Comunicação e transparência

Por a 19 de Novembro de 1999

A APECOM organizou, na sexta-feira passada, um congresso dedicado á comunicação empresarial onde participaram quase todos os peritos na matéria em Portugal, bem como alguns dos mais conceituados especialistas mundiais em relações públicas. O dia esteve recheado de ideias, mas há um ponto que parece ser o mais importante – a necessidade de transparência e profissionalização do sector. Diria mesmo, ao contrário, a necessidade de profissionalização do sector para conseguir a transparência necessária. Embora as coisas estejam a mudar, é certo que a actividade de relações públicas ainda é mal compreendida pelo público português. As empresas e instituições pensam que os profissionais do sector servem fundamentalmente para controlar a imprensa e, por seu lado, os jornalistas pensam que tudo o que vem dessas empresas é necessariamente um “frete”, que deverá ser pago com outro “frete” – uma cacha, um exclusivo, um favor. Ora, esta visão das relações públicas não só é caduca como também está completamente errada. É caduca porque corresponde eventualmente aos primórdios da actividade. Ao ouvir as palestras dos participantes estrangeiros, podemos compreender que a tendência é enveredar pela actividade de consultoria. E o que é que isso quer dizer? Uma empresa deste tipo, um especialista desta actividade, tem como objecto tornar o seu cliente inteligível para o seu público. É, a meu ver, esta a grande tarefa. Perceber a empresa com a qual trabalha, definir as suas mais-valias e menos-valias, compreender o que os outros esperam da mesma e tentar encontrar um elo de ligação positivo. Para tal, uma (não a única) das funções que tem reporta ás relações com a imprensa. E isto não quer dizer ir almoçar com os jornalistas, mas sim conhecer bem os meios e o meio, podendo assim saber o que é que pode ser, em termos informativos, pertinente e interessante para os mesmos. É que quem compra notícias não são os clientes, são os jornalistas. É errado julgar que uma empresa destas é necessariamente um atentado á liberdade de imprensa. Bem pelo contrário, se a empresa cumprir com a sua função, poderá contribuir em muito para a compreensão dos muitos sectores de actividade que, por serem complexos, podem ser alvo de análises limitadas e mesmo ignorantes. Cabe ao jornalista, com o espírito de análise e curiosidade que lhe é pedido, compreender a verdade. O problema é que há uns que pagam pelos outros. Ou seja, ainda há muitos que acham que a sua actividade se resume a enviar indiscriminadamente press-releases para os órgãos de comunicação social e, eventualmente, encontrar o favor de um jornalista para divulgar aquilo que nem sequer entende bem. É por esta razão que ainda há muito que fazer. A APECOM, devido ao seu entusiasmo e coragem de expor estes problemas em público, poderá, a meu ver, contribuir em muito para alterar esta situação, separando o trigo do joio. Os seus corpos sociais estão empenhados em definir competências no sector. É urgente criar critérios qualitativos e quantitativos para definir esta actividade. Criar um código de ética. Defender e esclarecer os clientes que, muitas vezes, não percebem as consequências negativas de um trabalho de relações públicas mal feito. E, principalmente, fazer perceber que os jornalistas que escrevem em órgãos de comunicação social influentes não fazem favores. É talvez por isso que são influentes. Se há excepções, eu desconheço. Julgo que decerto o conseguirão. E aproveito para felicitar o empenho de todos em organizar esta iniciativa, bem como o clima de entendimento e transparência que sobressai daquela associação. Rectificação: Por lapso, publcicámos na edição nº 80 que as audiências dos ATM’s cresceram 40 mil utilizações relativamente ao mês de Setembro do ano anterior. Na verdade, o crescimento foi de 4 milhões. Aos visados e aos leitores, as nossas desculpas.

Deixe aqui o seu comentário