República das Bananas

Por a 23 de Julho de 1999

Leram a entrevista que o Eng. Belmiro de Azevedo deu ao “Expresso” no passado sábado? Não encontraram nada de estranho? Eu descobri que o senhor engenheiro, além de ser um génio em várias áreas, da exploração hoteleira ás telecomunicações, é também um grande gestor de comunicação social. Por entre as várias informações que nos prestou, explicou que, tal como Pinto Balsemão, foi um dos que ganharam mais dinheiro no ano passado com um canal de televisão. Um lucro superior a dois milhões de contos… Realmente, isto é mesmo uma “República das Bananas”. Só num sítio deste género é que um pessoa chama banana a toda a gente e ainda por cima se vangloria de o ter feito. Esta passagem que diz respeito á TVI é elucidativa. Não considero normal que um cidadão faça uma operação como a que foi feita, puramente especulativa e oportunista, e depois venha a público dizer que é um grande mestre gestor. É como se eu comprasse umas acções da Ibersol, ganhasse uma mais-valia e depois dissesse ao dono do café aqui do lado que era mais esperta do que ele pois ganhava muito sem fazer nada. Pior. É como se um prestamista ali da Praça da Figueira comprasse uma jóia de família a um toxicodependente e depois a vendesse de novo á família pelo preço justo e viesse a público dizer que é um génio. Até percebo que fique intimamente satisfeito por ter concretizado o negócio, mas o facto de se mostrar vaidoso parece-me fruto de uma inconsciência primária. E já que faz – e desejo-lhe, como a todos, que faça muitos milhões -, pelo menos tenha a decência de não exteriorizar o seu orgulho por se ter saído bem. Permita o empresário que, ao contrário de um clube de futebol ou um partido político, eu não o considere um herói por ganhar dois ou três milhões de contos por ser “vivaço”. Bem sei que esta interpretação é um pouco exagerada, que a TVI não era uma jóia de família, os credores uns toxicodependentes e os accionistas uma família. Mas choca-me esta manifestação de desprezo pelas normas de ética mais básicas. Parece que neste mundo dos negócios, isto não existe mesmo. Embora a frontalidade e pujança empresarial do protagonista sejam admiráveis, julgo que temos todos o dever de actuar segundo alguns padrões, se não morais, pelo menos estéticos. E, ao que parece, há por aí muita gente que aproveita o seu mísero tempo de antena para agredir, confundindo coragem com violência gratuita e um certo ressabiamento com um sentimento de injustiça. Este tipo de afirmações, proferidas por tão ilustres personalidades, só fomentam o empobrecimento dos nossos valores, na medida em que instituem ideias e procedimentos que, a meu ver, não deveriam ser objecto de culto. Parece hipocrisia, mas não é. A responsabilidade social, que os empresários e jornalistas portugueses tanto pretendem defender, começa mesmo por aí. Pelo bom gosto. Por isso, ás vezes, mais vale estar calado e transformar a raiva em algo mais construtivo.

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