A nova televisão

Por a 26 de Novembro de 1999

A Lei da Televisão portuguesa,aprovada há ano e meio, é escassa na previsão do futuro e bastante alheia á Web TV e á televisão digital

Nos próximos meses vamos começar a assistir a mais uma transformação de hábitos nas nossas casas: a Internet de banda larga vai começar a entrar no mercado e com ela virá necessariamente a Web TV. Se conjugarmos isto com a mais que certa abertura da TV Cabo a canais temáticos portugueses, e á entrada de novos operadores de telecomunicações e distribuidores de sinal, podemos estar certos que 2000 vai ser um ano bem agitado do lado do audiovisual e da sua conjugação com as novas tecnologias de comunicação. Os primeiros canais interactivos concerteza que começarão a funcionar, o que só por si faz logo pensar na possibilidade de novos sistemas de vendas e de relacionamento com o consumidor. A ligação á Internet vai deixar de ser esporádica e deliberada (quer dizer, estar ligado necessita de um conjunto de comandos e do estabelecimento de uma ligação telefónica), para poder ser uma constante que funciona inconscientemente. E, no entanto, o nosso panorama de televisão está francamente atrasado em relação ao que se passa, por exemplo, aqui ao lado em Espanha, não só no que toca a canais locais, regionais e temáticos, mas também no que diz respeito ás novas tecnologias e ás plataformas digitais. A coisa é de tal maneira que mesmo a Lei da Televisão portuguesa, aprovada há ano e meio, é escassa na previsão do futuro e bastante alheia á Web TV e á televisão digital. As potencialidades dos novos sistemas e as capacidades que eles abrem são enormes. Se o mercado conseguir funcionar de forma aberta e se for salvaguardada a concorrência, os efeitos na paisagem audiovisual portuguesa serão certamente enormes. Um dos nomes históricos da televisão brasileira, o mítico Boni, durante décadas responsável pelo desenvolvimento estratégico da Rede Globo, está de saída do gigante e, no período de transição que aceitou, disse já que logo que possa se pensa dedicar a uma estação local de TV. É nessas estações que tudo falta fazer, que tudo está por descobrir, diz Boni. Boni é bem capaz de ter razão mais uma vez. O desafio agora não é só ganhar audiências, é conseguir comunicar quase individualmente, captar pessoa a pessoa, estabelecer relações, ganhar a confiança. O desafio, como no tempo dos pioneiros, vai ser levar a televisão ás pessoas e não trazê-las ás estações. Nestas televisões que vão nascer, os novos espectadores serão activos e não passivos. O processo implica riscos, imaginação e a exploração de todos os recursos tecnológicos que permitem que a televisão se abra para a rua e que não se feche nos estúdios. Fazer isto, criar novos formatos onde se pense á partida no espaço para a acção do espectador, e, simultaneamente, produzir de forma mais económica, são os desafios que estão já aí ao virar da esquina. A coisa promete.

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