concorrer, numa linguagem comum e tipificada para a internet, com as televisões, títulos da imprensa ou outros

Em Agosto de 1996, em Columbus, a capital do estado norte-americano do Ohio, “varri”, primeiro, o espectro do FM e ouvi muita música, de géneros diferentes. Mudei para AM e voltei a correr o espectro. A música era pouca ou nenhuma. Havia, sobretudo, palavra, muita conversa. Em Nova Iorque vim a ouvir uma estação emissora cujo “slogan” dizia: “dê-nos vinte e três minutos, contamos- -lhe o mundo”. Em Los Angeles havia á época duas estações que concorriam no segmento da informação de trânsito, meteorologia e música “easy listening”, fácil de ouvir, relaxante. Explicaram–me depois o fenómeno: nos Estados Unidos, onde existem cerca de onze mil estações de rádio, há estações de todos os géneros, dirigidas a todos os gostos. São as rádios temáticas. No FM, cidade a cidade, estado a estado, confrontam-se as rádios musicais: “Young Country Music” e também simplesmente “Country Music”; “Goldies” (êxitos dos anos 50, 60 e 70); “Young Rock”; “Jazz and Classics”; “Top 40” (os discos mais vendidos do rock e da pop). Em AM (Onda Média), o tempo é dedicado á palavra: “talk-shows” em abundância, noticiários e reportagens. Ocorre que há ainda as chamadas rádios comunitárias, vulgarmente desenvolvidas a partir das universidades estaduais, que retransmitem, pagando a quota de filiação, a programação das grandes produtoras, as “majors” da rádio nos Estados Unidos, como a altamente recomendável “National Public Radio” (www.npr.org). Estas estações não vivem da publicidade, nem dos orçamentos das universidades. Em cada seis meses fazem um peditório á comunidade local ou estadual em que estão inseridas. Em Portugal, onde em meados da década de 80, este meio “velho” – a rádio -, reanimou fortemente, a fragmentação temática surgiu rapidamente. Temos hoje música e palavra a concorrer pelos públicos-alvo e já não pela audiência e pelo mercado publicitário, ao nível nacional. A tradição das rádios generalistas coabita, portanto, com a segmentação: a par da Rádio Renascença e da rádio pública Antena 1, surge a TSF para a informação; a Mega FM, a Rádio Cidade ou a Antena 3 com selecções musicais para as classes etárias mais jovens; a RFM ou a Rádio Comercial com música e entretenimento para as “classes médias”, abaixo dos quarenta anos de idade, etc. Com a chegada, a prazo, da rádio digital (D.A.B. – “Digital Audio Broadcast”), a qualidade de som vai melhorar, a de recepção também. Será possível incluir serviços de valor acrescentado, como a informação meteorológica ou de trânsito localizada e interactiva, recorrendo ao texto, ao vídeo ou á fotografia, numa linguagem de convergência. É possível teorizar e concluir que a especialização temática ou de géneros se vai multiplicar, apesar dos grandes investimentos a que o D.A.B. obriga. Na senda da globalização, os mercados tendem a expandir-se geograficamente. As melhores “brands” de rádio podem vir a concorrer, numa linguagem comum e tipificada para a internet, com as televisões, títulos da imprensa ou outros. E como partilho do princípio de que a dúvida nos conduz ao saber, até onde vai a elasticidade do mercado para suportar a “micro-fragmentação”, sendo certo que o mercado responderá!

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