“Primeiro entranha-se, depois estranha-se”

Por a 30 de Julho de 1999

Esta vaga do Bareme Imprensa é realmente surpreendente. Isto porque nada fazia prever uma quebra de audiências com esta envergadura. Todos colocamos questões, principalmente porque a grande descida se regista no segmento dos diários, o “pão” da imprensa. Haverá alguma razão para que isto aconteça?. Sazonal, não deve ser, visto que a quebra relativa ao período homólogo do ano passado é ainda maior. Então, só pode ser estrutural. Eventualmente, cada vez se lê menos. A este ritmo, e se tivermos como base estes dados, daqui a nove anos não existirá imprensa escrita? Mas o que é preocupante nestes dados não são só os seus resultados, mas sim o facto de estes não poderem ser comparados com quaisquer outros. Começemos por nos entender. O Boletim da APCT (Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem), uma organização que integra os editores de jornais e revistas que voluntariamente querem ser membros, indica quatro vezes por ano os resultados do último trimestre da circulação dos títulos voluntariamente analisados. Pelo sim, pelo não, faz uma auditoria (utilizando a BDO Binder para o efeito) a alguns meios, por escolha aleatória ou não, confirmando que os números apresentados pelos editores são verdadeiros. Isto é, os números de circulação apresentados pela APCT baseiam-se na boa-fé dos membros. Já a Marktest, empresa privada de estudos de mercado, publica três vezes por ano um estudo de audiência – designado Bareme Imprensa – dos meios de imprensa (tal como faz para rádio e televisão). Esse estudo faz-se em três vagas por ano: sem rigor, a primeira entre Janeiro e Março; a segunda entre Abril e Junho; a terceira entre Setembro e Dezembro. Em cada uma destas três vagas são inquiridos entre 5 mil e 6 mil indivíduos, uma amostra representativa de cerca de 7,5 milhões de portugueses. Sem pormenores extremos, os inquéritos são telefónicos, sempre a pessoas diferentes, duram cerca de 18 minutos em média e esmagam os interlocutores com perguntas, título a título “se viram…, etc…”. Será então possível comparar os dados de audiência com os dados de circulação média paga? Não me parece. No mínimo, poder-se-á fazer um cruzamento. Se bem que, se analisarmos ambos os dados referentes ao mesmo periodo, a discrepância não seja aberrante – ou seja, de modo geral, as audiências acompanham de longe a circulação – certo é que são dados diferentes. E que, mesmo que quisessemos estabelecer agora uma comparação relativamente a este trimestre, não temos os dados da APCT referentes a este período para retirarmos conclusões. É nestes momentos, de crise e de dúvida, que se sente a necessidade urgente de poder contar com alternativas. É pena que esta questão só seja levantada nestas ocasiões. Cada vez há mais revistas e jornais e ninguém, a não ser a Marktest, parece estar interessado em desenvolver os estudos de audiências. Assim, neste caso, o slogan de Pessoa fica ao contrário: “Primeiro entranha-se, depois estranha-se”.

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