O case-study

Por a 21 de Janeiro de 1999

Na semana em que se anuncia a constituição da PT Conteúdos, recebi pela primeira vez uma grelha trimestral do Canal de Notícias de Lisboa (CNL). Referente ao primeiro trimestre do ano 2000, apresenta a programação e pretende chamar a atenção aos potenciais anunciantes e publicitários. Ah!, é verdade: apresenta a grelha de programação, mas esqueceram-se de lhe juntar a grelha de preços. Se a ideia é cativar anunciantes e apresentar «um meio privilegiado para transmitir mensagens publicitárias», convinha juntar os números para que os possamos divulgar. Mas o mais engraçado nesta informação nem é a ausência de preocupações de ordem numérica. É a tentativa de fazer passar a mensagem de que o CNL continua a existir, independentemente da parceria, independentemente dos interesses alheios ao «projecto inicial». Há um parágrafo interessante nesta apresentação que diz: «De acordo com o projecto inicial e com a entrada de um parceiro estratégico (?), o CNL transformar-se-á naturalmente num case-study da televisão portuguesa?» Meus senhores, o CNL já é um case-study da televisão portuguesa. Pelo menos, é um case-study na área de gestão. Gostava de dar uma vista de olhos nos custos e nas receitas do canal. Os custos devem ser quase tão baixos quanto as receitas. Chamaria a este tipo de gestão “gestão atrofiada”. Ou, então, “gestão de subsídio”. O parceiro poderia dar uma grande ajuda neste aspecto. E a PT Conteúdos, se quiser continuar na linha de gestão adoptada pela TV Cabo para os conteúdos, deveria limitar-se a gerir participações sociais, mais nada. Por outro lado, o parceiro estratégico, a SIC, parece não estar muito interessada em desenvolver o tal «projecto inicial» que é referido. Toda a gente sabe. Foi veiculado por todos os jornais, incluindo o nosso. Não faz muito sentido enviar um press nestes termos. Imaginem se o Dr. Rangel fizesse a mesma coisa! Emitia um comunicado da SIC a dizer que, agora, depois de controlar 60% do capital do canal, iria desenvolver um case-study á boa maneira da SIC. Seria idêntico e ridículo. Todavia, até fazia mais sentido, visto que, dadas as circunstâncias, quem manda agora são eles. Esta informação que recebemos só tem uma pretensão – não é vender publicidade e também não é apresentar a grelha, é uma manobra de diversão. O Eng. Graça Bau quer mesmo ir á luta e insistir na sua maravilhosa invenção. A meu ver, isto é uma brincadeira. Como é possível que este tipo de coisas aconteça em empresas de tamanho gabarito? Não estamos no recreio da escola, meus senhores. Isto é negócio. São empregos, são investimentos avultados, é responsabilidade. Acham mesmo que o projecto inicial, ou seja, o projecto tal como está, é viável? Acham mesmo que é suposto a SIC deixar as coisas tal como elas estão? Eu compreendo que é difícil perder o controlo de um projecto que construimos de raiz. Também compreendo que é difícil “desformatar” a nossa cabeça e pensar de forma diferente. Mudar o nome, mudar a incidência do canal, põr de parte a ideia regional, etc… Mas também julgo que a PT não está em posição de negociar. Há que admitir que o parceiro estratégico é o salva-vidas deste canal. Será melhor para todos, dos jornalistas aos espectadores, que o canal tenha uma gestão profissional. Já agora, quanto ao Porto, faço uma proposta: por que não encontrarem uma posição de consenso? Fazem o tal CNN português e juntam-lhe uma emissão de incidência regional tipo “País País” em horário nobre. O que é que acham?

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