Orquestração de acasos

Por a 20 de Agosto de 1999

Está toda a gente de férias. Passo a enumerar: o senhor Secretário de Estado Arons de Carvalho está de férias, o Dr. Pinto Balsemão está de férias, o Eng. Murteira Nabo está de férias. Peço desculpa, mas não acredito que, embora desfrutando momentos de ócio, qualquer deles esteja a ter umas férias descansadas. Desde o desenlace do processo entre a TVI, a Lusomundo e a Sonae que não assistíamos a movimentações tão interessantes. Isto só me faz levantar uma ligeira dúvida: será que foi tudo orquestrado ou que tem alguma finalidade além de meras mais-valias? Se não, vejamos. A Lusomundo anuncia a compra de uma parcela da Investec, o que lhe permite ter o controlo da empresa. Uma bela surpresa. Um ataque frontal ao controlo da SIC. A Lusomundo nunca escondeu as suas intenções. Mas preveria a reacção dos outros accionistas? Será que só contava com o parecer da CMVM para concretizar o negócio? A Cofina e o BPI antecipam a jogada e lançam uma OPA á Investec. Será que a OPA foi lançada para obrigar a Lusomundo a avançar com uma contra-OPA ou será que, de facto, a Cofina tem um interesse real na empresa? Os mais puros acreditam que a acção da Cofina e do BPI é puramente instrumental, ou seja, só pretendem com isto salvar os direitos dos pequenos accionistas, nomeadamente a própria Cofina e os fundos ligados ao BPI. Já aqueles que têm tendência para a conspiração consideram que esta reacção foi instigada pelo Governo ou mesmo por Pinto Balsemão. Mas as versões divergem e contradizem-se. E se a Portugal Telecom (PT) poderá estar interessada em manter um accionista/gestor na SIC, já o Governo não tem interesse em que a SIC seja controlada por Balsemão, agora que se perfila uma eventual candidatura sua á Presidência. Enfim, uma coisa é certa: nem a PT nem o Governo terão interesse na entrada da Cofina…. É que, á partida, esta empresa não tem, a médio ou longo prazo, objectivos na comunicação social. Ou seja, vai ceder. A quem, não sabemos… Poderá ser a qualquer um, até a um estrangeiro… E depois, o que vai fazer o ministro Sousa Franco? Eu não acredito em conspirações. Seria bom, e eventualmente reconfortante para alguns, que todas estas operações tivessem um sentido, que pudessemos prever o seu desfecho. Mas não me parece. Isto não é mais do que uma orquestração de acasos onde vai ganhar o mais astuto, ou seja, o que conseguir movimentar mais dinheiro no mais curto espaço de tempo.

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